Além da dor, enxaqueca afeta foco, memória e produtividade
Dificuldade de concentração, lapsos de memória e confusão mental mostram que a enxaqueca é um distúrbio cognitivo ainda subestimado e de alto impacto econômico
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A imagem clássica da enxaqueca costuma vir acompanhada de dor intensa, sensibilidade à luz e necessidade de isolamento. Mas, para milhões de pessoas, o impacto mais incapacitante se instala na mente.
“Não é raro pacientes relatarem dificuldade de concentração, raciocínio lento e sensação de ‘névoa mental’, conhecida como brain fog. Esses sintomas fazem parte da experiência de muitos pacientes e podem comprometer trabalho, dedicação aos estudos e qualidade de vida. Como, em média, os pacientes podem levar de sete a dez anos para receber diagnóstico correto, período em que convivem não só com dor, mas também com prejuízo cognitivo progressivo, o impacto econômico da enxaqueca é gigante no Brasil”, explica o neurologista Tiago de Paula, especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP).
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Estudo do Instituto WifOR estimou que o impacto socioeconômico da doença ultrapassa os 800 bilhões de reais. “Isso ocorre porque a dificuldade cognitiva pode surgir antes mesmo da dor, na chamada fase premonitória da enxaqueca, e persistir após a crise, no período conhecido como ‘ressaca da enxaqueca’. Isso significa que o impacto funcional da doença vai muito além das horas de dor, podendo comprometer dias inteiros de desempenho”, completa.
O médico explica que, mais do que uma crise episódica de dor, a enxaqueca é uma condição neurológica complexa, associada a alterações na atividade cerebral que afetam diretamente funções cognitivas como atenção, memória e velocidade de processamento.
“Durante as crises e, em alguns casos, até entre elas, há alterações em redes neurais responsáveis pela integração sensorial e pelo controle executivo. Regiões como o córtex pré-frontal e o sistema límbico podem apresentar funcionamento desregulado, o que ajuda a explicar por que tarefas simples passam a exigir um esforço desproporcional. Esse fenômeno não é apenas subjetivo: a ciência mostra prejuízo mensurável em testes cognitivos durante episódios de enxaqueca, especialmente em atenção sustentada e memória de trabalho”, diz Tiago de Paula.
O chamado brain fog não é um diagnóstico formal, mas, segundo Tiago, descreve com precisão a experiência relatada por pacientes: sensação de lentidão mental, dificuldade para organizar pensamentos, lapsos de memória recente, redução da clareza e da tomada de decisão. “É como tentar operar um computador com várias abas abertas e pouca bateria: tudo funciona, mas com atraso, travamentos e frustração constante”, diz o médico.
No ambiente profissional, estudos mostram que 12,8% dos trabalhadores com cefaleia perdem dias de trabalho regularmente e outros 26,2% continuam trabalhando com produtividade reduzida (presenteísmo). Assim, os sintomas cognitivos da enxaqueca podem ser tão limitantes quanto a dor.
“Pacientes relatam dificuldade para manter foco em reuniões, interpretar informações complexas ou cumprir prazos. O problema é que, ao contrário da dor visível, a dificuldade cognitiva muitas vezes é interpretada como desatenção, desorganização ou até falta de comprometimento. Isso gera um ciclo de estresse que, por si só, pode agravar as crises”, aponta o especialista.
Entre adolescentes e adultos jovens, o impacto pode ser ainda mais sensível. “A fase de formação acadêmica exige alta performance cognitiva, exatamente o que a enxaqueca compromete. Dificuldade para absorver conteúdo, manter atenção em aulas longas e realizar provas sob pressão são queixas frequentes. Em muitos casos, esses pacientes não são diagnosticados corretamente e acabam rotulados como desmotivados ou ansiosos, quando, na verdade, enfrentam uma condição neurológica subjacente”, destaca Tiago de Paula.
O manejo da enxaqueca não deve focar apenas no alívio da dor, mas também na preservação da função cognitiva. Por isso, o médico reforça que a enxaqueca não deve ser vista como uma dor episódica, mas como uma condição crônica que exige diagnóstico adequado e acompanhamento contínuo.
“Quando falamos no tratamento da enxaqueca, buscamos não só reduzir a dor física, mas devolver qualidade de vida para esse paciente. O tratamento envolve o uso de medicamentos como anticorpos monoclonais Anti-CGRP, betabloqueadores, anticonvulsivantes e toxina botulínica, além de manejo no estilo de vida, principalmente com acompanhamento multidisciplinar, e afastamento de substâncias que atuam como cronificadores (chás estimulantes, café e chocolate). Atuando no controle da doença, diminuímos fortemente os impactos da enxaqueca”, diz o médico.
Além disso, o especialista comenta que é necessário reconhecer a dimensão cognitiva da doença para reduzir o estigma e melhorar o acolhimento desses pacientes. “Trazer esse debate à tona é essencial para que pacientes sejam compreendidos, diagnosticados precocemente e tratados de forma mais completa."
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