Estamos vivendo no mundo hiperconectado. O prazer está em ver o que se passa na vida dos outros e isso leva à comparação social em tempo real pelas redes. Emoções como inveja e o chamado “schadenfreude” (prazer com o fracasso alheio) se tornaram frequentes e mais estudadas pela ciência.
A neurocientista Daiana Petry afirma que essas emoções não são sinais de falha moral, mas respostas automáticas do cérebro diante de estímulos sociais. Ela explica que apesar de a inveja ser tratada como tabu, do ponto de vista cerebral ela é extremamente comum. É uma reação automática quando percebemos que alguém tem algo que desejamos, seja status, conquistas, beleza ou oportunidades.
Leia Mais
Pesquisas mostram que, ao sentir inveja, uma região específica do cérebro tende a ser ativada: o córtex cingulado anterior, área ligada à dor emocional, ao desconforto e ao conflito interno.
A neurocientista explica que é como se o cérebro interpretasse a superioridade do outro como ameaça simbólica ao nosso próprio valor. Quanto maior a exposição a comparações, como ocorre no ambiente digital, mais intensa essa ativação.
Essa resposta se conecta à rede de modo padrão, sistema cerebral responsável por construir a identidade, projetar o futuro e refletir sobre quem somos. Quando equilibrada, a rede favorece criatividade e propósito. Hiperativada, produz o efeito contrário: ruminação, comparação excessiva, sensação de inadequação, impressão de que “todo mundo está indo melhor”. Esse desequilíbrio transforma a inveja em sofrimento psicológico.
Mas por que o fracasso alheio pode gerar prazer?
O fenômeno seguinte, e mais desconfortável, é o schadenfreude, alívio ou prazer sentido quando alguém que despertava inveja enfrenta uma queda. Segundo estudos de neuroimagem, nesses momentos ocorre ativação do estriado ventral, uma das principais regiões do sistema de recompensa do cérebro, a mesma associada ao prazer de comer, ganhar ou ser elogiado.
O dado mais impressionante é que a intensidade da inveja prediz a intensidade da schadenfreude. Quanto maior a dor da comparação, maior tende a ser o alívio, e, portanto, o prazer quando aquela ameaça simbólica desaparece. Para o cérebro, a queda do outro reduz a sensação de risco social e restaura, temporariamente, o equilíbrio interno.
Daiana ressalta que entender esses mecanismos não serve para justificar comportamentos destrutivos, e sim para compreendê-los com honestidade. O cérebro monitora o tempo todo nossa posição social. A inveja surge automaticamente, mas o que fazemos com ela é uma escolha ética.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Não negar esses processos é o primeiro passo para lidar com a comparação de forma mais consciente e menos reativa. A neurocientista destaca que práticas de autoconsciência, regulação emocional e presença plena ajudam a diminuir a hiperativação da rede de modo padrão, reduzindo tanto a dor da inveja quanto o prazer com o fracasso alheio.
