O que começou como um tratamento revolucionário para o diabetes tipo 2 e a obesidade mórbida se transformou em um fenômeno global de consumo: as chamadas “canetas emagrecedoras” – que usam substâncias como semaglutida (Ozempic e Wegovy), liraglutida (Saxenda) e tirzepatida (Mounjaro) – se popularizaram ao prometer resultados rápidos na balança, mas disparam um alerta vermelho entre autoridades sanitárias devido ao uso indiscriminado e à falta de supervisão médica. Às vésperas da queda de patente dos medicamentos à base de semaglutida, que ocorre no próximo dia 20 de março, a indústria farmacêutica já anuncia a derrubada nos preços de pelo menos uma das marcas, o que deve facilitar o acesso a produtos vendidos na casa dos quatro dígitos e impulsionar ainda mais a procura, mas pode também potencializar os riscos de abuso.
Esses medicamentos pertencem à classe dos chamados agonistas do receptor de GLP-1. Eles agem mimetizando um hormônio natural produzido pelo sistema digestivo, que sinaliza ao cérebro a sensação de saciedade e retarda o esvaziamento gástrico. Na prática, o paciente sente menos fome e fica satisfeito com porções menores de comida.
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No Brasil e em mercados como o do Reino Unido, a fórmula virou sucesso estrondoso. Dados da University College London indicam que 1,6 milhão de adultos britânicos usaram essas injeções no último ano. Por aqui, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) endureceu as regras em 2025, exigindo receita em duas vias para a compra, equiparando o controle dos produtos ao de antibióticos.
Pesando o risco-benefício
Segundo especialistas, quando usadas corretamente as canetas apresentam uma relação risco-benefício positiva. A endocrinologista Mariana Arraes, pós-graduada em endocrinologia com foco em emagrecimento, ressalta que ensaios clínicos com milhares de pacientes demonstram eficácia no tratamento de doenças metabólicas graves, como a gordura no fígado e a obesidade.
“O que chamou a atenção foram relatos de casos de pacientes com pancreatite em uso dessa medicação. Existem relatos de casos, sim, mas, quando analisamos os estudos maiores, ensaios clínicos randomizados e grandes bancos de dados, o risco não aparece de forma tão consistente e tão direta em relação a essa medicação. O que é preciso analisar é a história prévia do paciente, medicamentos em uso... Tudo isso é importante.”
O apoio estruturado é a chave: o medicamento deve vir acompanhado de suporte comportamental, nutrição adequada e atividade física. O uso sem acompanhamento clínico revela um outro lado: de acordo com levantamento da Anvisa, entre 2018 e 2025 foram registradas 65 mortes com suspeita de relação com essas substâncias e mais de 2,4 mil notificações de eventos adversos no Brasil.
Entre os principais riscos atribuídos à utilização indiscriminada estão a pancreatite aguda (inflamação grave do pâncreas que pode ser fatal, sentida com dor abdominal intensa que irradia para as costas); transtornos alimentares (casos de recaídas em pacientes com histórico de anorexia ou bulimia, agravados pela restrição severa de comida); e problemas cardíacos (hospitalizações por complicações cardíacas ligadas à desnutrição e desidratação). Na lista também estão efeitos incomuns, como risco de aspiração durante anestesias e casos raros de perda de visão associados à semaglutida.
Entre cuidados e contexto
O alerta divulgado pela Anvisa sobre o risco de pancreatite associado ao uso indiscriminado dos medicamentos análogos de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, está alinhado ao comunicado da Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde (MHRA) do Reino Unido, feito no início de fevereiro.
Especialistas, no entanto, defendem que o assunto precisa ser analisado com cuidado e contexto, evitando interpretações simplistas ou alarmistas. “A interpretação isolada de manchetes pode induzir à desinformação. É essencial contextualizar. A pancreatite não é causada pela medicação. Do ponto de vista científico, não há evidência de que os análogos de GLP-1 causem danos diretos ao pâncreas. O que a gente realmente sabe é que o paciente que sofre um emagrecimento muito rápido tem maior chance de ter cálculo biliar, o que aumenta a chance de pancreatite”, explica a endocrinologista Deborah Beranger, com pós-graduação em endocrinologia e metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ).
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Custos mais leves
A 17 dias da queda da patente do Ozempic, a Novo Nordisk anunciou uma nova política de preços para dois de seus medicamentos à base de semaglutida, o Wegovy (injetável) e o Rybelsus (oral). A farmacêutica anuncia o Wegovy com dose inicial gratuita, com exigência de cadastro e receita médica para o tratamento. A versão oral passa a custar metade do preço praticado anteriormente. Grandes redes de drogarias já começaram a aplicar os novos valores em lojas on-line. Essa classe de medicamentos começou a ser vendida no Brasil em 2019, com o Ozempic. Desde então, os preços sempre estiverem na casa dos R$ 1.000.
