SAÚDE MENSTRUAL NA ESCOLA

Quatro em cada dez estudantes faltam às aulas por sintomas menstruais

Pesquisa revela que 40% das estudantes perdem dias de aula mensalmente e 60% sofrem com cólicas intensas

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A saúde menstrual tem se consolidado como um tema cada vez mais relevante no debate sobre permanência escolar e equidade na educação. Uma pesquisa nacional divulgada neste ano pelo Instituto Alana, em parceria com o Instituto Equidade.Info, revelou que quatro em cada dez estudantes que menstruam faltam às aulas pelo menos uma vez por mês em razão dos sintomas menstruais, o equivalente a cerca de 3,6 milhões de meninas no país.

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O levantamento também aponta que seis em cada dez alunas convivem com cólicas moderadas ou intensas capazes de comprometer a concentração, o desempenho escolar e até exigir o uso de medicamentos.

O impacto também alcança o ambiente de trabalho, uma vez que 12% das professoras relataram ausências mensais motivadas pelos mesmos sintomas, evidenciando que a saúde menstrual ainda representa um desafio pouco reconhecido nas instituições de ensino.

O médico e professor de ginecologia e obstetrícia da Afya Ipatinga, Renilton Aires Lima, comenta que os distúrbios menstruais mais comuns entre adolescentes incluem as cólicas e o sangramento menstrual excessivo.

“Essas condições podem comprometer significativamente a qualidade de vida, afetando os aspectos físico, emocional e social. São comuns limitações para a prática de atividades físicas, esportivas e sociais, alterações do sono, fadiga, diminuição da disposição, alterações de humor e sofrimento emocional, repercutindo de forma ampla no bem-estar e no desenvolvimento dessa população”.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) aponta que os distúrbios menstruais acometem até 73% das adolescentes brasileiras, sendo a dismenorreia (cólica menstrual) e a irregularidade dos ciclos as principais queixas registradas. Renilton Lima destaca que muitos adolescentes acreditam que sentir cólicas intensas é algo comum na adolescência e, na maioria das vezes, não está associada a uma doença pélvica.

De acordo com o especialista, o desconforto considerado habitual costuma começar pouco antes ou no início da menstruação, é mais intenso nas primeiras 24 até 48 horas, melhora progressivamente e não impede a adolescente de realizar suas atividades cotidianas.

Por outro lado, a dor merece investigação médica quando é intensa a ponto de impedir a realização das atividades diárias, quando piora progressivamente ao longo dos ciclos, quando ocorre também fora do período menstrual, quando vem acompanhada de náuseas ou vômitos, quando está associada a alterações intestinais ou urinárias ou quando não melhora com o uso adequado de anti-inflamatórios.

“A educação sobre o ciclo menstrual e as estratégias de autocuidado devem fazer parte de uma abordagem abrangente. Entre os hábitos recomendados para aliviar os sintomas estão a prática regular de atividade física, a manutenção de horários regulares e de uma duração adequada do sono, uma alimentação equilibrada, hidratação adequada, moderação no consumo de cafeína, bebidas energéticas, alimentos muito salgados e ultraprocessados, além de técnicas de manejo do estresse, como exercícios de respiração, relaxamento, meditação e organização da rotina. Entretanto, essas medidas são complementares, e o tratamento específico deve ser definido de acordo com a causa e a intensidade”, complementa o médico.

Impactos na saúde mental das estudantes

Outro dado é associado às dificuldades de acesso à higiene menstrual. Um estudo realizado pelo UNICEF em parceria com a Viração Educomunicação mostrou que 37% dos adolescentes e jovens que menstruam enfrentam dificuldades para acessar itens de higiene em escolas ou espaços públicos.

A pesquisa também revelou que 19% afirmam não ter recursos financeiros para comprar absorventes e que seis em cada dez participantes já deixaram de frequentar a escola ou o trabalho por causa da menstruação.

Além disso, 77% disseram já ter passado por situações de constrangimento relacionadas ao tema em ambientes escolares ou públicos, enquanto quase metade nunca participou de atividades educativas sobre saúde menstrual na escola.

A médica psiquiatra da infância e adolescência da Afya Educação Médica de Montes Claros, Carla Caroline Vieira, informa que a adolescência já é, por si só, um período de intensa neuroplasticidade e reorganização psíquica. Quando somamos a isso as oscilações hormonais do ciclo menstrual, especialmente as variações de estrogênio e progesterona na fase lútea, os sintomas emocionais podem se tornar mais intensos.

“Em relação ao humor, a queda hormonal no período pré-menstrual afeta diretamente sistemas de neurotransmissores, como a serotonina e o GABA (ácido gama-aminobutírico, principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central). Isso pode se manifestar por irritabilidade, ansiedade e maior labilidade emocional. A autoestima e a imagem corporal também podem ser impactadas. O edema, as alterações dermatológicas, como a acne, e o desconforto físico influenciam a percepção do próprio corpo. Na adolescência, fase em que a opinião dos outros costuma ter grande importância, sentir-se "inchada" ou "diferente" favorece o retraimento”.

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O estigma transforma um fenômeno fisiológico natural em motivo de vergonha e silêncio. De acordo com a psiquiatra, a preocupação constante com a possibilidade de sujar a roupa ou de que outras pessoas percebam a menstruação pode gerar ansiedade, isolamento social e um estado de hipervigilância, com impacto importante sobre a saúde mental. Alguns sinais podem indicar que a adolescente está enfrentando dificuldades relacionadas à menstruação.

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