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Estado de Minas

''Mais berro do que argumento'', afirma autor de livro sobre Bolsonaro

Jornalista diz que estratégia do candidato do PSL é sair da razão para ir à emoção


postado em 08/08/2018 12:21 / atualizado em 08/08/2018 12:46

Ovacionado no aeroporto da Pampulha, Jair Bolsonaro esteve em Belo Horizonte para uma palestra no CDL, em maio deste ano(foto: Leandro Couri/EM )
Ovacionado no aeroporto da Pampulha, Jair Bolsonaro esteve em Belo Horizonte para uma palestra no CDL, em maio deste ano (foto: Leandro Couri/EM )
“Considerada por alguns ainda uma piada, como ocorreu com Donald Trump nos Estados Unidos em 2016, a candidatura de Bolsonaro deve ser levada a sério”, escreve Clóvis Saint-Clair, jornalista e autor do livro Bolsonaro, o homem que peitou o Exército e desafia a democracia. Pensado como um grande perfil, e não como uma biografia, as 192 páginas da obra descrevem a trajetória de Jair Bolsonaro desde a infância até o “fenômeno da internet” que quer ser presidente do Brasil.

Fruto de uma pesquisa de seis meses, que mesclou declarações à mídia, entrevistas, falas na Câmara dos Deputados e um esforço para “contextualizar as falas, transcrevê-las exatamente como ocorreram e trazê-las para o lado racional da discussão”, o perfil, de acordo com o autor, não traz “nada de inédito”, mas funciona como um grande compilado da história de Bolsonaro. “É um livro, sobretudo, para os indecisos”, explica Clóvis. Em entrevista ao Estado de Minas, o jornalista fala sobre o processo de pesquisa e escrita do livro, do panorama político do Brasil e das eleições de 2018.


A partir de quais fontes e de que forma o sr. procurou contar essa história?

Fiz uma grande pesquisa em internet, pescando episódios marcantes na trajetória dele. Daqueles que já conhecíamos e outros que tínhamos só uma vaga memória. Procurei a fonte de tudo, tentando, sempre, não deixar espaço para subjetividade. A ideia é não permitir dúvidas sobre o que foi dito, ou da maneira como foi dito. Afinal, é uma das críticas que se faz quando estamos falando sobre Bolsonaro, que as falas dele são descontextualizadas. Além de entrevistas anteriores, usei outros perfis, o livro que o filho dele escreveu sobre o pai e diversos vídeos e áudios do deputado, como as sessões na Câmara, por exemplo. Está longe de ser uma biografia, mas nunca tive essa pretensão. O livro é uma organização cronológica da trajetória dele.


Como o senhor percebe a figura de Jair Bolsonaro?

Ele trabalha, no discurso, no nível da emoção – mais berro do que argumento. Isso, no debate político atual, está bastante espraiado, mesmo em quem se contrapõe a Bolsonaro. Tentei trazer as coisas para a racionalidade. Muitas vezes a estratégia dele é jogar a pessoa para o lugar onde ele se dá bem, que é sair da razão para trabalhar com a emoção. Sou do time que evita rotular e não tenho nada pessoalmente contra ele, apesar de ter muito contra as ideias que defende. É evidente que algumas falas dele demonstram um caráter racista, às vezes homofóbico, às vezes até, realmente, fascista. Mas, no momento em que estamos, quando a política está esvaziada, esse tipo de coisa cresce. Ele tem muito carisma entre os seguidores dele. É uma política da imagem, não do discurso – e ele explora isso muito bem.


Jair Bolsonaro, em diversas pesquisas eleitorais, desponta entre os mais cotados pelos eleitores. Há análises que apontam que ele teria atingido um teto de apoio, mas há outras que discordam. Como o senhor enxerga essa candidatura?

Há quem diga que, da mesma maneira ele pode cair no primeiro, ele pode ganhar no segundo. Vejo gente da direita que diz que entre Lula e Bolsonaro vai de Lula. É uma situação muito complicada. Nas eleições do Rio, por exemplo, tivemos muitos votos brancos e nulos, coisa que facilitou o Crivella em detrimento de Freixo. Não existe pior voto que nulo ou branco e isso pode ser um dos fatores que o alavanquem. Pessoalmente, acredito que ele vá para o segundo turno. Todavia, independentemente de quem vá, penso que esse alguém pode ter chances de ganhar. É meio aquela final Brasil e França de 1998. Quem for contra ele com certeza já ganhou, a não ser que leve uma goleada de Bolsonaro. Não sou dos que cortam totalmente a possibilidade de ele ser eleito, há uma chance.


Tanto Bolsonaro, quanto as ideias defendidas por ele vêm ganhando força no Brasil, pelo menos a partir de 2013. Qual seria o motivo?

Com certeza isso está relacionado a 2013, quando a crise mais pesada na economia brasileira começa. Nesses tempos, é no bolso que o pobre sente. Esses conservadores que saíram do armário, e também aqueles nem tão conservadores, mas que indiretamente ajudaram a apoiar o golpe, me parecem ignorar o que o governo do PT, com todos os evidentes erros, fez pelo Brasil. O Brasil está num momento de exceção. É fácil identificar que temos a pessoa que o povo mais deseja na presidência preso, e de uma forma, no mínimo, questionável. O nosso quadro político é meio estranho, esvazia-se a política e o maior líder que o Brasil teve no passado recente. Acho muito ruim para o Brasil. É um quadro triste e preocupante, não apenas por figuras como Bolsonaro. Sabemos que, devido a toda conjuntura, tem muita gente compartilhando das mesmas ideias dele, ao contrário de pensar uma sociedade mais inclusiva e tolerante.


SERVIÇO

Título: Bolsonaro – O homem que peitou o Exército e desafia a democracia

Autor: Clóvis Saint-Clair

Editora: Máquina de Livros

Preço: R$ 39,90

Páginas: 192
 
 
*Estagiário sob supervisão do editor Renato Scapolatempore 

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