Ana Mendonça
Ana Mendonça
EM MINAS

A inteligência artificial vai às urnas

Entre campanhas, tribunais e estrategistas, a avaliação é convergente: a inteligência artificial não será um tema periférico da eleição

Publicidade

Mais lidas

O vídeo começou a circular como tantos outros: primeiro em grupos políticos no WhatsApp, depois em perfis de redes sociais alinhados à direita mineira. Em pouco tempo, chegou a gabinetes, assessorias e núcleos de campanha. O senador Cleitinho (Republicanos-MG), hoje líder nas pesquisas para a disputa eleitoral de 2026 em Minas, reagiu publicamente a um conteúdo que simulava integrantes do MST anunciando uma suposta invasão à Venezuela. O material era falso e havia sido produzido com uso de inteligência artificial, mas foi tratado como real no momento da reação e ampliado a partir de seu alcance digital.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

Nos bastidores, o episódio passou a ser citado como um alerta antecipado sobre os riscos que a tecnologia impõe ao próximo ciclo eleitoral, sobretudo quando envolve figuras com grande capilaridade nas redes.

A deputada estadual Lohanna (PV) publicou uma carta aberta criticando o uso de vídeos falsos. “Não associem isso aqui com o povo mineiro. Usar vídeo falso feito com IA”, escreveu. Em Divinópolis, reduto eleitoral de Cleitinho, o vereador Vitor Costa (PT) afirmou que “já não basta as fake news de sempre, tem senador caindo em vídeo de IA e espalhando como se fosse verdade”.

A repercussão reforçou uma preocupação que já vinha sendo debatida de forma reservada entre marqueteiros, advogados eleitorais e estrategistas: a dificuldade de reagir em tempo hábil a conteúdos falsos cada vez mais sofisticados. Para o publicitário Samuel Consentino, a resposta precisa ir além da comunicação. “As campanhas vão precisar de um jurídico muito forte para identificar rapidamente a origem do conteúdo e acionar a Justiça”, afirma. Segundo ele, o desafio cresce fora das redes abertas, especialmente em aplicativos de mensagens. “A clonagem de áudio hoje é mais perigosa do que o vídeo”, diz.

O próprio Cleitinho já foi alvo direto desse tipo de fraude. Em 2024 e 2025, vídeos com clonagem de sua voz e imagem circularam para promover falsas indenizações antes de serem desmentidos.

A discussão, no entanto, não se restringe a Minas. Nos últimos anos, conteúdos manipulados com IA envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) circularam nas redes, atribuíram falas inexistentes e motivaram decisões do STF e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que passou a determinar remoções e aplicar selos de verificação.

Entre especialistas, a distinção central está no uso da tecnologia como ferramenta ou como substituta da estratégia política. Para o consultor em marketing político e estrategista Celso Lamounier, essa linha precisa ser clara. “Uma coisa é fazer campanha usando inteligência artificial. Outra é ter uma campanha feita pela inteligência artificial”, afirma. Segundo ele, a IA já é parte do cotidiano das campanhas, mas não substitui leitura de contexto, sensibilidade política e decisão estratégica. “Isso continua sendo responsabilidade humana”, diz.

Lamounier avalia que a IA não criou o problema da desinformação, mas o agravou. “Ela acelera e sofistica falsificações em um ambiente que a Justiça Eleitoral já tinha dificuldade de controlar em tempo real”, afirma. Para ele, as eleições de 2026 serão as primeiras com a tecnologia plenamente integrada à vida cotidiana, o que tende a aumentar a confusão no ambiente digital.

Pesquisas do INCT.DD e da FGV indicam que vídeos curtos geram mais engajamento do que textos, sobretudo quando acionam narrativas de conflito. No Brasil, sinais desse movimento já aparecem fora do período eleitoral, como nos vídeos do governador Romeu Zema (Novo) alinhados a tendências das redes sociais e formatos digitais.

Diante desse cenário, o TSE aprovou normas que proíbem deepfakes eleitorais, exigem identificação de conteúdos gerados ou manipulados por inteligência artificial e preveem responsabilização de candidatos, partidos e plataformas. As eleições de 2026 serão o primeiro grande teste dessas regras em um ambiente digital já saturado de estímulos, ruídos e disputas narrativas.

Entre campanhas, tribunais e estrategistas, a avaliação é convergente: a inteligência artificial não será um tema periférico da eleição, mas uma de suas principais arenas. O episódio envolvendo Cleitinho não é ponto fora da curva, mas sinal do que tende a se repetir. A disputa de 2026 não será apenas por votos, mas também pela capacidade de distinguir o que é real do que foi fabricado.

NO WHATSAPP

No grupo exclusivo de WhatsApp que reúne vereadores de Belo Horizonte, o assunto do último sábado foi praticamente único: a ação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Venezuela. A coluna teve acesso às mensagens. De um lado, parlamentares ligados à ala conservadora comemoraram a captura de Nicolás Maduro, com o envio de figurinhas e comentários em tom de deboche. Do outro, vereadores de esquerda classificaram a incursão como um “absurdo” e criticaram a invasão de um país soberano. Apesar das posições opostas, a troca de mensagens ocorreu sem confrontos diretos. Ainda assim, a discussão foi suficiente para acentuar o clima de polarização no grupo.


COM EDUARDO LEITE

Quem também se manifestou sobre o tema foi o presidente da Câmara Municipal e prefeito interino de Belo Horizonte, Juliano Lopes. Em um vídeo publicado pelo governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, Lopes comentou: “você tem meu respeito”. Na gravação, Leite afirmou que Nicolás Maduro deveria deixar o poder, mas repudiou as ações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.


REUNIÕES

Foi Juliano Lopes que também assumiu, ontem, o primeiro dia à frente da Prefeitura de Belo Horizonte. Logo nas primeiras horas como prefeito interino, o vereador teve uma agenda intensa de reuniões com secretários municipais para se inteirar do cenário da capital. Em vídeos publicados nas redes sociais, Lopes afirmou que a prioridade neste início de gestão interina será o enfrentamento dos impactos do período chuvoso na cidade.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

Tópicos relacionados:

ai fe ia inteligencia-artificial

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay