AQ
Ary Quintella
O embaixador Ary Quintella escreve quinzenalmente no Estado de Minas. Seu livro "Geografia do tempo" foi, em 2025, finalista do Prêmio Jabuti

A diplomacia e seus aliados

Escritores, artistas, jornalistas, pesquisadores tornam-se aliados do Itamaraty no esforço de ampliar, diversificar, tornar mais rica a interação do Brasil com outros cantos do mundo

Publicidade

Mais lidas

Foi por meio de uma matéria no jornal “O Globo”, assinada pelo jornalista Marcelo Ninio, que fiquei sabendo da visita que faria ao Brasil o secretário-geral da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), Kao Kim Hourn, em 18 de agosto. O título da matéria, “Visita do secretário-geral da ASEAN reforça aproximação do Brasil com bloco asiático”, já diz muito.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover


O texto apresenta o estado das relações do Brasil com o Sudeste Asiático, que vêm ganhando dimensão de maneira progressiva e consistente. Sobre os países da Europa e os Estados Unidos, nós brasileiros sabemos bastante, ou ao menos acreditamos saber. Os laços culturais são extensos e antigos. O mesmo não é necessariamente verdadeiro em relação a outros continentes ou regiões.


À medida que se desenvolvem as relações políticas, econômicas e comerciais com os países do Sudeste Asiático, é importante valorizar os esforços individuais, de jornalistas, acadêmicos e escritores, para nos aproximar desses países. Como lembra Marcelo Ninio, o Brasil exporta para os cinco maiores mercados da ASEAN (Singapura, Indonésia, Vietnã, Malásia e Tailândia) “o mesmo que para os cinco destinos tradicionais do G7” (Alemanha, Itália, Reino Unido, Japão e França). Relações bilaterais sólidas, contudo, dependem também de um conhecimento mútuo no plano cultural, acadêmico e histórico.


O pesquisador Valter Peixoto oferece a sua valiosa contribuição, divulgando, nas redes sociais, com o pseudônimo “MenteMundo”, estudos sobre a geopolítica, a economia e a política do Sudeste Asiático. Escritores, artistas, jornalistas, pesquisadores tornam-se, assim, aliados do Itamaraty no esforço de ampliar, diversificar, tornar mais rica a interação do Brasil com outros cantos do mundo. “Aliado” não significa aqui cooptação, mas parceria. Pontos de vista, e mesmo propósitos diferentes são naturais; o importante é o resultado, a criação de vínculos abrangentes.


Fiquei lisonjeado quando Daniela Barrier, brasileira casada com um diplomata francês, me convidou para escrever o prefácio de seu livro “Um traje para o aniversário do sultão e outras histórias verídicas”, lançado este ano pela editora Polifonia. A obra é fruto da experiência de Daniela em Kuala Lumpur, onde morou com o marido, Gilles Barrier, enquanto este servia na embaixada da França.


A autora descreve sua vida no país, por meio de várias situações que presenciou e amigos com os quais conviveu, sem afetação, capturando de maneira direta a atenção do leitor.


Há duas atitudes possíveis para quem mora no exterior. Pode-se conviver apenas, ou sobretudo, com compatriotas ou outros expatriados com os quais se percebem afinidades. A pessoa organiza sua vida social dentro de um grupo que pouco sabe ou entende da realidade local. É uma forma de isolamento voluntário. É a opção por viver em uma cápsula. Pode-se estar ali como em qualquer outro lugar. Não se incorpora qualquer visão nova.


A atitude alternativa, a meu ver preferível, é mergulhar com entusiasmo na cultura local, fazer amizades com nacionais daquele país, sair da zona de conforto, dar-se ao trabalho de compreender outra realidade, aprender ao menos os rudimentos de uma nova língua, de novos hábitos, de uma mentalidade distinta daquela em que se foi criado.


As pessoas frequentemente preferem a primeira opção, a do isolamento cultural e social. É a mais fácil; a menos desafiadora; a mais tranquilizadora.


Daniela Barrier escolheu a segunda atitude. Em “Um traje para o aniversário do sultão” estamos diante de uma brasileira, uma gaúcha que, pelo casamento, assimilou a cultura francesa sem nunca perder a brasilidade. Ao acompanhar o marido em seus postos no exterior, manifesta, adicionalmente, curiosidade, compreensão e apreço pelas culturas que vai descobrindo.


Para um brasileiro, o Sudeste Asiático é distante, diferente e quase desconhecido. Daniela Barrier observa: “Quando anunciei aos meus familiares e amigos que iria morar na Malásia, a notícia foi recebida como uma traição: 'O que você vai fazer lá do outro lado do mundo?'”. Ao chegar, constata: “Cores, cheiros, sons, sensações, códigos sociais e religiosos, tudo era novo e surpreendente”.


A Ásia costuma provocar essa impressão, de que por mais que tentemos, não chegaremos a compreendê-la perfeitamente. É bem possível que o Brasil, país continental, de enorme complexidade e diversificada riqueza cultural, crie nos estrangeiros, inclusive asiáticos, a mesma impressão de estranheza.


Multicultural, multiétnica, multirreligiosa, a Malásia é um lugar de realidades ricas e variadas. Tendo sido embaixador em Kuala Lumpur durante cinco anos, julguei, quando chegou, em 2025, a hora de partir em uma nova missão de trabalho, que, mesmo depois de tanto tempo frequentando preferencialmente malásios, em diferentes esferas políticas, econômicas, sociais, artísticas, literárias, jornalísticas, e tendo feito ali amigos excelentes, havia ainda muito a descobrir.


Independentemente da importância comercial que o Sudeste Asiático, incluindo a Malásia em particular, adquiriu para o Brasil, a localização geográfica da região a torna um dos epicentros, hoje, das disputas geopolíticas no mundo. Lá podem ser observadas de maneira mais intensa as tensões entre a China e os Estados Unidos. A Malásia, especificamente, situa-se entre o Mar do Sul da China e o Oceano Índico, ao longo do Estreito de Malaca, por onde passa parcela considerável do comércio mundial.


O poeta franco-belga Henri Michaux publicou em 1933 um relato de viagem à Ásia. Mas é em um livro anterior, sobre o Equador, de 1929, que ele lança uma frase na qual penso frequentemente. Michaux escreve: “Dans les lieux qu´on ne connaît pas, il y a donc parfois quelque chose”, que eu traduziria como: “Também nos lugares que não conhecemos, acontecem coisas, afinal”.


Sim, acontecem. O que Daniela Barrier oferece ao leitor, com seu livro encantador, é a oportunidade de olhar em direção a uma região tão longínqua da nossa e, ao mesmo tempo, tão sedutora. Generosamente, ela transmite o sentimento de fascínio e satisfação que uma mente aberta ao mundo pode receber ao perceber uma nova realidade.


Torna-se aliada da diplomacia.

• • •

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


O embaixador Ary Quintella escreve quinzenalmente no Estado de Minas. Seu livro “Geografia do tempo” foi, em 2025, finalista do Prêmio Jabuti

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Tópicos relacionados:

brasil

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay