O Brasil ampliou significativamente a oferta de cuidados paliativos nos últimos anos, mas ainda está longe de garantir acesso para todos que precisam desse tipo de assistência. Segundo a Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), mais de 625 mil brasileiros necessitam de cuidados paliativos todos os anos, em um cenário impulsionado pelo envelhecimento da população e pelo aumento das doenças crônicas e progressivas.
Dados do Atlas Brasileiro de Cuidados Paliativos 2025, da ANCP, mostram que o número de serviços especializados praticamente dobrou em apenas três anos, passando de 234 programas, em 2022, para 423 em 2025. Apesar do avanço, a distribuição permanece desigual e evidencia que ampliar a oferta não significa, necessariamente, aumentar o acesso.
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O levantamento revela que 40% dos programas estão concentrados na região Sudeste, enquanto o Norte reúne apenas 3% dos serviços existentes. A concentração também ocorre geograficamente: 65% dos programas funcionam nas capitais, deixando boa parte da população do interior com menor acesso à assistência especializada.
O cenário brasileiro acompanha um desafio global. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), apenas cerca de 14% das pessoas que precisam de cuidados paliativos, no mundo, conseguem efetivamente receber esse atendimento, o que reforça a necessidade de amplificar e qualificar essa assistência.
Para o médico paliativista Douglas Crispim, médico geriatra e paliativista, especialista parceiro da Organização Nacional de Acreditação (ONA), o crescimento da rede representa um avanço importante, mas propõe uma nova etapa para os cuidados paliativos no Brasil.
"O país conseguiu ampliar o número de serviços, mas agora o desafio é consolidar programas estruturados, capazes de oferecer atendimento seguro, integrado e baseado em evidências. Não basta existir um serviço de cuidados paliativos; precisa estar organizado, atuar de forma multiprofissional e fazer parte da estratégia assistencial do hospital."
Além da expansão da rede, outro desafio é mudar a percepção da sociedade sobre os cuidados paliativos. Ainda é comum associá-los apenas ao fim da vida ou à interrupção do tratamento. Na prática, porém, devem ser oferecidos desde o diagnóstico de doenças graves, sempre que houver necessidade de controlar sintomas, aliviar o sofrimento físico e emocional e apoiar pacientes e familiares nas decisões sobre o tratamento.
Essa mudança já pode ser observada no perfil dos atendimentos. Atualmente, 76% dos programas brasileiros atendem tanto pacientes com câncer quanto pessoas com doenças cardiovasculares, neurológicas, respiratórias, renais e outras condições crônicas, demonstrando que os cuidados paliativos deixaram de ser exclusivos da oncologia.
Na avaliação da gerente-geral operacional da ONA, Gilvane Lolato, o amadurecimento dos cuidados paliativos exige que a discussão avance da quantidade para a qualidade dos serviços. "O crescimento da rede mostra que os cuidados paliativos ganharam espaço no sistema de saúde brasileiro. Agora, o desafio é assegurar que essa expansão seja acompanhada por critérios de qualidade, segurança do paciente e melhoria contínua. O Manual de Certificação em Cuidados Paliativos foi desenvolvido justamente para apoiar hospitais e outros serviços de saúde na implantação séria de programas estruturados, capazes de oferecer uma assistência mais segura, humanizada e alinhada às melhores práticas."
O manual, lançado pela ONA durante a Hospitalar 2026, estabelece critérios para avaliar a estrutura, os processos assistenciais e os resultados dos programas de cuidados paliativos. A proposta é apoiar hospitais públicos, privados e filantrópicos na organização de serviços capazes de ampliar o acesso, reduzir variações na qualidade da assistência e fortalecer a segurança do paciente.
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Para Douglas Crispim, o momento é decisivo para o país. "O envelhecimento da população fará com que cada vez mais brasileiros convivam durante anos com doenças graves e progressivas. O desafio não é apenas criar novos serviços, mas garantir que eles ofereçam um cuidado qualificado, integrado e centrado nas necessidades dos pacientes e de suas famílias."
