Lesões aparentemente simples, como pequenos cortes ou bolhas, podem evoluir para quadros graves quando não recebem o cuidado adequado. No Brasil, esse cenário tem impacto direto na saúde pública: segundo o último levantamento registrado pelo Ministério da Saúde, foram contabilizadas 4.227 amputações relacionadas ao diabetes no Sistema Único de Saúde (SUS). O número reforça uma tendência já observada nos últimos anos: o país soma cerca de 10 mil amputações anuais, o que representa, em média, 28 casos por dia.
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“Quando a gente olha para esses números, fica claro que não se trata de algo raro. É uma situação frequente e, na maioria das vezes, evitável”, destaca o médico Evandro Reis.
Feridas crônicas são o ponto de partida
Grande parte desses casos começa com uma lesão pequena, que muitas vezes passa despercebida. Segundo o Ministério da Saúde, até 25% das pessoas com diabetes desenvolverão feridas nos pés ao longo da vida, condição conhecida como pé diabético. Essas lesões apresentam cicatrização mais lenta e maior risco de infecção.
Além disso, estima-se que até 85% das amputações de membros inferiores estejam relacionadas ao diabetes, geralmente precedidas por feridas que poderiam ter sido tratadas precocemente. “A ferida é só a ponta do iceberg. Por trás dela, geralmente existe uma doença crônica que não está bem controlada”, explica Evandro.
Falta de informação ainda é desafio
Na prática, o problema vai além da doença em si. O atraso na busca por atendimento ainda é um fator decisivo. “O que a gente vê com frequência é o paciente conviver com a ferida por semanas ou meses. Muitas vezes ela não dói, e isso passa uma falsa sensação de que não é grave”, diz o médico.
Segundo Evandro, esse comportamento contribui diretamente para a evolução do quadro. “Quando esse paciente chega ao atendimento, a lesão já está mais avançada, com infecção ou comprometimento mais profundo. E aí o tratamento se torna muito mais complexo.”
Ele reforça que o tempo é um fator determinante. “Existe uma janela importante no início da ferida em que a intervenção é muito mais simples e eficaz. Quando essa oportunidade é perdida, o risco de complicações aumenta muito.”
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Doenças crônicas aumentam o risco
O crescimento de doenças como diabetes, obesidade e problemas vasculares tem impacto direto no aumento das feridas de difícil cicatrização.
No caso do diabetes, os dois fatores principais são a perda de sensibilidade nos pés, que dificulta perceber lesões; e o comprometimento da circulação, que prejudica a cicatrização. Esse cenário faz com que pequenas lesões evoluam rapidamente.
“Muitas vezes, o paciente nem percebe que se machucou. Quando percebe, a ferida já está instalada e evoluindo”, explica Evandro. “Essas feridas não surgem de forma isolada. Elas estão ligadas a doenças que, muitas vezes, não estão bem controladas. Quando o paciente entende isso, é possível mudar completamente a evolução do quadro”, acrescenta.
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Como prevenir?
Apesar dos números preocupantes, especialistas reforçam que grande parte das amputações poderia ser evitada com medidas simples no dia a dia.
Entre as principais recomendações estão:
- Manter o controle do diabetes
- Observar os pés regularmente
- Cuidar da higiene e hidratação da pele
- Procurar atendimento ao identificar qualquer ferida
“Grande parte dessas complicações poderia ser evitada. O que falta, muitas vezes, não é tratamento, é acesso à informação no momento certo”, afirma . Evandro.
O médico também chama atenção para a importância de não subestimar sinais iniciais. “Uma ferida que não cicatriza em poucas semanas precisa ser avaliada. Esperar pode custar muito caro em termos de saúde e qualidade de vida”, alerta.
Ao acompanhar de perto essa realidade, inclusive retratada na série Doutor Feridas, ele reforça que a informação pode mudar desfechos.
Problema de saúde pública
Com o aumento das doenças crônicas no país, a tendência é que os casos de feridas complexas também cresçam nos próximos anos. Por isso, ampliar o acesso à informação e incentivar o diagnóstico precoce são passos fundamentais para reduzir complicações mais graves.
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“Ignorar uma ferida pode parecer algo simples, mas é justamente esse atraso que, muitas vezes, leva a consequências irreversíveis”, afirma o especialista.
