Atualizar o grau dos óculos, tratar a perda auditiva, controlar a pressão e preservar os vínculos sociais parecem cuidados distintos, mas sabia que todos podem contribuir para proteger o cérebro e reduzir o risco de demência?
Em 2024, a Comissão Lancet para prevenção, intervenção e cuidados em demência identificou 14 fatores potencialmente modificáveis associados à doença. A estimativa é que, em nível populacional, cerca de 45% dos casos poderiam ser prevenidos ou retardados tratando dessas condições.
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Segundo a nutricionista clínica Sabina Donadelli, especialista em longevidade saudável, o cérebro representa aproximadamente 2% do peso corporal, mas consome perto de 20% da energia utilizada pelo organismo em repouso. Um órgão tão exigente depende da circulação, do equilíbrio metabólico, dos estímulos recebidos e até da qualidade das nossas relações.
Os fatores podem ser divididos em quatro grupos: entre os metabólicos e vasculares estão hipertensão, diabetes, obesidade e colesterol LDL elevado na meia-idade, incluído na atualização de 2024. Essas condições podem prejudicar a circulação, favorecer processos inflamatórios e aumentar o risco de lesões nos vasos que levam sangue e oxigênio ao cérebro.
“Pressão, glicemia, colesterol e composição corporal ainda costumam ser relacionados apenas ao coração ou ao emagrecimento. Mas tudo o que compromete os vasos e o metabolismo também pode afetar a memória”, afirma Sabina.
A alimentação influencia vários desses fatores. Uma rotina baseada em alimentos in natura ou minimamente processados, com vegetais, frutas, feijões, cereais integrais, boas fontes de gordura e proteínas adequadas ajuda a preservar a saúde metabólica e cerebral.
No grupo dos fatores comportamentais estão inatividade física, tabagismo e consumo excessivo de álcool. Além de contribuir para o controle da pressão, da glicemia e do peso, a atividade física ajuda a preservar a massa muscular e a autonomia. “A pessoa precisa de memória e clareza mental, mas também de força para caminhar, sair de casa, preparar uma refeição e manter uma vida social”, destaca.
Os fatores sensoriais e neurológicos incluem perda auditiva, perda visual não tratada e traumatismo craniano. A perda visual também passou a integrar a lista em 2024. Quando alguém passa a ouvir ou enxergar mal, pode receber menos estímulos, deixar de acompanhar conversas, abandonar atividades e se afastar do convívio social.
“Tratar a visão e a audição não é apenas uma questão de conforto. É uma forma de manter o cérebro conectado ao ambiente e preservar a independência”, explica.
Depressão, isolamento social, baixa escolaridade e poluição do ar compõem o grupo dos fatores psicossociais e estruturais. A escolaridade está relacionada à reserva cognitiva, enquanto a depressão e o isolamento podem reduzir a atividade, o autocuidado e os estímulos recebidos diariamente.
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No Brasil, um estudo publicado em 2025 estimou que quase 60% dos casos de demência podem estar associados a fatores modificáveis. O dado representa uma estimativa populacional, não uma garantia individual.
