Defendidas como avanço por especialistas quando bem prescritas e usadas corretamente, as chamadas canetas emagrecedoras se tornaram também uma preocupação que encontra respaldo na realidade: com a explosão da procura, começou a proliferar a comercialização por vendedores não verificados, via redes sociais e até em salões de beleza. O risco vem do fato de que medicamentos manipulados ilegalmente ou contrabandeados podem não conter a substância prometida, além de expor o usuário a toxinas desconhecidas, alertam a autoridades sanitárias.
Como explica o médico intensivista e cardiologista Pedro Caetano, o principal ponto é que a população costuma associar esses medicamentos apenas à perda de peso, mas eles têm efeitos metabólicos e gastrointestinais relevantes, além de possíveis repercussões cardiovasculares em pacientes vulneráveis.
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Existem alguns sinais de alerta que indicam a necessidade de avaliação médica, destaca. “Náuseas e desconforto abdominal leves são comuns no início do tratamento, mas dor abdominal intensa e persistente, especialmente associada a vômitos, pode sugerir complicações como pancreatite e deve motivar procura imediata por atendimento. Sintomas como desidratação importante, fraqueza acentuada, tontura ou palpitações também merecem atenção, principalmente em pessoas com doenças cardiovasculares prévias ou em uso de outras medicações”, explica.
O uso das canetas, quando prescrito, deve seguir estritamente as indicações da bula e a orientação médica. “Outra questão importante é a perda de peso muito rápida acompanhada de mal-estar, queda de pressão, intolerância ao exercício ou sensação de desmaio. Isso pode refletir perda de massa muscular, desequilíbrio metabólico ou redução excessiva da ingestão calórica sem supervisão adequada”, completa o cardiologista.
E, além dos riscos físicos, há o fator psicológico. O ideal corporal imposto pelo fenômeno das canetas está reativando traumas em pessoas que estavam recuperadas havia décadas, advertem especialistas, que falam ainda sobre o alto índice de ganho de peso imediato após a interrupção do uso dos produtos sem uma transição planejada.
O peso decisivo do fator saúde
Porém, prescritos e usados corretamente, os medicamentos têm papel importante. “A ciência está mostrando que o acúmulo excessivo de gordura corporal está ligado a uma série de doenças, entre elas o diabetes mellitus, dislipidemias (distúrbios de gordura no sangue), hipertensão arterial, problemas respiratórios, cardiovasculares, osteoarticulares, doenças inflamatórias, digestivas e degenerativas”, enumera a nutróloga Marcella Garcez.
De acordo com o oncologista Ramon Andrade de Mello, as indicações mais prudentes para o uso de canetas emagrecedoras incluem pacientes com índice de massa corporal (IMC) acima de 30 em obesidade definida, pacientes que têm o IMC acima de 27 com doenças associadas, como hipertensão, diabetes ou dislipidemia, e aqueles com falhas de terapias convencionais, como dieta, exercício físico e o próprio acompanhamento psicológico.
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“Alguns pacientes de oncologia também têm indicação, como aqueles que tiveram câncer de mama e precisam perder peso como parte da reabilitação e da redução do risco de recidiva da doença.” A prescrição deve ser criteriosa e sempre baseada em avaliação clínica, destaca. “A automedicação pode colocar o paciente em risco e comprometer os desfechos positivos que esses fármacos oferecem quando bem indicados”, acrescenta a endocrinologista Deborah Beranger.
Cautela com os eventos adversos
Para a jornalista Aline do Espírito Santo, de 49 anos, a relação com as canetas emagrecedoras nunca foi uma questão de vaidade. Em 2018, após enfrentar um câncer de tireoide, ela viu seu metabolismo mudar. O ganho de peso veio acompanhado do alerta sobre o aumento do índice glicêmico e o fantasma do diabetes, doença que já marca o histórico da família.
Com acompanhamento médico, Aline percorreu a trilha dos medicamentos modernos. Começou com a liraglutida há três anos e migrou para a semaglutida há um ano e meio. O foco era terapêutico – manter a glicemia sob controle com doses mínimas. No entanto, ela acabou às voltas com um problema não muito comum e pouco discutido, associado a análogos de GLP-1.
A rotina de quem vive das letras e da leitura mudou quando a visão ficou embaçada. Após um quadro de COVID-19 e uma conjuntivite persistente, o olho direito de Aline começou a falhar. Inicialmente, ela atribuiu a perda à predisposição genética ou às sequelas do tratamento oncológico ou do coronavírus.
“Pesquisei e, quando busquei respostas, descobri a perda de visão irreversível no olho direito, o que poderia ter a ver com a caneta”, relata a jornalista. Ao retornar ao endocrinologista e cruzar dados com exames oftalmológicos que investigam a Síndrome de Irlen, veio a associação com o uso do medicamento, que pode ter sido o gatilho ou o agravante.
Embora a bula mencione riscos de retinopatia em pacientes diabéticos, a rapidez com que os efeitos se manifestaram surpreendeu Aline. Mesmo sob supervisão médica, ela sente que falta clareza sobre a gravidade dos riscos.
“Fiquei muito chateada. Não sabia que poderia ter um efeito colateral assim. Descobri depois que já não tinha mais jeito. O próprio médico diz que são casos raros, mas eu fui 'sorteada'. O pior é saber que usei a caneta com acompanhamento, nunca fiz uso indiscriminado, e mesmo assim paguei o preço por algo que não sabia.”
Atualmente, com uma caixa de Mounjaro guardada em casa, Aline hesita. O trauma com a visão deixou uma lição que ela compartilha com outros pacientes. “As pessoas que vão usar precisam ser acompanhadas de perto, saber se têm predisposição para problemas específicos e considerar que os efeitos colaterais realmente existem.”
O que diz a farmacêutica
Consultado sobre o possível efeito colateral da semaglutida, o laboratório Novo Nordisk informou levar a sério todas as notificações de eventos adversos relacionados ao uso de seus medicamentos, e acrescentou que a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica é uma condição rara que afeta o nervo óptico, levando à perda súbita e geralmente indolor da visão.
Segundo a farmacêutica, diabetes e obesidade estão entre os fatores de risco conhecidos para a condição, assim como comorbidades associadas, como hipertensão e altos índices de colesterol e triglicérides. Por recomendação da Agência Europeia de Medicamentos, a possível reação adversa foi acrescentada à bula como “evento muito raro”, podendo afetar até 1 a cada 10 mil usuários da substância, informou.
Mas, considerando estudos em programas clínicos com mais de 49 milhões de pacientes, associados ao que classifica como baixa incidência geral do distúrbio, a empresa acredita que o “perfil benefício-risco da semaglutida permanece favorável” para “controle glicêmico e da perda de peso, para pessoas com doenças cardiometabólicas”.
Palavra de especialista
Eliana Teixeira, médica com pós-graduação em endocrinologia
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o Preço alto e o perigo da falsificação
“Vivemos um contexto de grande oferta de canetas emagrecedoras falsificadas devido a alguns fatores. Alta demanda associada a escassez, já que a procura por medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro cresceu muito mais rápido que a oferta (o mercado desregulado aproveita essa lacuna), a pressão estética e o imediatismo, devido à cultura de estímulo a resultado rápido, gerando um mercado paralelo em redes sociais, grupos de mensagens e outros intermediários vendendo sem prescrição. Há ainda o custo elevado: o preço alto estimula o mercado paralelo e, onde existe mercado paralelo, existe falsificação. Os riscos dessa falsificação vão da falta de princípio ativo (em que o paciente não emagrece e pode aumentar a dose por conta própria), ao excesso da dose, que gera efeitos adversos graves. Pode gerar ainda contaminação bacteriana, levando a uma infecção sistêmica, ou até conter substância desconhecida, com risco imprevisível. A tirzepatida, por exemplo, é um fármaco biológico, sensível à temperatura, ao armazenamento e à cadeia de distribuição. As consequências vão de falha terapêutica, com falsa sensação de segurança, a hipoglicemia grave, reações alérgicas severas ou infecções.”
