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Estado de Minas ELEIÇÃO EM BH

Cinco motivos que explicam a reeleição de Kalil em BH

Boa avaliação de sua gestão, sinceridade, protagonismo na pandemia, enfraquecimento de partidos tradicionais e diálogo com diferentes ideologias garantiram vitória do prefeito de BH


15/11/2020 23:00 - atualizado 16/11/2020 07:15

Kalil ganhou projeção nacional ao se portar como liderança guiada pela ciência ante a pandemia.(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
Kalil ganhou projeção nacional ao se portar como liderança guiada pela ciência ante a pandemia. (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
Reeleito, o prefeito Alexandre Kalil (PSD), de 61 anos, não teve a vitória ameaçada em momento algum da disputa e derrotou os 14 adversários com tranquilidade, mesmo com grandes problemas que desafiaram sua gestão e o novo mandato, como a maior chuva da história de Belo Horizonte, em janeiro, e a pandemia do novo coronavírus.

A sinceridade, a boa avaliação ante a população, o protagonismo no enfrentamento da COVID-19, o enfraquecimento dos partidos tradicionais e o diálogo com ideologias diferentes explicam o triunfo. Com o nome consolidado entre a população, Kalil nem sequer precisou sair às ruas para pedir votos, com justificativa de que é de grupo de risco, por ter mais de 60 anos. 

1. PRAGMATISMO E BOA AVALIAÇÃO


Ao longo dos últimos anos, Kalil enfrentou diversas crises e, mesmo assim, manteve boa avaliação pela população. Primeiro, com a greve dos caminhoneiros. Para evitar o caos, decretou pontos facultativos. Depois, as chuvas. Em 2018, o estrago foi menor, mas, este ano, temporais varreram casas e pessoas, foi o janeiro mais chuvoso da história. 

Descontente com a postura dos governos estadual e federal, tomou as rédeas do assunto. Visitou locais destruídos, conversou com vítimas e conseguiu, rapidamente, dar início à reconstrução. Com a pandemia, enredo semelhante: sem diretrizes nacionais, resolveu “entregar” o município a um comitê de infectologistas, que ainda decidem os rumos da flexibilização das atividades econômicas. 

Para o professor Cristiano dos Santos Rodrigues, a aprovação da sua gestão afasta Kalil de outros políticos eleitos com discursos semelhantes. “Diferentemente de outros candidatos que se elegeram na onda da não política, ele fez boa administração”, explica, citando Marcelo Crivella (Republicanos), que enfrenta dificuldades de reeleição do Rio de Janeiro.

2. SINCERIDADE E CONVICÇÃO

Kalil não é de meias palavras. Mais de uma vez, classificou a saúde pública municipal como a “melhor porcaria do Brasil”. Mesmo reconhecendo as virtudes da rede de atendimento, falou abertamente sobre a necessidade de melhorar o serviço — quando a praxe dos políticos é destacar apenas pontos positivos. Após as chuvas que assolaram a cidade no início do ano, disse estar envergonhado.

Em 2018, depois do temporal que matou duas pessoas na Avenida Vilarinho, em Venda Nova, não tergiversou e afirmou ser o culpado pelos óbitos. O prefeito se mostrou avesso ao ensino remoto. Ele prefere esperar condições sanitárias que permitam reabrir as escolas municipais. Questionado pelo Estado de Minas, em julho, sobre a possibilidade de implantar um modelo virtual de ensino, classificou as teleaulas como “piadas de péssimo gosto”. 

Ele é assim desde o tempo em que era presidente do Atlético. Ao assumir o Executivo municipal, ironizou a polarização entre PT e PSDB, que dava o tom da política nacional. “Acabou coxinha, acabou mortadela. O prato agora é quibe”, cravou.

“Ele tem um discurso muito direto. Isso, de certa forma, cativa o eleitorado, já cansado de um padrão de política que está se tornando cada vez mais midiática, elaborada e com grandes produções. A simplificação, tanto do discurso quanto do cenário (onde o prefeito gravou suas propagandas de TV), passam uma sensação de proximidade com o eleitor”, avalia o professor Cristiano dos Santos Rodrigues, do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

3. PROTAGONISMO NA PANDEMIA

A COVID-19 deu a Kalil protagonismo “precoce”. Ele emergiu como liderança guiada por critérios científicos. Em meio aos arroubos negacionistas do presidente Jair Bolsonaro, defensor de um isolamento restrito a pessoas do grupo de risco da doença, Kalil sustentou quarentena rígida na cidade por muito tempo, inclusive com o fechamento de estabelecimentos comerciais. 

“Durante a pandemia, a popularidade dele aumentou. Kalil enfrentou, de maneira firme, algumas imperícias, de comércios e empresários, que queriam a cidade aberta. Isso aumentou a popularidade do prefeito junto ao eleitorado”, afirma o professor Cristiano dos Santos Rodrigues. “Prefeitos que tiveram boa ação ante a pandemia foram melhor avaliados que prefeitos que abriram cidades e escolas, o que acarretou alto índice de infecções e mortes”, completa.

4. ENFRAQUECIMENTO DOS PARTIDOS TRADICIONAIS

A perda de representatividade de partidos que estiveram na linha de frente nas últimas eleições na capital – PT, PSDB e PSB – é outro fator que favoreceu a vitória de Kalil. “Os partidos que sempre foram importantes para a cidade ficaram fora da disputa. Lançaram candidatos pouco competitivos. Uma dispersão enorme de candidatos, com os principais partidos recuando ou não querendo lançar candidatos competitivos, deu a Kalil essa dianteira que nunca vimos. Isso não é usual em Belo Horizonte. Essa combinação de fatores. É muito conjuntural”, diz o cientista político Carlos Ranulfo, da UFMG.

Nenhum dos outros 14 candidatos conseguiu incomodar Kalil durante a corrida eleitoral. As campanhas rivais, de modo geral, não conseguiram respaldo popular suficiente para brigar pela ponta. Com o apoio de oito outros partidos, o deputado estadual e radialista João Vítor Xavier (Cidadania), por exemplo, terceiro colocado na eleição municipal, não conseguiu “emplacar”. Liderança jovem da centro-direita, ficou longe de ser o adversário que almejava. As críticas à atual gestão, por exemplo, surtiram pouco efeito.

Kalil se beneficiou, ainda, da fragmentação da esquerda. Além de ter conseguido o apoio do PDT, viu PT, Psol, PCdoB, PSTU e PCO lançarem candidatos próprios. Petistas e pesolistas, representados por Nilmário Miranda e Áurea Carolina, dividiram a maior parte dos votos dos eleitores desse campo político. Quem também construiu chapa isolada foi o PSDB, que lançou Luisa Barreto, servidora de carreira da Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag). Além do pouco apelo dos nomes apresentados, Cristiano dos Santos Rodrigues crê que o desgaste das duas legendas foi outro fator prejudicial.  “Duas décadas de governos de PT e PSDB, em uma grande coalizão política, e uma certa tentativa do PT de se articular ao PSDB, que não deu certo, fizeram com que os partidos perdessem força na capital”, explica o professor.

5. DIÁLOGO COM IDEOLOGIAS DIFERENTES

É difícil apontar Kalil como de esquerda ou de direita. Ele consegue transitar entre diferentes ideologias, tem feito acenos a comerciantes e empresários com o objetivo de recuperar os estragos econômicos ocasionados pela pandemia. Também conseguiu aprovar a reforma administrativa que enxugou a máquina pública. O secretariado de Kalil contemplou pessoas das mais diversas matrizes ideológicas. Na Fazenda, esteve Fuad Noman, novo vice-prefeito, nome com trajetória em governos do PSDB. Na Cultura, Juca Ferreira, quadro relevante do PT, teve o respaldo do prefeito para avanços como mais apoio ao carnaval de rua.

“A administração de Kalil foi positiva, pois ele conseguiu fazer grandes concessões aos atores políticos da capital. Ele reuniu grupos muito diversificados. Teve um candidato a vice com tradição no PT, que era o Paulo Lamac. Depois, teve, no seu secretariado, pessoas que vieram do PT, do PSDB e de grandes partidos. E, para além dos seus próprios méritos, fez uma administração sem oposição, o que aumenta a visão positiva da população”, considera o professor Cristiano Rodrigues. O diálogo de Kalil com setores progressistas foi visto ainda no apoio dado à Parada LGBTQIA+. Ele participou do evento do ano passado e, sem nenhum pudor, disse que preconceituosos mereciam um “foda-se”.


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