No Brasil, estima-se que a população com transtorno do espectro autista (TEA) seja de 2,4 milhões, de acordo como Censo 2022 do IBGE. Esse cenário de subdiagnóstico feminino tem se agravado de forma remanescente.

O problema é que fatores sociais e comportamentais, como a pressão para que meninas sejam mais quietas e sociáveis, criam uma "cortina de fumaça" que esconde os sinais, levando a uma vida inteira de dificuldades não diagnosticadas, como ansiedade e depressão.

De acordo com a professora de psicologia da Uniasselvi, Gabriela Inthurn, a explicação para essa lacuna está na forma como os traços autistas se manifestam socialmente nas mulheres. “O grande desafio no diagnóstico feminino é que ele é frequentemente mais sutil e camuflado por um enorme esforço de adaptação social, conhecido como ‘masking’. Muitas meninas aprendem a imitar comportamentos para se encaixar, o que mascara os traços clássicos do autismo e engana até mesmo avaliadores menos experientes”, explica a especialista.

Esse fenômeno, portanto, é um dos principais responsáveis por uma legião de mulheres que chegam à vida adulta sem respostas. Já o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria, aponta que o TEA é diagnosticado de três a quatro vezes mais no sexo masculino do que no feminino. Essa disparidade ocorre mesmo que os critérios diagnósticos, ou seja, os sinais observados e os sintomas informados pela pessoa, sejam os mesmos para todos os gêneros, e que o diagnóstico em mulheres tende a ser mais tardio.

O peso do "masking"

Desde cedo, meninas no espectro aprendem a observar e imitar comportamentos neurotípicos para se encaixarem, tornando-se verdadeiras "atrizes sociais". Esse processo, muitas vezes inconsciente, envolve um conjunto de estratégias exaustivas: forçar o contato visual mesmo que seja desconfortável, ensaiar conversas mentalmente, suprimir movimentos repetitivos (stims) e imitar expressões faciais de colegas.

Embora seja uma tática de sobrevivência para evitar o isolamento e o preconceito, essa performance constante desconecta a mulher de sua identidade autêntica e drena sua energia mental e emocional.

“O masking é a tentativa da pessoa autista, especialmente as mulheres, de mascarar os comportamentos autistas. É um conjunto de estratégias que a pessoa utiliza para tentar ocultar ou minimizar comportamentos do transtorno, muitas vezes para evitar julgamentos, e isso pode dificultar o diagnóstico”, pontua Gabriela.

Sinais sutis e os impactos na saúde mental

Uma das razões para essa dificuldade no diagnóstico está na natureza dos interesses restritos, ou hiperfocos. Enquanto em meninos é comum o foco em temas como dinossauros ou meios de transporte, em meninas, esses interesses podem se voltar para assuntos considerados mais “comuns”, como literatura, artes ou animais, passando despercebidos.

O esforço contínuo para se adaptar, somado à falta de um diagnóstico que explique suas dificuldades, tem um custo elevado para a saúde mental. “Um diagnóstico tardio traz prejuízos, independentemente do gênero, porque em muitos casos a intervenção só acontece após o diagnóstico. A importância da intervenção precoce é sempre comentada na literatura, e quando ela não ocorre pode trazer prejuízo na aprendizagem, nos relacionamentos, na vida profissional do adulto e principalmente na autoestima”, explica a professora.

Diagnóstico e seus desafios

O modelo de diagnóstico do autismo foi, por muito tempo, construído a partir de um protótipo masculino. Como consequência, muitos profissionais de saúde não foram treinados para reconhecer as manifestações mais internalizadas ou socialmente camufladas do transtorno em meninas e mulheres.

Com isso, os sinais que não se encaixam no estereótipo clássico são frequentemente descartados ou atribuídos a outras condições, como ansiedade, depressão ou transtorno de personalidade, reforçando o ciclo do subdiagnóstico.

"Na história do próprio transtorno, os conhecimentos e critérios de diagnóstico estiveram sempre baseados no gênero masculino, que era aquele mais prevalente, levando para que muitos sinais e sintomas sejam ainda baseados no comportamento conhecido como masculino", afirma a psicóloga.

Como buscar ajuda?

A jornada para o diagnóstico em mulheres adultas geralmente começa com a autoidentificação, muitas vezes impulsionada por relatos e conteúdo em redes sociais.

Embora esse movimento de reconhecimento seja um passo inicial importante e validador, a etapa seguinte é crucial: buscar uma avaliação clínica estruturada. O objetivo vai além de confirmar um rótulo. Um profissional especializado poderá fazer o diagnóstico diferencial, ou seja, distinguir o TEA de outras condições com sintomas sobrepostos, como TDAH ou transtornos de ansiedade e, principalmente, traçar um plano de suporte terapêutico personalizado.

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“O diagnóstico de autismo pode ser realizado por um psicólogo ou médico. É recomendado que, ao suspeitar, o adulto ou os pais (no caso de crianças) procurem um profissional da psicologia para realizar uma avaliação. É importante ressaltar que não existe autodiagnóstico em saúde mental, é preciso que a pessoa passe por uma avaliação de um profissional qualificado”, destaca a professora.

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