Amiga me contou que alguém de sua família estava doente e sempre lhe disseram que canja de galinha é ótima para algumas infecções e gripes. Ela nunca tinha feito uma canja tradicional em toda sua vida. Ou seja, aquela sopa autêntica, com um frango inteiro, caldo fervente, ossos e tudo.
Ela pesquisou e encontrou inúmeras variações, mas seu objetivo era a cura. Então, queria a receita autêntica, sem alterações estranhas, atalhos, truques de sabor ou produtos industrializados. Queria aquela que nós, mineiros, conhecemos bem: cenouras, aipo, cebolas, alho, um frango inteiro, sal, pimenta, água e ervas a gosto.
Ela comprou o frango orgânico, aquele criado solto. Custa o dobro, mas a proporção de carne em relação ao tamanho é muito maior. Musculoso, alimentou-se de plantas e insetos, não é animal de gaiola bicando grãos de milho. Ave robusta, carne com sabor mais intenso.
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Minha amiga nem é muito chegada a frango. Mas se você escolhe o tipo certo e o método de preparo correto, terá uma verdadeira iguaria gourmet. Se vai fazer sopa, que seja feita do jeito certo. Não vou ensinar aqui a canja, aquela em que se cozinha o frango inteiro por quatro a seis horas. Talvez vocês encontrem as dicas na internet, mas, com certeza, sua avó ou bisavó saberia muito bem preparar a iguaria.
Vou falar da comprovação científica do potencial curativo deste prato. No ano passado, pesquisadores da Escócia e da Austrália realizaram meta-análise da literatura científica. Os resultados foram publicados na revista Nutrients. Eis o que eles disseram:
“Esta revisão sistemática destaca o papel potencial da sopa no tratamento de infecções agudas do trato respiratório, oferecendo benefícios como a redução da gravidade dos sintomas, a promoção da hidratação e o apoio ao bem-estar geral.
Os resultados reforçam o potencial terapêutico da combinação de nutrição, hidratação e propriedades anti-inflamatórias, o que torna a sopa uma intervenção biologicamente plausível, culturalmente relevante e acessível.”
Outro estudo, de 2019, descobriu que caldos tradicionais eram melhores antimaláricos do que medicamentos. Já uma pesquisa de 2022 quis saber se realmente faz diferença, para os benefícios terapêuticos, se a sopa é feita com carne de animais criados soltos ou frangos de granja industrial. De fato, a diferença foi profunda.
Conclusão: “A sopa de galinha caipira ajudou a restaurar os indicadores sanguíneos periféricos e promoveu a secreção de IL-2, IL-6, IL-10, além de aumentar a concentração de IgA e IgG. E foi superior às sopas feitas com outras galinhas.”
Confie nos seus instintos. Você sente o aroma no ar e ele te remete à cura. Isso está enraizado em nosso código cultural por um motivo: é a pura verdade. Doenças e curas à parte, uma boa canja certamente está entre os pratos mais deliciosos que você já preparou e saboreou.
Minha amiga serviu a sopa de noite. O paciente tomou duas tigelas e foi para a cama cedo. Pela manhã, a febre havia cedido.
Somos organismos inseridos na tradição, na cultura, na sabedoria acumulada de gerações que descobriram, por meio de tentativa e erro, por intuição e por amor, que certos alimentos curam de maneiras que não podem ser totalmente decompostas e analisadas.
Penso na minha avó, que fazia sopa sem nunca consultar receita. Ela sabia porque a mãe dela sabia, assim como a avó e a bisavó, remontando a alguma cozinha de aldeia onde alguém teve a ideia de cozinhar um pássaro com legumes de raiz, por um bom tempo.
O parente dessa amiga se recuperou totalmente em dois dias. Sem medicamentos, apenas repouso, calor e a antiga alquimia dos ossos, da água e do tempo.
Fomos enganados com a mentira de que somos incompetentes, que nos falta a expertise para cuidar da nossa saúde, da nossa alimentação, das nossas vidas. Mas a verdade é mais simples e libertadora. As ferramentas para a cura estão a nosso alcance, no supermercado e na cozinha, na paciência de fazer as coisas com calma.
Talvez a boa e velha sopa nos salve de mais coisas do que podemos imaginar...
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* Isabela Teixeira da Costa/Interina
