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Qual a sensação das picadas mais dolorosas do mundo: 'Como um soco de Mike Tyson'

Vespas, abelhas, marimbondos, águas-vivas... Afinal, qual animal tem a picada que causa mais dor do mundo? Especialistas vêm analisando casos e alguns até se submetem aos animais, em busca de uma conclusão.

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O que você prefere: levar uma pancada do boxeador Mike Tyson ou um martelo pneumático na região dos rins?

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Esta é a sensação de receber duas das picadas mais dolorosas do mundo. Ou seja, para saber qual delas é a pior, tudo é questão de gosto.

Os animais que picam incluem desde os conhecidos insetos do jardim até curiosas criaturas marinhas. Eles usam uma série de defesas químicas, como neurotoxinas e agentes inflamatórios, para se defender ou subjugar as presas.

Os animais que mordem, como as aranhas e as cobras, usam suas bocas com presas para administrar veneno. Já em relação aos que picam, nossa preocupação é com a sua outra extremidade.

Perguntamos a especialistas quais as picadas mais dolorosas do reino animal, sem nos preocuparmos com a letalidade. Aqui está o ranking.

Insetos: vespas, formigas e abelhas

O pai do campo especializado em levar picadas de propósito na era moderna foi o entomologista Justin Schmidt (1947-2023), do Estado americano do Arizona.

Ele desenvolveu uma classificação de dores de picadas que recebeu seu próprio nome, submetendo-se a pelo menos 96 espécies de insetos, como abelhas, vespas, formigas e marimbondos.

Schmidt classificou as picadas em quatro níveis de dor, acrescentando descrições evocativas, quase líricas, de cada uma das sensações. Para nossa sorte, ele era um entomologista com alma poética.

O primeiro nível engloba o trivial. A picada de uma abelha do gênero Anthophora, por exemplo, é "quase agradável, como um amante mordendo o lóbulo da sua orelha com um pouco mais de força".

O nível 2 inclui alguns agressores mais fortes, como a vespa melífera: "Picante, forma bolhas. Um swab de algodão mergulhado em molho de pimenta habanero sendo empurrado pelo seu nariz."

E também a vespa Polybia: "Um ritual satânico que deu errado. A lâmpada a gás da antiga igreja explodindo no seu rosto quando você a acende."

Já as sete espécies do nível 3 levaram Schmidt a uma verdadeira tortura. A formiga da espécie Dasymutilla klugii, por exemplo:

"Explosiva e de longa duração, faz você gritar como louco. Óleo quente da frigideira de imersão vertendo sobre toda a sua mão."

Apenas três espécies se enquadraram no nível 4 de Schmidt.

A primeira foi a formiga-cabo-verde, um artrópode com 2,5 cm de comprimento das florestas tropicais da América Central e do Sul. Ela costuma ser chamada de "formiga das 24 horas", em referência ao tempo que dura o tormento causado pela sua picada.

"Dor pura, intensa e brilhante. Como andar sobre carvão com um prego de 7 cm enfiado no seu calcanhar."

Em seguida, veio o marimbondo-caçador, um inseto caçador de aranhas do tamanho de um tee de golfe, presente em quase todo o mundo.

"Ofuscante, violenta, um choque elétrico. Um secador de cabelo ligado despejado na sua banheira", escreveu Schmidt. Ele destacou que o efeito dura apenas alguns minutos.

Por fim, vem o marimbondo-tatu (Synoeca septentrionalis), um inseto formador de colônias nativo da América Central e do Sul.

"Tortura. Você está acorrentado no fluxo de um vulcão ativo. Por que eu comecei esta lista?"

Vespas-gigantes-do-norte mortas na mão de uma pessoa
Getty Images
Coyote Peterson comparou a picada da vespa-gigante-do-norte com um 'soco no rosto de Mike Tyson'

Schmidt morreu de complicações de Parkinson em 2023, mas seu aparente herdeiro é o youtuber Coyote Peterson, que se submeteu a espécies picadoras nunca avaliadas por Schmidt.

Peterson compensa sua falta de estudo científico formal com a disposição de sacrificar seu antebraço esquerdo pela educação e entretenimento de milhões de pessoas que assistem a ele se retorcendo, suando e gritando no seu canal do YouTube, Brave Wilderness.

Peterson conta que usou o índice de dor de Schmidt como roteiro para "criar a versão cinematográfica" do livro de Schmidt Sting of the Wild ("Picada dos animais selvagens", em tradução livre), de 2016.

"Vamos homenagear a escala de 1 a 4, mas vamos descobrir quais outros números 4 existem por aí", propõe ele.

'Instantâneo e explosivo'

Depois de viajar pelo mundo para vivenciar picadas de 30 espécies, Peterson indica duas outras para inclusão no nível 4: a vespa-gigante-do-norte, que se popularizou em 2020 como a "vespa assassina", e o marimbondo-transformador (Polistes carnifex).

"A vespa-gigante-do-norte, inquestionavelmente, apresentou o pior impacto, como ser atingido no rosto por Mike Tyson", conta Petersen. "Eu apaguei. Foi instantâneo e explosivo."

Antes chamada de vespa-gigante-asiática, esta espécie marcou forte presença por um breve período no litoral noroeste dos Estados Unidos, entre 2019 e 2024.

Mas, para Peterson, o marimbondo-transformador é o vencedor.

"A dor talvez tenha durado 12 horas", ele conta. Mas os efeitos posteriores do veneno permaneceram com Peterson — literalmente.

"Houve certas propriedades necróticas que eclodiram como erupções, como um buraco arrancado do meu antebraço", relembra ele. "É a única picada que comeu fisicamente a carne e ainda tenho a cicatriz... como uma queimadura de cigarro."

Os cientistas não descobriram a composição do veneno do inseto, mas alguns dos seus parentes usam enzimas que danificam os tecidos, ativando a reação imunológica.

As águas-vivas, que mais picam do que esguicham

Mas os insetos não formam um monopólio no mundo das picadas.

As águas-vivas possuem células minúsculas em forma de arpões chamadas nematocistos, que liberam cargas de veneno.

O contato com a minúscula água-viva Irukandji (cujo corpo em forma de sino pode ter o tamanho de um dedal, mas com tentáculos que podem atingir um metro de comprimento) pode gerar uma síndrome que parece uma tortura medieval.

A picada, em si, não tem importância. A maioria das pessoas nem chega a notá-la, segundo a pesquisadora de águas-vivas Lisa-ann Gershwin. Ela classificou e nomeou 14 das 16 espécies de Irukandji durante seu PhD sobre as enigmáticas águas-vivas na Universidade James Cook em Queensland, na Austrália.

Na verdade, o início retardado dos sintomas fez com que os médicos enfrentassem dificuldades para identificar o que causava tamanha agonia entre os banhistas no verão há décadas.

O mistério só foi resolvido quando um médico local chamado Jack Barnes (1922-1985) passou quatro anos caçando o culpado. Ele finalmente encerrou o caso em 1961, ao se deixar picar de propósito, ao seu filho de 10 anos e a um salva-vidas.

Grade com pessoas atrás e um sinal amarelo alertando sobre a presença de animais marinhos que picam
Getty Images
A picada da minúscula água-viva Irukandji pode deixar as infelizes vítimas com dores agonizantes

Gershwin conta que entrevistou mais de 50 pessoas diagnosticadas com síndrome de Irukandji e leu pelo menos uma centena de relatos de casos históricos.

Poucas picadas resultam na excruciante síndrome e a experiência pode apresentar variações surpreendentes, segundo ela.

Em um caso típico, após cerca de 20 minutos, o primeiro sintoma é uma sensação de esgotamento ou mal-estar, seguida rapidamente por algo parecido com um martelo pneumático sobre os rins, que dura até 12 horas.

Em seguida, as vítimas enfrentam uma série de sintomas, que incluem suor em profusão, que encharca os lençóis várias vezes por hora, e vômitos incessantes a cada poucos minutos, por até 24 horas.

E tudo isso é "apenas o aquecimento" para a síndrome de Irukandji completa, segundo Gershwin.

A pessoa começará, então, a sofrer "ondas e ondas e ondas de verdadeira agonia", cãibras e espasmos por todo o corpo que "redefinem a dor", que continua aumentando, explica ela.

Mas a água-viva Irukandji também abre outra dimensão da dor: a existencial. Seu cartão de visitas é uma insuportável sensação de tragédia, descrita como a total certeza de que a morte está chegando.

Isso sem falar na gravidade dos outros sintomas, segundo Gershwin.

"Os pacientes realmente imploram aos seus médicos que os matem, pois eles têm tanta certeza de que estão morrendo que só querem acabar logo com aquilo", ela conta.

As causas

Gershwin explica que não sabemos totalmente qual é a composição do veneno, nem como ele causa a síndrome de Irukandji. Mas temos algumas indicações.

O veneno da água-viva contém toxinas chamadas porinas, que abrem buracos na membrana celular. Com isso, elas causam a morte das células e o caos bioquímico, pois muitas moléculas utilizadas para ativar diferentes funções do corpo são descartadas de uma vez, sem nenhuma cerimônia.

Os pesquisadores que estudam a síndrome de Irukandji suspeitam que o veneno das águas-vivas possa também afetar os canais de sódio nos neurônios, fazendo com que a adrenalina, norepinefrina e dopamina invadam o sistema. Este processo provavelmente contribui para os sintomas cardíacos e psicológicos.

Contrariando a sensação de morte iminente, a maioria das pessoas se recupera totalmente. O tratamento consiste principalmente de fortes analgésicos, como morfina, para ajudar a suportar as ondas de dor.

Peixe-pedra segurado por mãos humanas
Getty Images
O peixe-pedra costuma ficar camuflado nas rochas e fissuras, fazendo com que os banhistas acabem pisando nele sem perceber

Existem diversos concorrentes mais fortes entre as criaturas marinhas picadoras, começando com a vespa-do-mar australiana, considerada a água-viva mais letal do mundo. Seus tentáculos atingem três metros de comprimento e deixam longas listras nas suas vítimas.

"Você fica com essas marcas de chicote por toda a pele, parecendo que você foi atacado por um gato de nove caudas", explica Gershwin. "A sensação é de óleo fervente."

O verme-de-fogo, um animal marinho espinhoso parecido com uma centopeia, defende-se utilizando pelos urticantes — minúsculos espinhos que se destacam e ficam para trás, na pele de qualquer pessoa suficientemente tola para tocar nele.

Alguns mergulhadores o chamam de "verme de fibra de vidro". Os cientistas acreditam que a estrutura e o veneno dos espinhos contribuem para o ardor excruciante, que pode durar horas.

Já o peixe-pedra se camufla como uma rocha nas superfícies arenosas, recifes de coral e piscinas rochosas. Banhistas despercebidos, às vezes, pisam nas espinhas pontudas dos peixes, que liberam uma carga tremenda de veneno de cor azul glacial.

A dor ardente pode durar até 48 horas, acompanhada por intenso suor. E a dormência e o formigamento podem durar semanas, segundo a Universidade da Flórida, nos Estados Unidos.

Qual é o 'pior'?

Para poder coroar um rei definitivo das picadas em terra, mar e ar, alguma alma caridosa precisaria se voluntariar a cruzar as categorias, experimentando os piores insetos e criaturas marinhas. Mas Peterson afirma que não será ele.

As águas-vivas são simplesmente perigosas demais e trazem risco real de morte, segundo ele, e algumas espécies são "terríveis e não vale a pena enfrentá-las".

Gershwin e Peterson concordam que seria imprudente buscar de propósito uma picada de uma água-viva Irukandji, pois algumas espécies podem potencialmente causar reações letais, incluindo hemorragia cerebral e parada cardíaca.

Como saberemos, então, qual é o pior?

Talvez a única forma de descobrir seja convidar um sobrevivente da síndrome de Irukandji para uma viagem de volta ao mundo, experimentando picadas de insetos do nível 4 da escala de Schmidt.

Parece que temos um novo reality show da TV em vista.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Health.

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