Os anticoncepcionais hormonais que contêm estrogênio podem aumentar o risco de eventos trombóticos em algumas mulheres, tornando fundamental a avaliação individual dos fatores de risco antes da escolha do método contraceptivo. O alerta é do neurocirurgião Orlando Maia, do Hospital Quali Ipanema.

A trombose ocorre quando há a formação de um coágulo sanguíneo dentro de uma veia, geralmente nos membros inferiores, comprometendo a circulação sanguínea. Os sintomas podem incluir inchaço, dor, sensação de peso e aumento da temperatura local. No entanto, segundo o especialista, um dos maiores desafios é que muitos casos podem se desenvolver inicialmente de forma silenciosa ou apresentar sinais pouco valorizados.

O médico esclarece ainda que a trombose que ocorre nas pernas não migra para o cérebro. Nesses casos, o coágulo pode se deslocar para o pulmão, provocando uma embolia pulmonar.

"O que pode migrar para o cérebro é quando esse coágulo é formado no coração. Aí, sim, ele pode ir para o cérebro", afirma.

Segundo Orlando Maia, um quadro que pode estar associado ao uso de determinados anticoncepcionais é a trombose venosa cerebral.

"Os anticoncepcionais orais, especialmente aqueles que contêm estrogênio e determinadas formulações hormonais, podem aumentar o risco de eventos trombóticos, como trombose venosa profunda e embolia pulmonar. Por isso, a indicação deve sempre considerar o perfil individual de risco de cada paciente", explica Maia.

Diante desse cenário, o especialista ressalta a importância da investigação de predisposição genética à trombose, principalmente em mulheres com histórico familiar da doença, abortos de repetição ou outros fatores de risco associados.

"A avaliação individualizada é fundamental para identificar situações que exigem maior atenção e orientar a escolha mais segura em cada caso", complementa.

E o AVC?

Segundo o especialista, estudos mostram que alguns anticoncepcionais hormonais, especialmente os contraceptivos orais combinados que contêm estrogênio, podem estar associados a um aumento do risco de acidente vascular cerebral (AVC), sobretudo em mulheres que apresentam fatores de risco adicionais.

"O uso de anticoncepcionais deve sempre ser discutido com o ginecologista, que poderá avaliar fatores como idade, histórico familiar, tabagismo, presença de enxaqueca com aura, hipertensão arterial e predisposição à formação de coágulos, indicando a opção mais adequada para cada paciente", afirma o médico.

De acordo com o especialista, o AVC isquêmico, na maioria das vezes, especialmente em pessoas jovens, é causado pela formação de um trombo, um coágulo que migra pela circulação arterial e obstrui uma artéria cerebral.

"As pessoas confundem quando ocorre uma TVC, que é uma trombose venosa cerebral, que entope uma veia. Quando entope a veia do cérebro, o sangue chega à circulação cerebral, mas não consegue sair por causa da obstrução. Isso provoca um aumento da pressão dentro da cabeça", alerta.

Segundo o neurologista, a médio e longo prazo, esse aumento da pressão intracraniana compromete a circulação cerebral e pode provocar dois tipos de AVC.

"Um AVC isquêmico, por falta de chegada de circulação, e depois pode ocorrer uma transformação hemorrágica, que a gente chama de infarto hemorrágico. É uma transformação hemorrágica após o AVC isquêmico", complementa.

De acordo com Maia, parte desse risco está relacionada ao etinilestradiol, uma forma sintética de estrogênio presente em diversos anticoncepcionais combinados.

"Essa substância pode provocar alterações nos mecanismos de coagulação do sangue, aumentando a tendência à formação de coágulos. Quando um desses coágulos obstrui a circulação cerebral, pode ocorrer um AVC isquêmico", explica.

Além disso, estudos sugerem que o estrogênio também pode influenciar a função dos vasos sanguíneos e do endotélio, camada de células que reveste internamente os vasos, contribuindo para um ambiente mais favorável à formação de trombos em pessoas predispostas.

"Esse risco tende a ser maior quando já existem fatores genéticos ou clínicos associados. Por isso, é importante reforçar que nem todos os anticoncepcionais apresentam o mesmo perfil de risco e que a escolha do método deve ser sempre individualizada", reitera o médico.

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Orlando Maia é neurocirurgião do Hospital Quali Ipanema; membro titular da World Federation of Neuroradiology, da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, da Sociedade de Neurocirurgia do Rio de Janeiro e vice-presidente do Congresso Brasileiro de Neurocirurgia 2026.

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