Um levantamento publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria (Brazilian Journal of Psychiatry), realizado com 1.026 estudantes de 74 instituições, revela um cenário preocupante: dois em cada três futuros médicos no Brasil (66%) apresentam sintomas de depressão que variam de moderados a graves.
A pesquisa aponta que a chamada "normalização do sofrimento" durante a formação acadêmica é uma das causas centrais para o agravamento do quadro. O problema não se restringe a uma única instituição, sendo observado em diversas faculdades de medicina pelo território nacional, o que o caracteriza como uma questão sistêmica e estrutural.
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Por que os índices de depressão são tão altos?
A cultura do ambiente acadêmico da medicina é um dos principais fatores que explicam os altos índices de depressão. Além disso, a mesma pesquisa identificou que 50,5% dos estudantes também sofrem de ansiedade. A formação é marcada por uma série de pressões que, somadas, criam um ambiente propício ao desenvolvimento de transtornos mentais. Os principais motivos incluem:
Carga horária exaustiva: a rotina intensa de estudos, plantões e atividades práticas deixa pouco espaço para descanso e vida pessoal.
Pressão por alto desempenho: a competitividade por notas, vagas em residências e reconhecimento profissional gera um estresse constante.
Contato direto com o sofrimento: o contato diário com a dor, a doença e a morte, muitas vezes sem o devido preparo emocional, causa um grande impacto psicológico.
Normalização do esgotamento: a ideia de que o cansaço extremo e o sofrimento são etapas obrigatórias e "normais" da formação médica impede que os alunos busquem ajuda.
Quais as consequências para a saúde pública?
O desgaste emocional pode levar a um atendimento menos empático e humanizado, prejudicando a relação médico-paciente. A longo prazo, a situação contribui para o aumento do número de médicos que abandonam a profissão ou desenvolvem a síndrome de burnout, impactando a disponibilidade de profissionais no sistema de saúde.
Existem iniciativas para mudar essa realidade?
O debate sobre a saúde mental no meio acadêmico tem ganhado força, e diversas instituições de ensino já desenvolvem programas de apoio psicológico e discutem mudanças na grade curricular e na cultura interna. O objetivo é criar um ambiente de aprendizado mais saudável e acolhedor.
Essas iniciativas buscam desmistificar a ideia de que o médico precisa ser infalível e incentivar que os estudantes cuidem da própria saúde mental sem medo de estigmas. A mudança, no entanto, ainda é gradual e exige um esforço conjunto de universidades, conselhos de medicina e da própria sociedade para que a formação médica no Brasil se torne mais humana.
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*Estagiária sob supervisão do editor João Renato Faria
