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Quando nós tínhamos dezenove anos, um primo, grande amigo até hoje, me contou uma cena ocorrida em seu curso de Economia em uma conceituada universidade privada do Rio de Janeiro. Um professor, irritado naquele dia, fustigou a turma, acusando os alunos de serem “típicos filhos da alta burguesia carioca, alienados, indiferentes, fúteis, pouco aplicados nos estudos”. Essa terrível generalização provocou um silêncio. De repente, levantou-se uma aluna no fundo da sala. Com voz calma e tom de comiseração, ela explicou: “Professor, por favor...burguesia, não... a-ris-to-cra-cia”. Recebeu aplausos da maioria dos demais estudantes.
Ao ouvir o relato da cena, percebi a inutilidade de apego a tradições familiares. Quem se orgulha de origens elitistas deveria refletir na lógica segundo a qual quem emigra é porque não está muito bem de vida no país de origem – e no Brasil, salvo as pessoas de origem cem por cento indígena, não há quem não seja descendente de imigrante.
Chico Buarque resumiu a situação em 2023, ao receber seu Prêmio Camões concedido em 2019: “Como a imensa maioria do povo brasileiro, trago nas veias sangue do açoitado e do açoitador”. É igualmente supérfluo admirar títulos hereditários. Um conde, um príncipe, e mesmo qualquer monarca descendem de personagens que mataram, roubaram, espoliaram em séculos passados com mais violência do que seus contemporâneos e enriqueceram e elevaram-se socialmente às custas de seus crimes. A pátina do tempo opera milagres e os séculos criam a mistificação da distinção, de que se beneficiam os descendentes de grandes criminosos.
Esses conceitos soariam estranhos aos parisienses da segunda metade do século XVII, período altamente prestigioso para o sistema monárquico e nobiliárquico na França.
Pouco antes do Natal, satisfiz em Paris uma das minhas mais antigas ambições. Uma noite, minha mulher e eu fomos assistir às aventuras burlescas de Monsieur Jourdain em uma produção de “O burguês fidalgo”, de Molière. Quando, adolescente, estudei essa peça na escola, o interesse foi absoluto. Havia ali muito a aprender sobre os relacionamentos humanos.
O enredo descreve-se facilmente. Jourdain, burguês enriquecido, filho de um comerciante de tecidos, quer adquirir o que supõe ser o refinamento da nobreza, topo da pirâmide social na França de 1670, quando a peça foi apresentada pela primeira vez, no castelo de Chambord, diante de Luís XIV e sua Corte. Contrata alfaiate para vestir-se como um nobre, um professor de dança, um de música, outro de filosofia e um mestre de armas. É pai de uma filha, que ele quer ver casada na nobreza. A filha ama, porém, um rapaz da mesma classe, Cléonte. Esse namorado resolve a situação fazendo-se passar pelo “filho do Grão Turco”, ou seja do Sultão Otomano, e obtém assim a filha de Jourdain em casamento.
Duas cenas são célebres pelo efeito cômico. Uma é a aula com o professor de filosofia, quando Jourdain descobre “só haver, para se exprimir, a prosa e os versos” e, maravilhado, é informado de que desde sempre vem falando em prosa. A piada rapidamente foi incorporada à cultura do país. Em janeiro de 1672, quinze meses apenas depois da estreia, Madame de Sévigné já faz uma brincadeira a respeito em uma carta à filha. A outra cena é aquela, no último ato, em que Cléonte surge fantasiado de “filho do Grão Turco” e, nessa qualidade, outorga ao futuro sogro o título de nobreza inventado, e apresentado como sendo prestigioso na Turquia, de “mamamouchi”.
O escritor Charles Dantzig parece sugerir, em seu excepcionalmente inteligente “Dicionário egoísta da literatura francesa” (2005), que a peça demonstra o conservadorismo de Molière, já que o dramaturgo ridiculariza as pretensões do burguês de se equiparar à nobreza. Não vejo a coisa dessa maneira. Os professores de Jourdain sugam sua fortuna, assim como dois nobres, um conde e uma marquesa. São figuras oportunistas, calculistas, risíveis em seu esnobismo injustificado que, pelo contraste, tornam o personagem principal um homem ingênuo e crédulo, por isso humano.
Estudada há gerações, a peça se presta a várias interpretações. Dificilmente, penso eu, pode ser vista como elogiosa para a aristocracia. A personagem mais admirável é a mulher de Jourdain, simbolizando virtudes valorizadas pela burguesia do século XVII, como bom senso, parcimônia e perspicácia. De resto, as pretensões de seu marido são menos absurdas do que parecem.
À época da peça, já existia o conceito de “nobreza de toga” (“noblesse de robe”), a que tinham acesso juristas, membros dos tribunais e detentores de cargos ou funções, frequentemente compradas, na administração real. Ela se contrapunha à “nobreza de espada”, antiga, secular, invejada, mas os casamentos entre os dois tipos de nobreza tornavam-se comuns. Jourdain não pertence à nobreza de toga, é decididamente um burguês, mas se tivesse um filho e o empurrasse para a magistratura, este, com o tempo, poderia subir na escala social.
A produção a que assistimos em Paris me fez pensar em uma característica do teatro: certos elementos em uma produção podem nos manipular e transformar a percepção de uma peça. O papel de Monsieur Jourdain era interpretado por um ator popular e querido entre os franceses, Jean-Paul Rouve. Uma estrela tão carismática desperta simpatia e carinho. Apesar das roupas e das perucas apropriadamente chamativas e das falas tontas do personagem, Rouve tornava-o gostável.
Os comentários jocosos sobre seu aluno que fazem entre si os professores contratados pelo “burguês fidalgo” soam, nessa produção, particularmente odiosos. Quando um ser humano quer se aprimorar, o esforço deve ser elogiado e não menosprezado.
Aplaudindo a peça ao final, pensei em Molière como em um visionário. Com mais de trezentos anos de antecipação, ele previu, na França, uma cena reveladora das fantasias sociais de uma certa elite do Brasil.
O embaixador Ary Quintella escreve quinzenalmente
para o Estado de Minas. Seu livro “Geografia do tempo” foi finalista do Prêmio Jabuti em 2025.
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