Um macaco-prego fêmea, batizada de Chica, que vive na Mata do Ipê, em Uberaba, no Triângulo Mineiro, foi diagnosticada nesta quinta-feira (26/2) com diabetes mellitus no Hospital Veterinário da Uniube (HVU). O animal, que tem entre 20 e 30 anos, foi recolhido da mata por servidores municipais em estado apático, há cerca de um mês.

A macaca estava recebendo alimentos inadequados, principalmente carboidratos simples, como pão de queijo, bolachas, entre outros, oferecidos por pessoas que visitavam a Mata do Ipê. Isso resultou em uma condição metabólica grave que comprometeu permanentemente sua saúde, considerou o médico-veterinário responsável pelo caso, Cláudio Yudi Kanayama.

Para ele, a condição de Chica está associada à alimentação inadequada oferecida por frequentadores da área verde.

Vários exames

O diagnóstico da diabetes no animal aconteceu após 25 dias de internação no HVU. O médico-veterinário conta que o primeiro diagnóstico foi de broncopneumopatia (pneumonia), confirmado por radiografia torácica, com início imediato de antibioticoterapia, analgesia e suporte metabólico.

Ainda na admissão, exames laboratoriais indicaram hiperglicemia. No entanto, a equipe clínica optou por não fechar o diagnóstico de diabetes naquele momento. O estresse agudo de captura eleva o cortisol e as catecolaminas, podendo causar hiperglicemia transitória. Além disso, agentes sedativos utilizados em procedimentos anestésicos também interferem temporariamente na glicemia. Diagnosticar diabetes exige confirmação, explicou Yudi.

Então, após 19 dias de estabilização clínica, com melhora respiratória, adaptação ao ambiente hospitalar e normalização do estado geral, foi realizada uma nova bateria de exames. E então a dosagem de hemoglobina glicada (HbA1c), marcador de hiperglicemia crônica, confirmou o diagnóstico definitivo de diabetes mellitus.

Não poderá retornar à vida livre

Durante a internação, a equipe de Yudi implementou protocolo de manejo específico, incluindo dieta com redução de carboidratos simples e aumento de vegetais frescos. Ainda assim, o prognóstico é permanente e, segundo Yudi, a macaca não poderá retornar à vida livre.

Chica aguarda encaminhamento ao Instituto Estadual de Florestas (IEF), que definirá sua destinação para uma instituição habilitada ao manejo permanente.

Ainda conforme o médico-veterinário, o caso de Chica demonstra que, uma vez instalada a diabetes mellitus em primatas, isso exige cuidado permanente, especializado e custoso. O animal necessitará de monitorização contínua, medicamentos diários, dieta rigorosamente controlada e acesso a laboratório para exames periódicos, algo que a natureza não pode oferecer, destaca o veterinário.

"O diagnóstico de Chica é considerado raro em primatas não-humanos de vida livre no Brasil. Eu tenho conhecido apenas de um caso no zoológico de Bauru. Existem casos em zoológicos, mas em vida livre, como é o caso da Chica, é raro", declarou Yudi.

O secretário do Meio Ambiente de Uberaba, Edno Cesar da Silveira, informou que, por intermédio da Superintendência de Bem-Estar Animal, acompanha o caso da macaca Chica desde o seu encaminhamento ao HVU.

“Expressamos nosso profundo agradecimento à instituição pela excelência técnica e pela dedicação no tratamento da Chica. Agora, nosso compromisso é apoiar integralmente o HVU e o Instituto Estadual de Florestas (IEF) na busca por uma instituição habilitada que possa oferecer o manejo permanente e a qualidade de vida que ela necessita”, complementou.

Não alimente animais silvestres em parques

O médico-veterinário responsável pelo caso da Chica alerta que alimentar animais silvestres pode provocar distúrbios metabólicos, como diabetes e obesidade; dependência alimentar, perda da capacidade de forrageamento (busca por alimentos); alterações comportamentais, aumento de agressividade; maior risco de transmissão de zoonoses e desequilíbrio ecológico.

Recomenda-se que a população não alimente animais silvestres em parques ou áreas de preservação. Eduque crianças sobre a importância de respeitar a fauna em seu habitat natural, apoie políticas públicas de conservação e procure instituições especializadas ou a Polícia Ambiental ao encontrar um animal em situação de risco.

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“Queremos que essa histora sirva como alerta nacional. Alimentar um animal silvestre pode parecer um gesto de carinho, mas pode condená-lo a uma doença crônica irreversível”, concluiu o veterinário.

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