A exclusão do glúten da alimentação se popularizou como estratégia de estilo de vida, mas médicos alertam que essa prática, quando feita sem orientação, pode trazer mais riscos do que benefícios, especialmente ao dificultar o diagnóstico de doenças relevantes.

“O principal problema é o autodiagnóstico. Muitas pessoas retiram o glúten por conta própria ao perceberem sintomas, mas isso pode mascarar sinais clínicos e comprometer a investigação adequada”, afirma Áureo Delgado, presidente da Federação Brasileira de Gastroenterologia.

Quando o glúten realmente é um problema?

O glúten deve ser evitado apenas em condições específicas, como:

  • Doença celíaca: doença autoimune que causa inflamação e dano ao intestino delgado
  • Alergia ao trigo: reação imunológica clássica, geralmente de início mais rápido
  • Sensibilidade ao trigo não celíaca: quadro sem lesão intestinal, mas com sintomas associados ao consumo

Os sintomas podem variar e nem sempre são apenas intestinais. Entre os mais comuns estão:

  • Diarreia crônica ou constipação
  • Distensão abdominal e gases
  • Dor abdominal
  • Perda de peso ou anemia
  • Fadiga, dor de cabeça ou alterações de humor

“Nem todo desconforto após comer pão ou massa é causado pelo glúten. Outras condições, como síndrome do intestino irritável e intolerâncias alimentares, podem estar envolvidos”, explica o especialista.

Por que não cortar antes de investigar?

Para diagnosticar corretamente a doença celíaca, é essencial que o paciente esteja consumindo glúten regularmente. Os principais exames incluem sorologia específica (anticorpos no sangue) e endoscopia com biópsia do intestino delgado.

Sem o consumo de glúten, esses testes podem apresentar resultados falsamente negativos ou inconclusivos. “Retirar o glúten antes da avaliação pode atrasar o diagnóstico por meses ou anos, além de exigir reintrodução dessa proteína para refazer os exames, o que pode ser desconfortável para o paciente”, alerta.

Além de dificultar o diagnóstico, a exclusão alimentar sem orientação pode levar a:

  • Deficiências nutricionais (especialmente fibras, ferro e vitaminas do complexo B)
  • Dietas restritivas desnecessárias
  • Maior custo alimentar
  • Falsa sensação de tratamento sem diagnóstico correto

Subdiagnóstico e acesso aos exames no Brasil

A doença celíaca afeta cerca de 1% da população mundial, segundo a World Gastroenterology Organisation, mas ainda é subdiagnosticada no Brasil. Parte do problema está na baixa suspeição clínica e na diversidade de sintomas.

Outro ponto importante é que os exames necessários para diagnóstico estão disponíveis no SUS e têm cobertura obrigatória na saúde suplementar, conforme diretrizes vigentes. Ou seja, o acesso existe, mas depende de investigação adequada.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

A recomendação de Áureo é direta: não retire o glúten por conta própria diante de sintomas. “Qualquer mudança alimentar deve ser baseada em diagnóstico. O caminho seguro é procurar avaliação médica, investigar corretamente e só então definir a conduta”, reforça o especialista.

compartilhe