
Seja no ar ou na terra, em igrejas, órgãos públicos, estádios de futebol, ruas ou aviões, os brasileiros foram implacáveis com os políticos em 2017.
Em um ano marcado por mais denúncias de corrupção e descaso com a coisa pública, poucos escaparam de vaias, protestos e ovos.
Sobrou para todo mundo: presidentes, governadores, prefeitos, ministros, deputados, juízes e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Nas redes sociais, foram milhões os cliques em vídeos que mostraram a saia justa dos envolvidos.
Nem mesmo o espírito religioso conseguiu conter os mais exaltados. Em pleno feriado de Nossa Senhora Aparecida – padroeira do Brasil –, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), o ministro da Ciência e Tecnologia, Gilberto Kassab (PSD), e o ministro da Secretaria de Governo da Presidência, Antonio Imbassahy (PSDB), foram vaiados durante a tradicional missa no Santuário Nacional em Aparecida, São Paulo. As manifestações vieram após o anúncio da presença deles no local. Na sequência, um telão transmitiu mensagem do papa Francisco, em que ele pediu aos brasileiros que não desanimassem diante dos inúmeros casos de corrupção.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrentou protestos durante uma caravana pelo Rio de Janeiro. Durante comício do petista em Campos, um grupo de cerca de 200 manifestantes apoiadores do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) levou faixas pedindo a prisão do petista. Os simpatizantes de Bolsonaro queimaram bandeiras e gritaram palavras de ordem. O juiz Sérgio Moro, que ganhou muitos apoiadores durante as manifestações contra os ex-presidentes Dilma Rousseff (PT) e Lula, não foi poupado de vaias em sua própria cidade.
Durante evento de procuradores municipais, em Curitiba, um grupo de magistrados vaiou Moro quando ele foi anunciado para subir ao palco. Mais de 70 procuradores endereçaram um documento à Associação Nacional dos Procuradores Municipais (ANPM) manifestando insatisfação com a participação do juiz que ganhou visibilidade com a Operação Lava-Jato na cerimônia da entidade. Eles levaram faixas contra Moro, mas foram impedidos de entrar com elas no auditório.
NA ARQUIBANCADA
Em um camarote do Estádio Pacaembu, onde assistia à partida entre Santos e São Paulo pelo Campeonato Brasileiro, o ministro do STF Gilmar Mendes foi vaiado e xingado por centenas de torcedores. Sobraram gritos de “vergonha do Brasil” e até palavrões. Alguns torcedores filmaram os xingamentos e postaram nas redes sociais. O ministro também enfrentou protestos em eventos que participou no segundo semestre. Em um seminário em São Paulo, Gilmar foi alvo de um grupo de manifestantes que levaram faixas criticando o ministro por “soltar investigados do colarinho branco”.
E se tem alguém que pode atestar que agosto é o mês do desgosto, é o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB). Ao chegar à Câmara Municipal de Salvador, na Bahia, onde recebeu o título de cidadão soteropolitano, o tucano foi alvejado por uma chuva de ovos. Um deles acertou a cabeça do político –, protesto cujo vídeo viralizou rapidamente na internet. No Facebook, Doria reagiu e disse que foi vítima de um ato de “poucos manifestantes de esquerda, agressivos, falando palavrões e jogando ovos, buscando a intolerância”. Alguns meses antes, em março, ele foi vaiado no plenário da Câmara Municipal de São Paulo, onde acompanhava a apresentação do plano de metas da prefeitura.
Outro que tomou uma ovada foi o deputado federal e presidenciável Jair Bolsonaro (PSC-RJ), durante ato em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Vídeo que circulou nas redes sociais mostra uma mulher se aproximando dele e o acertando com um ovo no tórax. Logo após ser atingido, o parlamentar foi cercado por aliados e a mulher contida por policiais que estavam próximos. A confusão ocorreu dentro de uma cafeteria.
O senador Aécio Neves (PSDB) ouviu vaias no encontro nacional do PSDB, realizado em 9 de dezembro, quando Geraldo Alckmin foi eleito presidente nacional da legenda. No encontro havia também apoiadores com faixas que agradeciam a ele pela sua “coragem e comprometimento com o país”. Mas não foi o bastante. O mineiro ficou apenas cerca de 40 minutos na reunião.
NO EXTERIOR
Fora do Brasil, personagens da política nacional também enfrentaram brasileiros insatisfeitos.
O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD), foi hostilizado quando andava pelas ruas de Nova York, onde participava da Assembleia Geral da ONU, no fim de setembro. Um grupo de brasileiros o acompanhou por vários quarteirões aos gritos de “golpista” e acusando o ministro de estar “vendendo o Brasil”.
Outro nome forte do governo de Michel Temer (PMDB) que sofreu com achincalhamentos públicos foi o líder de governo, senador Romero Jucá (PMDB). Durante a inauguração do Teatro Municipal de Boa Vista, em Roraima, o parlamentar foi vaiado e ofendido pela plateia. Ao começar a discursar, ouviu gritos de “ladrão” e “bandido”.
O senador, investigado no Supremo Tribunal Federal (STF), havia sido alvo de outro protesto em um voo de Brasília a São Paulo. Uma passageira o questionou se ele “conseguiu estancar a sangria”, em referência à conversa telefônica em que Jucá foi gravado com Sérgio Machado, sobre a Lava-Jato. O parlamentar tentou tomar o celular da manifestante, mas não conseguiu. O vídeo viralizou nas redes sociais.
A senadora e presidente nacional do PT, Gleisi Hoffman também foi hostilizada durante um voo na mesma ponte aérea. Durante a viagem ela foi chamada de corrupta e ladra. Após a aterrissagem, a parlamentar e a passageira foram encaminhadas a um posto da Polícia Federal, onde a petista registrou queixa.
