Sophia La Banca
Moléculas conhecidas por sua atividade contra o câncer se mostraram eficazes no combate ao Plasmodium falciparum, parasita causador da malária. A pesquisa, realizada na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP), também investigou como diferenças na estrutura das moléculas estudadas afetam seus efeitos sobre os parasitas, abrindo caminho para o desenvolvimento de medicamentos mais eficazes.
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A pesquisa, desenvolvida com o financiamento da FAPESP (projetos 17/08684-7, 21/06607-0, 23/07656-0, 24/07723-2, 22/15522-1, 24/09115-0, 24/06392-2, 22/07275-4 e 23/07455-5), testou 14 compostos derivados de um antineoplásico – medicamento usado no tratamento do câncer – em parasitas da espécie P. falciparum cultivados em laboratório. Os resultados mostraram que as moléculas foram eficientes na eliminação dos microrganismos em duas fases diferentes de seu desenvolvimento, a assexuada e a de gametócitos.
Ao eliminar o parasita na fase assexuada – momento em que ele se reproduz nas células sanguíneas e causa a febre típica da malária –, os novos fármacos mostram grande potencial de tratamento. Além disso, as moléculas também atuam na fase de gametócito, estágio em que o Plasmodium infecta os mosquitos. Dessa forma, além de tratar o paciente, a medicação consegue bloquear a transmissão da doença.
Efeitos colaterais
Apesar dos resultados promissores, publicados em julho na revista ACS Omega, há preocupação quanto a possíveis efeitos colaterais dessas moléculas. Como foram realizados apenas testes in vitro, ainda não foi possível avaliar a extensão do problema. Alguns dos compostos testados demonstraram menor efeito em testes com células humanas, enquanto mantiveram o efeito sobre os parasitas, indicando menor risco de efeitos adversos graves, mas apenas testes in vivo poderão confirmar isso.
“As moléculas dessa classe podem causar fadiga, náuseas, vômitos e alterações hematológicas, como redução de plaquetas. É natural que exista essa preocupação”, diz Garcia. Os testes in vivo também serão importantes para verificar a capacidade dos candidatos a fármacos de se manterem estáveis dentro do organismo do paciente, já que medicamentos dessa classe costumam se degradar rapidamente nessas condições.
Para superar essas limitações, a equipe de Garcia analisou como as variações na estrutura dos diferentes derivados alteram seu funcionamento e qual é o alvo desses derivados na célula do parasita. Com isso, é possível planejar o desenvolvimento de novos fármacos com características mais adequadas ao tratamento. “Quando fazemos um desenvolvimento racional de novas moléculas, podemos aperfeiçoar a estrutura química de uma forma direcionada. Nossos ensaios fortaleceram a hipótese de que as enzimas histonas desacetilases são um importante alvo terapêutico para a malária. Com isso, conseguimos planejar novas moléculas cada vez mais potentes e seletivas para o parasita”, explica Garcia.
Outro objetivo futuro da equipe de Garcia é testar as moléculas em outras espécies de parasitas causadores da malária, como o Plasmodium vivax, espécie predominante no Brasil e que possui uma forma capaz de provocar recaídas mesmo após o tratamento. “O P. vivax também pode desenvolver formas latentes, conhecidas como hipnozoítos, que se alojam no fígado. Além disso, é mais distribuído em países equatoriais. Então, é importante avaliar a eficácia de antimaláricos em diferentes espécies, para garantirmos que sejam eficazes em diversas regiões do mundo”, diz Garcia.
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