Outro dia, enquanto caminhava pela rua, ouvi um homem dizer para a mulher que estava ao seu lado: “Desculpa, mas eu não dou conta”.
Não sei sobre o que conversavam, nem o que havia levado aquele homem a fazer essa afirmação. Continuei meu caminho, mas a frase ficou comigo. Pensei em quantas vezes temos dificuldade de reconhecer e, principalmente, de admitir que não damos conta de alguma coisa.
Desde cedo, aprendemos a corresponder às expectativas. Precisamos dar conta dos estudos, do trabalho, da família, dos relacionamentos e de tantas outras exigências que surgem ao longo da vida. Ser alguém capaz, disponível e que resolve problemas costuma ser reconhecido como uma qualidade.
Com o tempo, incorporamos essas expectativas à maneira como nos enxergamos. Passamos a acreditar que precisamos conseguir, suportar, resolver e atender, mesmo quando isso exige mais do que podemos ou desejamos oferecer.
Quando não conseguimos corresponder a essas expectativas, podemos sentir que falhamos ou fracassamos. A culpa aparece acompanhada da necessidade de apresentar uma justificativa, como se admitir uma dificuldade ou impossibilidade exigisse uma explicação.
Mas será que precisamos dar conta de tudo?
Existem situações em que realmente nos faltam tempo, energia, conhecimento ou recursos. Em outras, temos condições de realizar alguma coisa, mas reconhecemos que aquilo contraria nossos valores, nossos princípios ou a maneira como escolhemos viver. Admitir que não damos conta também pode significar reconhecer que existem limites que não conseguimos ou não estamos dispostos a ultrapassar.
Pense em quantas vezes assumimos responsabilidades que não são nossas para não decepcionar alguém, permanecemos em situações desconfortáveis para evitar conflitos ou aceitamos decisões contrárias ao que pensamos por medo de comprometer uma relação. Em outras ocasiões, preferimos silenciar nossas opiniões para não enfrentar possíveis discordâncias.
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A preocupação com o que esperam de nós acaba ocupando mais espaço do que aquilo que pensamos, sentimos e desejamos.
Existe uma diferença entre aquilo que somos e a imagem que os outros constroem a nosso respeito.
Eu sei quem eu sou. O outro imagina quem eu seja.
As pessoas nos enxergam a partir de suas experiências, expectativas, necessidades e interpretações. Podemos ser considerados fortes por quem acredita que suportamos qualquer situação, disponíveis por quem espera nossa presença constante ou egoístas por quem não aceita nossos limites.
A interpretação do outro não define quem somos.
Isso não significa que nos conhecemos completamente. O autoconhecimento é um processo contínuo, que também acontece nas relações e nas situações que nos desafiam. Em determinadas situações, descobrimos nossos limites justamente quando precisamos escolher entre corresponder ao que esperam de nós e respeitar aquilo em que acreditamos.
Conhecer nossos limites exige olhar para nós mesmos, compreender o que podemos oferecer e aceitar que nem sempre atenderemos às expectativas de todos. Nossas escolhas podem provocar frustrações, discordâncias e até afastamentos. Nem sempre seremos compreendidos, e isso faz parte da convivência.
É necessário, porém, distinguir o respeito aos próprios limites da recusa em assumir responsabilidades. Existem compromissos que nos cabem, situações que exigem esforço e momentos em que precisamos rever comportamentos. Reconhecer um limite não justifica evitar tudo aquilo que nos desagrada.
Esse discernimento nos ajuda a avaliar o que podemos fazer, o que precisamos aprender, quais responsabilidades desejamos assumir e o que não conseguimos continuar sustentando sem desrespeitar a nós mesmos.
Naquela frase que ouvi por acaso, uma palavra também ficou comigo: “Desculpa”. Podemos pedir desculpas por consideração ao outro, por saber que não conseguiremos atender ao que ele espera de nós. Mas também podemos fazê-lo porque sentimos culpa por não conseguir corresponder às suas expectativas.
Existe uma diferença entre lamentar não poder fazer alguma coisa e sentir que estamos errados por reconhecer nossos limites. Vivemos em uma sociedade que valoriza a produtividade, a disponibilidade e a capacidade de entregar sempre mais. Quando nos acostumamos a medir nosso valor pelo que conseguimos realizar, admitir uma limitação pode ser confundido com fracasso. Passamos a nos desculpar não apenas pelo que deixamos de fazer, mas também por não corresponder àquilo que esperam de nós.
Nem tudo o que esperam de nós é nossa responsabilidade. Nem tudo o que somos capazes de fazer precisamos assumir. Reconhecer nossos limites também significa respeitar nossas escolhas, mesmo quando elas contrariam as expectativas dos outros.
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