O Agosto Branco, mês nacional de conscientização sobre o câncer de pulmão, aumenta a atenção para a importância da conscientização sobre a doença, do diagnóstico precoce e da melhoria dos desfechos para as pessoas que convivem com esse tipo de câncer.
No Brasil, o câncer de pulmão é o terceiro tipo mais comum entre os homens, com aproximadamente 18 mil novos casos por ano, e o quarto entre as mulheres, com cerca de 14 mil casos anuais. Globalmente, entretanto, é a principal causa de mortalidade por câncer entre os homens e a segunda principal entre as mulheres.
Embora o câncer de pulmão englobe diferentes subtipos, alguns representam desafios significativos devido à rápida progressão da doença e ao diagnóstico frequente em estágios avançados. Cerca de 60% a 85% das pessoas com câncer de pulmão de pequenas células (CPPC) são diagnosticadas com doença extensa (CPPC-DE), a forma mais agressiva deste câncer, associada a desfechos desfavoráveis.
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Sem tratamento, os pacientes com CPPC-DE geralmente sobrevivem apenas de dois a quatro meses. Além de ser conhecida por sua alta agressividade, a doença também costuma ser diagnosticada apenas quando se encontra em fases avançadas, o que reduz as possibilidades terapêuticas e contribui para os baixos índices de sobrevida.
O tratamento do câncer de pulmão de pequenas células com doença extensa (CPPC-DE) evoluiu gradualmente ao longo dos anos. No entanto, a necessidade de novas opções terapêuticas ainda representa um importante desafio. No Brasil, esse cenário ganhou um importante reforço neste ano com a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a terapia biológica serplulimabe como tratamento para esse grupo de pacientes.
Novo medicamento
Serplulimabe é um anticorpo monoclonal anti-PD-1, um tipo de imunoterapia que permite ao sistema imunológico identificar, atacar e eliminar as células cancerígenas. Segundo Mauricio Morales Castillo, diretor médico Associado Global na área de medicamentos da Abbott, os resultados clínicos obtidos com o novo medicamento biológico representam mais do que a possibilidade de ampliar a sobrevida dos pacientes, ao mesmo tempo em que contribuem para a sua qualidade de vida.
“Quando falamos de câncer de pulmão de pequenas células com doença extensa, cada avanço tem um impacto significativo, porque estamos diante de uma doença que, por muitos anos, teve poucas mudanças relevantes em seu tratamento”, comenta o especialista.
“Por isso, resultados que demonstram ganhos de sobrevida são muito importantes. Eles mostram que estamos entrando em uma nova fase no tratamento dessa doença, com a possibilidade de oferecer alternativas mais inovadoras e ampliar o acesso dos pacientes a terapias que impactam positivamente tanto seu prognóstico quanto sua qualidade de vida.”
Por que a doença é desafiadora?
Os sintomas iniciais do câncer de pulmão de pequenas células com doença extensa podem ser discretos ou mesmo confundidos com problemas respiratórios comuns. Entre os principais sinais de alerta que merecem investigação estão:
- Tosse persistente
- Falta de ar
- Dor no peito
- Rouquidão
- Cansaço excessivo
- Perda de peso sem causa aparente
- Presença de sangue no escarro
Porém, nem sempre o paciente identifica os sintomas e considera estes sinais como algo grave, atrasando a busca por atendimento médico e, como consequência, recebendo o diagnóstico quando as chances de controle da doença são menores.
Embora haja outros agentes envolvidos, o tabagismo continua sendo o principal fator de risco para o desenvolvimento da doença, estando associado à maioria dos casos diagnosticados. A exposição passiva à fumaça do cigarro, poluentes ambientais e determinadas substâncias químicas também podem aumentar o risco.
Direcionado e personalizado
O tratamento para CPPC-DE varia de acordo com o tipo e o estágio da doença, e pode incluir cirurgia, radioterapia, quimioterapia, imunoterapia e terapias-alvo. Assim, a chegada do serplulimabe ao Brasil acontece em um momento em que a oncologia busca oferecer ao paciente tratamentos cada vez mais direcionados e personalizados.
O serplulimabe é um anticorpo monoclonal humanizado anti-PD-1 que potencializa a resposta imunológica antitumoral ao bloquear a inibição imunológica mediada por PD-1.2
De acordo com o estudo global de Fase III ASTRUM-00512, 21,9% dos pacientes tratados com serplulimabe em combinação com quimioterapia permaneceram vivos após quatro anos, em comparação com 7,2% daqueles que receberam apenas quimioterapia, resultado que representa um avanço significativo para uma doença que historicamente contava com opções de tratamento bastante limitadas.
“Esse tratamento oferece uma oportunidade de melhores desfechos clínicos em uma doença que historicamente tem opções terapêuticas limitadas”, Mauricio Morales. Segundo o especialista, a aprovação do serplulimabe no Brasil introduz uma opção adicional de tratamento para pacientes elegíveis com câncer de pulmão de pequenas células com doença extensa, permitindo que mais pacientes se beneficiem de terapias baseadas em evidências para uma doença que registrou poucos avanços significativos ao longo das últimas décadas.
De olho no futuro
Durante o ASCO 2026, maior congresso mundial de oncologia, especialistas discutiram como diferentes tipos de tumores são tratados e os desafios para ampliar o acesso dos pacientes às inovações.
O tema é especialmente relevante para os países da América Latina, região onde a incidência de câncer deve crescer 65% até 204016, ao mesmo tempo em que muitos pacientes ainda enfrentam obstáculos para o acesso a diagnósticos e tratamentos adequados.
Também há a preocupação dos especialistas em como encurtar a distância entre os avanços da pesquisa e a realidade dos pacientes. Em doenças agressivas, como o câncer de pulmão de pequenas células com doença extensa, iniciar o tratamento rapidamente é fundamental para melhorar as chances de controlar a doença.
Além dos ganhos de sobrevida, o congresso ampliou a forma com que olhamos para o cuidado em oncologia. Estudos apresentados durante o congresso mostraram preocupações com temas como qualidade de vida, manejo de efeitos adversos, personalização dos tratamentos e formas de evitar procedimentos desnecessários. Isso reflete que há uma atenção cada vez maior em equilibrar eficácia clínica e qualidade de vida.
“O ASCO deste ano mostrou que a oncologia passa por mudanças muito importantes. Os avanços científicos continuam chegando em ritmo cada vez mais acelerado, mas vemos uma grande preocupação em como fazer com que esses avanços cheguem aos pacientes”, reflete o diretor médico.
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“Para doenças agressivas, como o câncer de pulmão de pequenas células, principalmente sua forma extensa, ampliar o acesso à inovação pode representar novas possibilidades de tratamento, mas também trazer perspectivas melhores para quem convive com a doença.”
