Semaglutida reduz consumo excessivo de álcool em pacientes com obesidade, diz estudo
O ensaio foi conduzido no Mental Health Center Copenhagen, na Dinamarca, entre junho de 2023 e fevereiro de 2025
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O uso semanal de semaglutida -princípio ativo do Ozempic e do Wegovy- reduziu de forma significativa os episódios de consumo excessivo de álcool em pacientes com transtorno por uso de álcool e obesidade, segundo ensaio clínico randomizado publicado nesta quinta-feira (30/4) na revista The Lancet.
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O consumo total de álcool também diminuiu: de aproximadamente 2.200 gramas por mês no início, para cerca de 650 gramas no grupo tratado e 1.175 g no grupo controle (que recebeu o placebo) ao fim do período.
O ensaio foi conduzido no Mental Health Center Copenhagen, na Dinamarca, entre junho de 2023 e fevereiro de 2025. Os 108 participantes --53 mulheres e 55 homens, com média de idade de 52 anos- foram divididos igualmente entre o grupo que recebeu injeção semanal de semaglutida (2,4 mg) e o grupo placebo. Todos também receberam até dez sessões de terapia cognitivo-comportamental.
Em fevereiro de 2025, um estudo menor -48 participantes, dose baixa, sem busca ativa por tratamento- havia sido publicado na JAMA Psychiatry e mostrado redução de cerca de 30% no consumo nos dias em que os participantes bebiam.
Os achados do novo estudo, dizem os autores, "apoiam uma indicação expandida para a semaglutida, potencialmente afetando milhões de pessoas" -dado que o transtorno por uso de álcool responde por cerca de 5% das mortes no mundo a cada ano e apenas três medicamentos são aprovados pelo FDA (agência regulatória americana de alimentos e medicamentos) para seu tratamento.
O estudo foi parcialmente financiado pela Fundação Novo Nordisk, ligada ao fabricante do medicamento testado. Os pesquisadores declaram que a empresa não teve papel no desenho, na coleta, na análise ou na interpretação dos dados.
Os efeitos adversos mais comuns foram gastrointestinais: náusea atingiu 57% dos participantes do grupo semaglutida, contra 7% no placebo; constipação, 35% contra 17%; e refluxo, 28% contra 2%. Os sintomas foram descritos como transitórios e de intensidade leve a moderada. Quatro participantes do grupo semaglutida abandonaram o estudo por efeitos colaterais.
Os autores, no entanto, listam limitações relevantes. O ensaio tem amostra pequena e população predominantemente branca. Além disso, a exigência de IMC (Índice de Massa Corporal) igual ou superior a 30 kg/m² restringe os achados a pacientes com obesidade, excluindo grande parte das pessoas com transtorno por uso de álcool. O estudo também não coletou dados após o encerramento do tratamento, o que impede avaliar se os efeitos se mantiveram.
Também não foi possível determinar se o efeito sobre o álcool é independente da perda de peso. O estudo identificou correlação significativa entre emagrecimento e redução do consumo no grupo semaglutida, mas não no grupo placebo. Como o consumo calórico não foi medido, os autores admitem não ser possível afirmar se o efeito sobre o álcool foi primariamente atribuível ao conteúdo calórico da bebida.
O mecanismo pelo qual a semaglutida pode reduzir o desejo de beber permanece desconhecido. A hipótese predominante, segundo os autores, é que o medicamento atue sobre vias neurobiológicas e periféricas que regulam tanto o metabolismo quanto os circuitos de recompensa no cérebro, os mesmos envolvidos na obesidade e no transtorno por uso de álcool.
Diante disso, os pesquisadores ressalvam que "limitações e incertezas de segurança persistem, e pesquisas adicionais são necessárias antes que o uso off-label possa ser endossado."
A semaglutida tem sido investigada para uma série de outros usos além de obesidade e diabetes. Entre os efeitos positivos já documentados estão a redução de dores de artrose no joelho, evidências de proteção cardiovascular e possível prevenção de recaída em pessoas com transtorno por uso de álcool. Pesquisadores também estudam potenciais efeitos sobre o Alzheimer, embora os resultados em humanos ainda sejam inconclusivos.
Entre os riscos, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) alertou que medicamentos da mesma classe podem aumentar o risco de complicações durante anestesia, pois retardam o esvaziamento gástrico.
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Estudos também associaram o uso da semaglutida a problemas de visão, perda de cabelo em mulheres e lesões renais, embora os pesquisadores ressalvem que ainda são necessários mais estudos para estabelecer relação causal em cada caso.