O calor intenso como o vivenciado pelos belo-horizontinos na última semana exige cuidados extras das gestantes. Durante a gravidez, mudanças naturais no organismo fazem com que a mulher produza mais calor e precise trabalhar mais para controlar a temperatura corporal. Em dias muito quentes, essa sobrecarga pode favorecer desidratação, tontura, queda de pressão e, em situações mais graves, exaustão pelo calor.
Segundo a ginecologista e obstetra Gisele Maciel, mestre em Saúde da Criança e da Mulher, professora universitária com mais de 25 anos de experiência, essas alterações envolvem principalmente o sistema cardiovascular e o metabolismo.
“O volume de sangue pode aumentar em cerca de 50%, o coração bate mais rápido e o metabolismo se acelera. Tudo isso gera mais calor, e o bebê também depende do organismo materno para dissipar o calor que produz”, explica.
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O corpo da gestante desenvolve mecanismos para dar conta dessa demanda, como começar a suar mais cedo e aumentar a dilatação dos vasos sanguíneos da pele. Sob temperaturas muito elevadas, porém, essa capacidade de adaptação pode ficar sobrecarregada.
“Por isso, nos dias quentes, são comuns cansaço, tontura, dor de cabeça e sensação de pressão baixa. Esses sintomas são reais e precisam ser levados a sério, e não tratados como ‘frescura’ ou simplesmente como algo normal da gravidez.”
Desidratação é uma das principais preocupações
Com o aumento da transpiração, a gestante perde água e sais minerais. Se a reposição não for suficiente, podem surgir fraqueza, tontura, palpitações, diminuição da quantidade de urina e queda da pressão arterial. Em situações extremas, embora menos frequentes, podem ocorrer exaustão pelo calor e insolação, que exigem atendimento.
O calor extremo também vem sendo estudado pelos possíveis efeitos sobre a gestação. Uma revisão publicada em 2020 no periódico científico The BMJ, que reuniu 70 estudos realizados em 27 países, encontrou associação entre temperaturas mais elevadas e desfechos como parto prematuro, baixo peso ao nascer e natimortalidade. Na análise, as chances de parto prematuro aumentaram, em média, 5% a cada elevação de 1°C na temperatura e foram 16% maiores durante ondas de calor.
Os números, ressalta Gisele, precisam ser interpretados sem alarmismo. Eles descrevem o comportamento de grandes populações e não permitem prever o que acontecerá em uma gestação individual.
“A maioria das mulheres que passa por dias muito quentes terá o bebê no tempo certo. Para a gestante, a mensagem deve ser de cuidado, e não de culpa ou medo. Beber água, fugir do calor intenso e respeitar os sinais do próprio corpo são medidas simples e eficazes.”
Sinais de alerta
Sede excessiva, boca seca, dor de cabeça, fraqueza, tontura e urina escura ou em menor quantidade podem indicar hidratação insuficiente. A primeira orientação é procurar um lugar fresco, descansar e beber água.
Alguns sintomas, entretanto, exigem avaliação médica. “Desmaio, confusão mental, falta de ar, palpitação intensa, vômitos persistentes ou febre são sinais de alerta”, orienta a obstetra.
Nem todo mal-estar nos dias quentes deve ser atribuído à temperatura. Dor de cabeça forte e persistente, visão embaçada ou inchaço súbito no rosto e nas mãos precisam de atenção e podem exigir a aferição da pressão. Sangramento, perda de líquido, contrações regulares ou redução dos movimentos do bebê também são motivos para buscar avaliação obstétrica, independentemente do calor.
Água, sombra e descanso
Em temperaturas elevadas, a recomendação é beber água ao longo do dia, sem esperar a sede aparecer. A cor da urina pode servir como referência: em geral, quanto mais clara, melhor a hidratação.
Roupas leves e claras, ambientes ventilados ou refrigerados, banhos frescos e evitar exposição ao sol nos períodos mais quentes também ajudam. A atividade física, quando autorizada no pré-natal, pode ser mantida, mas a orientação é escolher horários mais frescos, diminuir a intensidade quando necessário e evitar locais quentes e abafados.
O cuidado deve permanecer durante toda a gestação. Mulheres com hipertensão, diabetes e doenças cardíacas ou renais merecem atenção redobrada. Gisele destaca, porém, que a exposição ao calor também é determinada pelas condições de vida e trabalho.
“Não adianta dizer para uma gestante ‘evitar o calor’ se ela trabalha ao ar livre, em uma cozinha ou fábrica, ou vive em uma casa pouco ventilada. É preciso garantir água, pausas e locais para se refrescar. É uma questão de saúde pública. Com informação e prevenção, conseguimos reduzir bastante esses riscos."
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