Publicidade

Estado de Minas PLANALTO

Bolsonaro chama governadores de ''ditadores nanicos'' ao falar de COVID

Presidente visitou obra de reforma do aeroporto de Congonhas e voltou a dizer que ele estava certo quando criticou adversários


06/09/2020 04:00

Bolsonaro visitou obra de reforma do aeroporto de Congonhas (SP), onde criticou governadores(foto: CAROLINA ANTUNES/PR)
Bolsonaro visitou obra de reforma do aeroporto de Congonhas (SP), onde criticou governadores (foto: CAROLINA ANTUNES/PR)
Brasília - O presidente Jair Bolsonaro tem conseguido, aos poucos, deixar o governo cada vez mais alinhado com o seu projeto de reeleição. O avanço mais recente nesse sentido é o processo de fritura do ex-superministro da Economia, Paulo Guedes, defensor de uma política de austeridade fiscal e cuja saída do cargo vem sendo dada como certa. O mandatário virou as costas para seu antigo “Posto Ipiranga” e encontrou um grupo de ministros conselheiros, o que precisava para colocar em marcha um projeto de forte apelo popular, baseado no reforço dos programas sociais e dos investimentos públicos.

Guedes é um dos poucos auxiliares no governo que ousa dizer coisas que o presidente não gostaria de ouvir. Ele caiu em desgraça depois de alertar que Bolsonaro poderia ser alvo de impeachment caso se entregasse ao canto da sereia de “ministros fura-teto”. Ao destacar a necessidade do cumprimento do teto de gastos públicos, o titular da Economia se referia a um grupo de ministros que têm convencido o presidente a ir adiante com o Pró-Brasil, um programa que inclui iniciativas de distribuição de renda e de investimentos em obras públicas para tirar o país da crise.

As declarações de Guedes foram interpretadas no meio político como crítica aos ministros que assumiram os papéis de conselheiros do presidente na área econômica também. São eles Braga Netto (Casa Civil); Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo); Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura); e Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) — este último é um dos maiores desafetos do titular da Economia. Os dois primeiros pertencem à chamada ala militar do governo, que defende a adoção de uma política desenvolvimentista e que, por isso, entrou em choque direto com Guedes.

Segundo o grupo de ministros, os programas sociais e os investimentos públicos são a melhor saída para o governo enfrentar os desgastes políticos provocados pela pandemia e também para o presidente turbinar sua popularidade. Exemplo disso é o pagamento do auxílio emergencial a milhões de brasileiros, que contribuiu para o aumento da aprovação de Bolsonaro.

Pouco mais de um ano e meio depois da posse como presidente, Bolsonaro parece ter encontrado, finalmente, uma direção para o seu governo. Daqui até as eleições de 2022, ele vai focar no social, uma área que não vinha merecendo a menor atenção desde a campanha presidencial em 2018. Com essa bandeira, o presidente tem viajado pelo país para inaugurações, principalmente no Nordeste, reduto eleitoral do PT.

O discurso pelo social está afiado e o chefe do governo demonstrou isso na semana passada, quando criticou publicamente a proposta da equipe de Guedes para o Renda Brasil, uma das iniciativas do Pró-Brasil, que deve substituir o Bolsa família dos governos petistas. Além de desaprovar o conteúdo, o presidente aproveitou a oportunidade para mandar aos eleitores a mensagem de que se preocupa com os pobres. Durante uma solenidade em Minas Gerais, o chefe do governo disse que não poderia “tirar de pobres para dar para paupérrimos”, ao criticar a ideia de Guedes sobre extinguir o abono salarial dos trabalhadores como forma de conseguir recursos para o Renda Brasil.

Para Ricardo Caichiolo, cientista político do Ibmec/DF, o melhor adjetivo para Paulo Guedes é “resiliente”, em razão das pressões que o ministro tem enfrentado. “Essa fase do governo, inaugurada por causa dos impactos da pandemia, vai ao encontro dos desejos dos ministros 'fura-teto'; por outro lado, coloca contra a parede a equipe econômica, que tem de identificar meios para ampliar o número de beneficiários com o novo programa (Renda Brasil) e, ainda, aumentar o valor do benefício. Ordens do mandatário, afinal de contas, 2022 está logo ali. Há que se verificar se até lá a resiliência do ministro terá seu prazo de validade vencido”, diz o especialista.

ANÁLISE


Já o professor Paulo Calmon, diretor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), destaca que, por trás da guinada social do governo, está também o interesse nas eleições municipais, que estabelecem as bases para a disputa em 2022. “A sociedade brasileira foi duramente atingida pela pandemia, com impacto importante no nível de atividade econômica, geração de desemprego e aumento da pobreza e desigualdade. Nesse contexto, a insistência na manutenção de uma política de austeridade fiscal muito rígida, como a preconizada por Guedes, é difícil de sustentar politicamente e possui um custo social e econômico muito acentuado e concentrado para os próximos meses. O conflito surge daí”, diz Calmon.

“Além de uma disputa política, o conflito entre essas diferentes visões configuram também a disputa de interesses, poder e influência no governo. Paulo Guedes, mais associado ao capital financeiro e aos investidores estrangeiros, e os desenvolvimentistas, mais associados ao setor produtivo nacional. Era uma tensão que já existira há algum tempo, mas que ganha contornos mais dramáticos com a proximidade das eleições e que deve criar rusgas importantes na equipe ministerial nas próximas semanas”, acrescenta.

“DITADORES NANICOS”

Bolsonaro visitou ontem a obra de reforma da pista central do aeroporto de Congonhas, na Zona Sul de São Paulo. No local, ele disse que governadores que não priorizam a economia são "ditadores nanicos".  “Alguns governadores querendo proibir pousos, fecharam rodovias federais, como o Pará, por exemplo, e tiraram o poder de resolver as questões como eu achava que devia resolver. Fica uma grande experiência, como alguns me acusam de ditador, dos projetos de ditadores nanicos que apareceram Brasil afora, não só em áreas estaduais, como alguns municipais também", afirmou.

O presidente chegou por volta das 9h ao aeroporto. Na entrada do pavilhão de autoridades, desceu para tirar fotos com cerca de 20 apoiadores. Sem usar máscara, ele autografou uma bandeira do Brasil de uma apoiadora. "Aquele pessoal que dizia que a economia recupera depois, tá na hora desses caras botarem a cabeça para fora e dizer como é que se recupera rapidamente a economia; eu sempre falei que era vida e economia. Fui muito criticado, mas não posso pensar de forma imediata, tem que pensar lá na frente. Esperamos que volte à normalidade no país, não digo mais rápido porque não vai ter como ser rápido, mas não vamos demorar também", afirmou.




receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade