
O Brasil não tinha terremoto. Agora tem. E dos grandes
O pão nosso de cada dia é feito de trigo, que é cotado em dólar. O preço do pãozinho do café da manhã de ontem, no entanto, caiu foi na mesa dos brasileiros que não são corruptos, muito antes pelo contrário, batalham, e não é pouco, para conseguir pôr na mesa pelo menos um para cada filho. Ontem, o dólar disparou. Culpa, já que é disso que a coluna trata, dos nossos políticos que desrespeitam a luta dos cidadãos e criam uma crise atrás de outra.
Agora foi a vez do frigorífico JBS esquentar o noticiário. A Odebrecht, de tantas delações premiadas, ficou de fora. Quem entrou, de fato, foi o próprio presidente Michel Temer (PMDB), que teria tentado comprar o silêncio de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o ex-presidente da Câmara dos Deputados, preso em Curitiba, a capital da Operação Lava-Jato, da Polícia Federal em conjunto com o Ministério Público Federal (MPF).
O frigorífico deixou também em forno quente a política mineira, diante das acusações contra o agora ex-presidente nacional do PSDB e senadorafastado Aécio Neves (MG). Sua irmã foi presa e levada para a Penitenciária Estêvão Pinto. Esta fase, no entanto, a PF batizou de Patmos, em referência à ilha grega onde o apóstolo João teria escrito o Livro do Apocalipse.
Já Aécio fez jus ao próprio partido. Demorou, mas avisou já no fim da tarde que se licenciaria – eu disse licenciar, sem rima com renunciaria – da presidência nacional do PSDB. Vai cuidar de sua defesa e sua decisão, por outro lado, para ser justo, indica que espera ser inocentado. Um dos principais líderes do Congresso e ex-candidato à Presidência da República, é óbvio que tentará manter a sua biografia.
Renúncia, nem pensar
De viva voz, sem ler um papel (será que tinha teleprompter?), o presidente Michel Temer (PMDB) fez discurso em cadeia nacional de rádio e televisão para deixar claro que não renunciaria à Presidência da República.
Era para ser mais cedo, na hora do almoço mais ou menos, mas o cardápio foi alterado, diante de vários “convidados” que recebeu no principal gabinete do Palácio do Planalto para decidir o que fazer. E o que falar à Nação. Decidiu não renunciar e falou que “nem pensar”. Claro que sobre a renúncia ao comando do país.
Bem, comando do país é modo de dizer. Diante de uma crise institucional desse tamanho, vai conseguir reagir? Improvável. Como são improváveis as aprovações no Congresso das reformas trabalhista e da Previdência. Nem é necessário no mérito delas, pouco importa.
Partidos da base, os pequenos, por enquanto, já começaram a desembarcar, entregaram os cargos. O ministro da Cultura, Roberto Freire (PPS-SP), foi o primeiro. Mas nem dentro de seu próprio partido houve coesão. Faltou combinar com o ministro da Defesa, Raul Jungmann, que preferiu ficar, embora as primeiras notícias davam conta de que também deixaria o cargo.
Melhor ele próprio clarear os fatos: “Face às notícias divulgadas pela imprensa, o ministro de Estado da Defesa, Raul Jungmann, comunica que permanece no cargo, no pleno exercício da direção superior das Forças Armadas, em cumprimento das funções para as quais foi nomeado pelo Senhor Presidente da República”. É nota oficial dele.
Breaking News
Nos Estados Unidos, era difícil concorrer com os escândalos envolvendo o presidente Donald Trump, mas alguns dos seus principais jornais publicaram em sites a grave situação política no Brasil. Na Europa, o destaque foi ainda pior. Comecemos por lá.
O título da matéria do The Guardian, da Inglaterra, foi o mais direto: “Gravação explosiva implica presidente Michel Temer em suborno”. É mesmo uma manchete explosiva diante da atual situação política brasileira. Já o francês Le Monde, seguiu a sua famosa culinária. A manchete era: “O presidente Temer foi salpicado com novas revelações”. O cardápio por lá é sempre salpicado de finas iguarias.
Já o The New York Times tucanou. Publicou que o presidente “endossou pagamento de propina em áudio gravado por executivo de companhia de alimentos, segundo jornal brasileiro”. Como fez questão de registrar “segundo jornal brasileiro”, fica fácil entender que o NYT subiu no muro característico do ninho tucano.
Na Espanha não foi diferente, o El País destacou no título da matéria “suposta gravação em que Michel Temer obstrui a Justiça estremece Brasil”. Bem, o estremece alivia um pouco, mas a suposta, bem, deixa pra lá. Melhor finalizar com o Deutsche Welle, já que os alemães deixam claro, objetivos que são: “Escândalo de corrupção no Brasil sobrecarrega presidente Temer”.
Enfim, sobrecarregados estão os brasileiros diante de tantas denúncias de corrupção e que agora subiram também a rampa do Planalto. Se for preciso lançar um candidato à Presidência da República, que tal o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles? Quem sabe ele consegue conter o estrago que está sendo feito na economia, logo agora que o crescimento estava voltando?
Ah! Registro mais que necessário. Ele tem o perfil desejado para o cargo, o de não ser um político. Meirelles não é.
Nos Estados Unidos, era difícil concorrer com os escândalos envolvendo o presidente Donald Trump, mas alguns dos seus principais jornais publicaram em sites a grave situação política no Brasil
“Circuit breaker”
O pregão tinha sido aberto cedo, mas não demorou para que a Bolsa de Valores decretasse a paralisação dos negócios, o tal circuit breaker, por ter atingido queda de mais de 10% no índice Bovespa. E cresceria ainda mais, em especial diante das ações de bancos. Calma gente, não confunda com o banco dos réus, mas que tem tudo a ver, ah! Isso tem!
A propósito
Elas não fazem parte do principal índice, o Ibovespa – índice que reúne as ações com maior volume financeiro da Bovespa, mas fizeram pouso forçado na bolsa de valores. Queda de quase 15%. Já em Nova York, a queda foi ainda maior: a Gol perdeu 25% de seu valor e a Azul 15%. Óbvio que por causa do clima, da falta de visibilidade no voo do céu brasileiro.
Haja rimas
“A gravidade da situação política do país, diante das novas denúncias publicadas pela imprensa nacional, exige serenidade, maturidade e responsabilidade com a estabilidade política e a governabilidade.” Virou mania? Agora é só com rima? Gravidade, serenidade, maturidade, responsabilidade, estabilidade e a governabilidade... Frase do líder do PSB no Senado, Fernando Bezerra Coelho (PE). Em tempo: o “exigem” do plural do verbo da nota, quando o sujeito era a gravidade da situação, a coluna corrigiu para exige, como convém.
Golpe militar?
Exército de prontidão desde cedo cercando as imediações do Palácio do Planalto (foto). Óbvio que é questão de segurança diante das manifestações em um dia como o de ontem. Mas não dá para resistir. Com a política envolvendo tanta gente graúda será prontidão para um golpe militar? Resposta rápida. Esqueça, este tempo já passou. Os generais de hoje não querem voltar ao passado, muito antes pelo contrário. Ainda bem.
Enquanto isso...
Em meio ao turbilhão que assola o país, o governador do Rio de Janeiro, que vive uma crise financeira sem precedentes, Luiz Fernando Pezão (PMDB) (foto), está preocupado com a sanção do Regime de Recuperação Fiscal dos estados, aprovado quarta-feira no Congresso. E nem quer saber quem vai sancionar: “É um projeto aprovado na Câmara e no Senado. Tenho certeza de que o presidente que estiver lá vai sancionar o projeto de lei”. Ao ser perguntado sobre o financiamento da sua campanha eleitoral pela JBS, a principal doadora dele em 2014, o governador disse que não tem o que esconder e que as doações são públicas.
Grupo alerta PF
Manifestantes usaram uma caçamba (foto) de lixo para impedir na manhã de ontem a saída de um caminhão que levaria caixas e computadores de escritório do PMDB no Setor Comercial Sul, em Brasília, para a nova sede, no Lago Sul. Segundo o grupo, fotos que circularam em redes sociais mostravam as caixas sendo retiradas do prédio e eles temiam o sumiço de provas. A assessoria do presidente da sigla, senador Romero Jucá (RR), informou que a mudança já estava marcada e a ordem era manter a programação. Acionados por manifestantes, dois agentes da Polícia Federal chegaram a entrar no prédio, mas disseram não ter mandados de busca e apreensão. O motorista do caminhão preferiu não deixar o local, com medo de ter o veículo danificado, mas uma participante do ato furou um dos pneus dianteiros do caminhão e fugiu sem que os policiais notassem. Tudo aconteceu aos gritos de “Fora, Temer”.
Desembarque imediato
Um dia depois da revelação de que o grupo JBS pagou suposta mesada ao deputado cassado Eduardo Cunha (foto), o escritório do advogado Marlus Arns de Oliveira abandonou a defesa do ex-presidente da Câmara. O pagamento teria sido feito em troca da garantia de que Cunha não fecharia um acordo de delação premiada com a Justiça. Oliveira não informou porque desistiu de defender o ex-deputado. O mesmo escritório atua, ao todo, com 10 réus da Operação Lava-Jato, alguns, inclusive, delatores que obtiveram vantagens ao entregar provas e suspeitos de participar do esquema. Detalhe curioso: apesar de deixar o rol de advogados de Cunha, até o momento, Oliveira permanece como advogado da mulher dele, Cláudia Cruz.
Impacto celeste
O escândalo de corrupção que envolve o nome do senador afastado Aécio Neves (PSDB) e do senador Zezé Perrella (PMDB) acertou em cheio também a política do Cruzeiro. Seis conselheiros do clube são investigados, sendo que dois deles foram presos preventivamente ontem: o assessor de Perrella (foto), Mendherson Souza Lima, e o primo de Aécio Frederico Pacheco. No fim do ano, o Cruzeiro promoverá eleições presidenciais. Perrella é considerado o nome mais forte para substituir Gilvan de Pinho Tavares. As acusações de recebimento de propina, contudo, arranharam a imagem do senador, que vê a sua candidatura perder força. Outro conselheiro do Cruzeiro investigado no caso JBS, pela Lava-Jaro, é Euller Nogueira Mendes.
É proibido...
...proibir, melhor prevenir. “Não é uma proposta que gera crise, pelo contrário, ela previne crises ao colocar a escolha nas mãos do eleitor”, disse o deputado Esperidião Amin (PP-SC), relator da proposta de emenda à Constituição (PEC) na Comissão de Constituiçã e Justiça (CCJ), que permite, em caso de vacância do titular, eleições diretas para a Presidência da República. Quanto à vacância do titular, não vou entrar em casos de saúde ou de morte. É de encrenca das bravas mesmo com a Justiça.
E que perigo!
Num dia como o de ontem, será que era para fingir que nada está acontecendo? Se não foi, é piada pronta. A Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público aprovou projeto de lei do deputado Paulinho da Força (SD-SP), para tratar como atividade perigosa a leitura para emissão de faturas de energia elétrica e gás. Diante do perigo na política, os choques elétricos e a falta de gás para tanta gente se defender é de muito mau gosto a piada. Ainda mais que tem adicional de periculosidade.
