SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os países que registraram maior aumento no uso de celular por adolescentes também observaram a queda mais acentuada no desempenho escolar e o crescimento do percentual de jovens que dizem sentir solidão. A conclusão é de um estudo da Universidade de San Diego, na Califórnia, Estados Unidos.

A pesquisa, conduzida pela psicóloga Jean Marie Twenge, analisou os dados de mais de 1,78 milhão de adolescentes de 15 e 16 anos coletados ao longo de mais de duas décadas pelo Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, na tradução da sigla em inglês), um dos principais exames educacionais do mundo. Foram considerados 36 países membros da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) -o Brasil não está incluído.

Além de dados que indicam a proficiência dos estudantes em testes de matemática, linguagens e ciências, o Pisa também traz informações sobre o comportamento dos estudantes, obtidas por meio de um questionário. 

Assim, o estudo examinou como três fatores se modificaram entre 2000 e 2022: o desempenho dos alunos em matemática, leitura e ciências, o percentual de estudantes que dizem se sentir sozinhos na escola e o uso de celulares pelos adolescentes.

A pesquisadora então separou os países em duas categorias: aqueles onde o uso de smartphones cresceu de forma mais intensa (uma variação acima de 25% em uma década) e os que tiveram ampliação menos acentuada do uso (abaixo de 25%).

Os resultados identificaram um padrão: o sentimento de solidão aumentou e o desempenho acadêmico diminuiu de forma mais severa nos países com maior disseminação de celulares entre 2012 e 2022.

A própria pesquisadora destaca que o estudo aponta uma correlação, e não uma relação direta de causalidade -ou seja, não se pode afirmar categoricamente que o celular é a causa exclusiva desses efeitos, embora os dados indiquem uma forte ligação. 

"A solidão escolar aumentou mais acentuadamente e o desempenho acadêmico caiu de forma mais acentuada quando os adolescentes passaram mais tempo usando dispositivos eletrônicos para fins não acadêmicos. Isso sugere que as escolas (e talvez países e municípios) deveriam considerar não permitir que os estudantes acessem seus dispositivos eletrônicos pessoais durante a jornada escolar", diz o estudo.

Em todo o mundo, houve uma explosão no número de jovens que se sentem sós no ambiente escolar: um crescimento de 68% entre 2000 e 2022. Nos países onde o uso de celular disparou, essa proporção mais do que dobrou, saltando de 8,7% para 19,5%. Nos países com menor aumento no uso, o índice variou de 9,7% para 10,3% no mesmo período.

O estudo também destaca que os países com maior avanço no uso de celulares tinham geralmente um acesso relativamente baixo por parte dos adolescentes a esses aparelhos em 2012 -por exemplo, naquele ano, 47% dos jovens do México e 58% na República Tcheca diziam usá-los com frequência. Em contraste, países que tiveram pouca alteração no padrão de uso já tinham acesso bastante alto aos celulares em 2012 (por exemplo, 89% na Noruega e 87% na Coreia do Sul).

"Assim, o impacto dos smartphones pode já ter sido 'incorporado' até 2012 em países com alto acesso, enquanto aqueles com menor acesso em 2012 viram mais mudanças nos anos seguintes à aceleração do acesso a smartphones", diz o estudo. 

Impacto nas notas

A pesquisa também identificou que o declínio no desempenho escolar começou na década de 2010, mas se acelerou entre 2020 e 2022 durante a pandemia de Covid-19. Mas também há diferenças significativas de rendimento quando se observa o comportamento dos países em relação ao aumento do uso de celular.

O grupo de países com aumento na frequência do uso de celular apresentou quedas maiores de desempenho no Pisa entre 2012 e 2022. Em matemática, a nota média teve recuo de 25,09 pontos. Em ciências, a queda foi de 25,43 e, em leitura, de 32,33 pontos.

Também houve queda de desempenho no grupo de países com menor variação no uso de celular, mas isso ocorreu em menor grau. Em matemática, a nota média recuou 1,11 e, em leitura, foi de 11,6 pontos. Já em ciências, a queda foi de 0,66 ponto.

"Os dados apontam que, na média, houve queda nos dois grupos. No entanto, aqueles que tiveram maior expansão do uso de celulares foram mais prejudicados, sobretudo, no desempenho em matemática e ciência, que são disciplinas que requerem um grau maior de abstração. Elas exigem habilidades de concentração e raciocínio lógico que são diretamente afetadas pelo uso excessivo de tecnologia", diz Julio César dos Santos, professor do programa de pós-graduação em neurociência da UFF (Universidade Federal Fluminense).

Para ele, que não participou da pesquisa, apesar de não indicar causalidade entre o uso de celulares e a queda de desempenho e a piora no sentimento de pertencimento escolar, o estudo é importante por reunir informações de um grande número de adolescentes e acompanhar a mudança de comportamento por mais de duas décadas.

"Temos muitos estudos que mostram o efeito negativo das telas no aprendizado e na saúde mental dos estudantes, mas há ainda uma dificuldade de comprovar a causalidade. O que podemos concluir hoje, com as evidências que temos disponíveis, é que o problema não são as telas. E, sim, a forma e a quantidade de horas que os jovens passam a utilizando."

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Diante dos dados encontrados, a pesquisadora conclui que algumas iniciativas podem mitigar os danos causados pelo excesso do uso de celulares. Ela defende, por exemplo, a proibição do uso de celulares nas escolas, o que é adotado por lei desde 2025 no Brasil, e que os pais adiem entregar o primeiro aparelho aos filhos até o início da adolescência. Também recomenda que as famílias definam um limite de tempo para o uso do celular.

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