O Dia dos Namorados costuma celebrar o encontro entre duas pessoas. Flores, presentes e declarações ocupam as vitrines e as redes sociais. No entanto, por trás da busca por um relacionamento, existe uma pergunta mais profunda e menos evidente: o que realmente esperamos do amor?

As diferentes linhas da psicologia vêm mostrando, há décadas, que as experiências vividas nos primeiros anos de vida influenciam a forma como nos vinculamos na vida adulta. Os estudos de John Bowlby e Mary Ainsworth, criadores da Teoria do Apego, revelaram que a maneira como nos sentimos acolhidos, protegidos e vistos durante a infância contribui para a construção da nossa segurança emocional e das expectativas que levamos para as relações futuras.

Isso não significa que estejamos condenados a repetir a nossa história ou que todas as dificuldades amorosas tenham origem na infância. Significa apenas reconhecer que o passado deixa marcas e que certas experiências continuam presentes, repercutindo na maneira como amamos, nos vinculamos e interpretamos o afeto.

Por essa razão, muitas pessoas procuram no amor adulto a reparação de dores que nasceram em fases anteriores da vida. Sem perceber, a relação deixa de ser um espaço de troca e construção compartilhada para se transformar em uma tentativa inconsciente de encontrar no parceiro aquilo que faltou em outro tempo: a sensação de ser amado, a validação, a presença, a atenção, o reconhecimento, a proteção, o acolhimento e a segurança emocional.

Quando isso acontece, o companheiro ou a companheira acaba ocupando um lugar impossível. Nenhum parceiro consegue assumir uma dívida que não foi criada por ele.

Não raro, surgem cobranças que parecem maiores do que a situação do presente justificaria.

“Você não me dá atenção.”

“Você nunca está disponível.”

“Você não me escolhe.”

“Você não me prioriza.”

A dor é legítima. O sofrimento é verdadeiro. Ainda assim, parte da intensidade emocional nem sempre pertence apenas ao momento atual. Algumas ausências do presente despertam necessidades antigas que ainda não foram plenamente compreendidas.

Uma mensagem não respondida, uma demora em responder, a falta de demonstrações de afeto ou uma indisponibilidade momentânea podem tocar feridas que foram abertas muito antes daquela relação existir.

Dizemos que procuramos um parceiro quando, em muitos momentos, o que buscamos é algo ainda mais profundo: ser amados, ser vistos, ser escolhidos, nos sentirmos valorizados e preencher vazios que nos acompanham há muito tempo.

A visão sistêmica nos lembra que cada pessoa pertence a uma história que começou antes dela. Carregamos aprendizados, lealdades e formas de amar construídas dentro do nosso sistema familiar. Conhecer essa história não muda o passado, mas pode transformar a forma como nos relacionamos com ele e com as escolhas que fazemos daqui para frente.

Donald Winnicott, conceituado psicanalista do século 20, dedicou seus estudos à compreensão do amadurecimento emocional. Entre suas contribuições, destacou a importância de relações em que o vínculo não anule a individualidade e em que cada pessoa possa se mostrar de forma autêntica, sem atribuir ao outro a missão de reparar ausências que pertencem à própria história. Sua visão continua atual em uma época que ainda alimenta a fantasia de que alguém chegará para nos fazer felizes.

Isso explica por que algumas relações se tornam tão pesadas. O amor deixa de ser um encontro e se transforma em uma missão impossível. Nenhum relacionamento suporta por muito tempo a expectativa de reparar ausências, frustrações e feridas acumuladas ao longo da vida.

O amor pode acolher nossas feridas, mas não pode voltar no tempo para reescrever a nossa história.

O parceiro pode compartilhar a vida conosco, mas não pode viver por nós aquilo que faltou em outros momentos.

Isso não reduz a beleza do amor. Pelo contrário. Liberta os relacionamentos de um peso que nunca lhes pertenceu.

Relações saudáveis não nascem da ausência de feridas. Elas se fortalecem quando duas pessoas deixam de exigir que o outro repare o passado e escolhem construir, juntas, algo que pertence ao presente dos dois.

A conhecida ideia de que duas metades se encontram para formar um todo soa romântica, mas pode alimentar expectativas impossíveis de serem sustentadas. O amor não acontece quando duas faltas se encontram esperando serem preenchidas. Ele se torna possível quando duas pessoas assumem a responsabilidade pela própria história e escolhem caminhar lado a lado.

Quanto mais conseguimos reconhecer nossas dores, acolher aquilo que não recebemos e ressignificar a nossa relação com o passado, menos esperamos que o outro repare aquilo que pertence à nossa história e mais espaço existe para que a relação seja construída no presente.

Antes do encontro com o outro, existe um encontro ainda mais importante: aquele que fazemos com a nossa própria história.

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Essa é uma das formas mais bonitas de amar: não esperar que alguém cure todas as nossas faltas, mas escolher, todos os dias, compartilhar a vida, compreender a própria história e construir, juntos, algo que pertence ao presente.

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