Há uma guerra em curso. Na verdade, há mais de uma, como costuma acontecer. Mas você sabe a qual delas estou me referindo. E se acha que a violência atual no Oriente Médio e no Golfo Pérsico nada tem a ver conosco no Brasil, é melhor pensar de novo. É preciso avaliar as novidades no noticiário internacional e analisar seus múltiplos desdobramentos.


Quando a terceira guerra mundial se iniciar, ninguém nos avisará. Não haverá uma declaração formal. Entenderemos aos poucos. O volume de mísseis disparados, navios afundados, cidades destruídas, tesouros artísticos arruinados, países envolvidos e, principalmente, vidas inocentes perdidas acabará por nos fazer compreender.

A Segunda Grande Guerra, em todo caso, esteve por estes dias muito presente para mim. Em janeiro, comprei no Rio um livro publicado em 2025, “O tenente: cadernos de um expedicionário na Segunda Guerra Mundial”, de que Celso Furtado (1920-2004) aparece como único autor. Rosa Freire d´Aguiar é responsável pela organização, a apresentação e as notas.

Revela-se aí a modéstia característica de Rosa Freire d´Aguiar. Embora a obra seja uma nova edição de um livro de Celso Furtado de 1946, “De Nápoles a Paris: contos da vida expedicionária”, a concepção do volume lançado ano passado pela Companhia das Letras é da organizadora, que anexou a esse núcleo de contos quantidade de elementos iluminadores para a compreensão da obra. Há cartas do autor enviadas a parentes e amigos no Rio de Janeiro, enquanto esteve na Itália, e por ele recebidas no mesmo período. Há material sobre como a crítica recebeu os contos, quando foram lançados. Há textos avulsos do autor sobre o fascismo e sobre sua experiência como expedicionário.

Sobretudo, há uma verdadeira joia de apresentação por Rosa Freire d´Aguiar sobre o conjunto dos textos, contextualizando-os e explicando o momento histórico em que foram escritos. O grande economista brasileiro, então jovem de 24 anos, viajou para a Itália em fevereiro de 1945, “integrando o quinto, e último, escalão da Força Expedicionária Brasileira”. Viajavam no navio “General Meigs” cerca de 5 mil homens.

Rosa Freire d´Aguiar lembra que, por aquela época, Roma já estava libertada desde junho de 1944. A frente de batalha se situava então no Rio Arno. Furtado foi enviado a Florença, de onde “comandou comboios para levar a tropa até a linha de frente”. Mais tarde, ele lembraria que, na guerra, não se morria apenas lutando, pois “os acidentes eram muitos”, por exemplo com minas.

Em setembro de 1945, o futuro ministro de estado e embaixador estava de volta ao Rio de Janeiro. Decidiu relatar suas impressões da guerra em forma de ficção e no ano seguinte publicava os contos. Falemos, justamente, desses contos.

Celso Furtado, como ficcionista, não possui a mesma densidade do autor de livros de pensamento econômico, notavelmente do clássico “Formação econômica do Brasil”, de 1959, que faz dele um dos grandes analistas da realidade brasileira. Seus contos não devem ser abordados na expectativa de que encontraremos um novo Machado de Assis, um novo Tchekhov. No entanto, não podem ser descartados. Literariamente, são satisfatórios: bem escritos e uniformes no estilo elegante, transmitem uma atmosfera própria.

São também perturbadores. Não somente porque o tema tratado é a guerra, mas porque se concentram sobre seus efeitos na vida cotidiana das pessoas, particularmente as mulheres.
Em vários contos, há um namoro ou uma atração emocional, física ou sensual, entre algum soldado brasileiro e uma mulher italiana.

De início, isso me pareceu um conceito excessivo, falar-se tanto de amor ou de sensualidade naquelas circunstâncias de combate e de reconstrução após a guerra. Depois, percebi que os textos revelam um padrão; em muitos casos, por causa da guerra, as personagens femininas perderam família e bens. Tornaram-se desvalidas. É sobre o seu desespero que estamos lendo, essa é a tônica. O soldado estrangeiro é, em maior ou menor grau, um invasor. Pode, porém, parecer uma tábua de salvação. Em um dos melhores contos, “Terra prometida”, Mariucha, abandonada pelo namorado brasileiro, exclama: “Eu quero ir para o Brasil. É o meu sonho. Aqui não há futuro para mim”.

O conto mais intrigante é “Um intelectual em Florença”. Aborda uma questão já destrinchada por Henry James, a do americano — no caso, brasileiro — confrontado, na Europa, com as sutilezas das relações sociais e as tradições culturais de velhas famílias. Em uma recepção em um palacete florentino, Mário flerta com uma jovem aristocrata. Mas, acredita perceber em si mesmo “a fragilidade da própria erudição, que se lhe afigurou como absolutamente postiça”, pois não detém “os oito séculos de sedimentação que ele sentia nas paredes do castelo e no olhar das criaturas”.

O protagonista discorre sobre Goethe, sobre Horácio. A jovem se volta para ele e opina: “Para vocês, o mundo e as coisas são simplesmente o mundo e as coisas. Vocês não têm a deformação monstruosa de oito séculos de tradição”. E aí, algo extraordinário acontece: ela explica Goethe e Horácio para Mário exatamente como ele acabara de fazer.

Em uma carta de abril de 1945, Celso Furtado prenuncia a apatia que hoje muitos parecem sentir diante de mais um conflito bélico: “Muito cedo nos acostumamos com as destruições”. A violência em repetição gera um sentimento de banalidade.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Em outra carta, escrita da Toscana na mesma época, comenta estar presenciando, como resultado da guerra, “a cabal decomposição de uma sociedade”, formada por “milhares de criaturas sem programa de vida, sem escala de valores, guiadas pelo medo que lhes traz o estado de insegurança. Camadas inteiras estão expostas aos ventos de qualquer ideologia, promessa ou utopia”.

Li o volume editado por Rosa Freire d´Aguiar sob o impacto do bombardeio de uma escola no Irã. Um dos contos, justamente, é sobre a morte de uma menina de seis anos, também vítima de um bombardeio. Esse é um caso em que preferiríamos que o mundo não obedecesse tão fielmente à arte.

compartilhe