No Zoológico e Jardim Botânico da Cidade de Ichikawa, nos arredores de Tóquio, o pequeno Punch nasceu em 26 de julho de 2025, em meio a uma onda de calor sufocante. Horas depois do parto, a mãe — possivelmente exausta, inexperiente ou estressada pelo clima extremo — simplesmente o rejeitou. Não houve o instinto primordial de carregá-lo junto ao peito, de amamentá-lo, de permitir que ele se agarrasse ao pelo para fortalecer músculos e formar o primeiro laço de apego. Punch foi deixado sozinho, vulnerável, choramingando em um canto do recinto.  

Essa rejeição materna não foi apenas ausência de cuidado: foi uma ruptura biológica profunda. Em macacos-japoneses, que vivem em tropas altamente sociais e hierárquicas, o contato materno nos primeiros dias é essencial para regular o estresse, aprender comportamentos sociais e desenvolver confiança. Sem ele, o filhote entra em estado de alerta constante — cortisol elevado, ansiedade, dificuldade para se integrar depois. Os tratadores intervieram imediatamente para salvá-lo, criando-o manualmente por seis meses. Mas o pior viria ao ser reintegrado ao grupo, em janeiro de 2026.  

Ali, a rejeição se multiplicou. Os outros macacos — adultos e jovens — não o acolheram. Vídeos mostram cenas dolorosas: empurrões constantes, afastamentos bruscos, uma fêmea adulta (mãe protetora de outro filhote) o arrastando para longe quando ele se aproximava timidamente. Punch tentava, mas era ignorado, isolado, às vezes até levemente agredido. Ele brincava sozinho, olhava para o bando de longe, com aqueles olhos grandes e expressivos carregados de uma tristeza que transcende espécies. Usava a pelúcia laranja como “escudo” emocional: agarrava-se a ela antes de qualquer tentativa de aproximação, como se dissesse “não estou sozinho”.  



Essa dor da rejeição coletiva não é só “comportamento animal”. Cientistas lembram dos experimentos clássicos de Harry Harlow, nos anos 1950, com macacos-rhesus: filhotes preferiam “mães” de pano macio (mesmo sem leite) a “mães” de arame com comida. O toque, o conforto, o apego — isso é sobrevivência emocional. Punch viveu exatamente isso na vida real: sem mãe de carne e osso, encontrou na pelúcia Djungelskog da IKEA o substituto que acalmava sua ansiedade, permitia que exercesse o instinto de agarrar e, principalmente, dava a sensação de não ser completamente abandonado.  

Rejeição emocionada 

O vídeo, que explodiu na semana passada, capturou esse momento cru: o filhotinho cinza, de sete meses, arrastando a pelúcia laranja pelo recinto, dormindo com ela, voltando correndo para ela após cada rejeição. Milhões assistiram. A hashtag #GanbarePunch (“Força, Punch”) dominou o Japão e o mundo. Por quê? Porque a rejeição é universal.  

Pessoas de todas as idades viram nelas próprias: a criança excluída no recreio, o adolescente rejeitado no primeiro amor, o adulto que sentiu abandono emocional no trabalho ou na família. Comentários inundaram as redes: “Isso dói como quando minha mãe me ignorava”, “Lembrei do bullying que sofri”, “A rejeição ativa a mesma dor física no cérebro — é ciência”. A empatia explodiu porque Punch não escondeu a ferida: ele a carregou (literalmente) nos braços. Mostrou, sem palavras, que ser rejeitado dói fundo, que o isolamento social é uma das piores torturas para primatas — humanos ou não.  

Defecho

Mas a história não ficou na ferida. O desfecho, atualizado pelo próprio zoológico, é de resiliência comovente. Aos poucos, Punch começou a ser aceito. Um macaco adulto o abraçou. Outros permitiram grooming (cuidado mútuo do pelo, gesto máximo de confiança). Ele ainda leva a pelúcia em momentos de estresse, mas já interage mais, aprende os códigos sociais, demonstra “força mental e extrovertida”, como descrevem os tratadores. O zoológico ganhou filas de visitantes que vão torcer por ele pessoalmente. A IKEA até doou mais pelúcias.  

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Punch nos ensina que a rejeição pode marcar para sempre — mas não definir. Que a dor do abandono é real, biológica, universal. E que um simples gesto de empatia (humano ou de pelúcia) pode ser o começo da cura. Um macaquinho rejeitado uniu o mundo em torcida. E, dia a dia, ele prova: mesmo começando sem abraço, a vida pode oferecer novos laços. Uma lição peluda, sensível e inesquecível sobre o que significa pertencer.

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