Quando pensamos nas relações da nossa vida, é comum que os amigos ocupem um lugar de destaque. São pessoas com quem dividimos histórias, mudanças, dificuldades, alegrias e diferentes fases. Mas existe uma diferença entre considerar uma amizade importante e reservar espaço para que ela continue presente.
- Quando o presente vira lugar de passagem
- Quando o que não faltava começa a faltar
- O que nossas relações revelam sobre nós?
O psicólogo Jeffrey Hall, da Universidade do Kansas, pesquisou a relação entre tempo compartilhado e formação de uma amizade. Seus estudos apontaram de 40 a 60 horas para que um conhecido possa se tornar um amigo casual, de 80 a 100 horas para que a relação avance para a amizade e mais de 200 horas para uma amizade próxima. Os números não estabelecem uma fórmula, mas mostram algo que conhecemos pela própria experiência: amizade precisa de tempo e convivência.
Na infância, na adolescência e no início da vida adulta, parte desse tempo nos é oferecida pela organização da vida. Escola, faculdade, vizinhança, festas, esportes e início da carreira nos colocam repetidamente diante das mesmas pessoas. Existe uma espécie de oferta automática de convivência. O café no mesmo horário, o almoço, a conversa depois da aula ou o encontro no corredor fazem com que algumas pessoas deixem de ser apenas rostos conhecidos.
A repetição dos encontros não cria uma amizade, mas aumenta as oportunidades de aproximação. É preciso algum movimento entre as pessoas: conversar, descobrir afinidades, demonstrar interesse, compartilhar experiências e estabelecer confiança e reciprocidade. A convivência cria a oportunidade; o que acontece dentro dela pode transformar um conhecido em amigo.
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Na vida adulta, parte dessa oferta diminui. Terminamos a faculdade, mudamos de emprego, de bairro ou de cidade, constituímos família e assumimos outras responsabilidades. O trabalho também mudou. Nos modelos híbridos e remotos, alguns daqueles “espaços de esbarrão” deixam de existir. A reunião virtual tem horário e finalidade. Resolve a demanda, devolve horas de trânsito ao trabalhador, mas oferece menos oportunidades para que uma conversa sem objetivo específico se prolongue e nos permita conhecer o outro para além da função que ocupa.
Ao mesmo tempo, nunca tivemos tantas possibilidades de conexão. Podemos saber para onde alguém viajou, o que comeu, o livro que está lendo ou como comemorou o aniversário sem termos conversado com essa pessoa uma única vez. Acompanhamos sua vida, mas acompanhar não é necessariamente conviver.
Aquilo que antes encontrava espaço naturalmente na rotina passa a exigir intenção, disponibilidade e escolha. Trabalho, filhos, relacionamentos amorosos, cuidados com os pais, animais de estimação, tarefas domésticas, deslocamentos, cansaço e a própria necessidade de ficar sozinho disputam essa escolha.
