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Estado de Minas

Dilma deixa passado de lado para conviver com aliados suspeitos

Fama de gerentona adquirida pela presidente no primeiro mandato, quando trocou 21 ministros acusados de corrupção, ficou para trás. Hoje, Dilma mantém no governo aliados sob suspeita


postado em 18/01/2016 06:00 / atualizado em 18/01/2016 08:01

ara especialistas, Dilma está tentando se adequar à política brasileira (foto: Andressa Anholete/AFP)
ara especialistas, Dilma está tentando se adequar à política brasileira (foto: Andressa Anholete/AFP)

Ao assumir o comando do país, em 2011, a presidente Dilma Rousseff se transformou na gerentona do Brasil. Logo, aquela imagem de mulher forte, faxineira que viria fazer boas mudanças, ganhou forma. Dilma seria a responsável por limpar o governo. E o fez. Em dois anos e quatro meses, bateu recorde trocando 21 ministros: oito no primeiro ano, oito no segundo e cinco nos primeiros meses do terceiro ano. Um terço dos chefes de estado caiu após denúncias de envolvimento em corrupção. Porém, algo mudou. Apesar das últimas denúncias envolvendo ministros, Dilma os mantém próximos e com cargos importantes no executivo. A austera gerentona que limpava o governo ficou no passado.

Diferentemente daquela mulher impaciente com ações duvidosas que assumiu o poder em 2011, a presidente passou a aceitar e a contar com o apoio próximo de aliados hoje sob suspeitas de terem praticado irregularidades. Nas últimas semanas, dois dos três ministros mais próximos a presidente no Palácio do Planalto viraram alvos de denúncias em páginas de jornais. Braço direito de Dilma, o ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, é acusado de negociar apoio financeiro com o ex-presidente da empreiteira OAS Léo Pinheiro – condenado no esquema de corrupção da Petrobras – quando era governador da Bahia para garantir recursos para a campanha do PT à prefeitura de Salvador.

Noutra frente, apareceram denúncias de que o ministro da Secretaria de Comunicação, Edinho Silva — que era coordenador financeiro da campanha da presidente, também mantinha relação política com Pinheiro. Eles teriam trocado mensagens entre 2012 e 2014 para combinar doações para a campanha da presidenta à reeleição. Em defesa, Edinho repete que as relações com empreiteiros se deram “de forma transparente e dentro da legalidade” e ainda que foram “doações legais”. Jaques também rebate alegando ter “absoluta serenidade quanto às ações e permanece à inteira disposição do (MPF) Ministério Público Federal e da Justiça para quaisquer esclarecimentos”, defendeu-se em publicação nas redes sociais.

Especialistas classificam a mudança de comportamento como uma maneira de se adequar à política brasileira. “Dilma precisa fazer a velha política para conseguir governar. Aquela fase da faxina foi muito curta porque era inviável. Até mesmo o ex-presidente Lula a aconselhou a não fazer mais isso e a conviver com a política com todos os males que ela possui. O fato de existirem ministros envolvidos na Lava-Jato, mas forte nos partidos fazem com que a presidente tenha que engoli-los e a conviver com eles”, explicou um economista e analista político que preferiu não se identificar.

MARKETING
Crítico ferrenho ao governo, o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) rebate, inclusive, a vericidade da fama de faxineira da presidente. “Ela nunca foi gerentona, aquilo era tudo jogada de marketing. Ela demitiu, mas pouco tempo depois estava aos beijos e abraços com todos que tinha colocado sob suspeição em vários ministérios. Essa operação, como outras no governo dela, tem muito de farol”, criticou. Para outro cientista político, Dilma ficou refém das “forças que estão sob holofotes”. “A cada dia descobrem mais desvios de conduta e ela não tem como contornar para desvencilhar desse povo pois o preço é muito alto. Por isso, ela os têm mantido no governo. Dilma é vítima das próprias ações”, analisou, esclarecendo que a presidente criou mais mecanismos de fiscalização no governo dela.

“Ela criou a lei de responsabilização de pessoa jurídica, a lei de combate ao crime organizado com delação premiada, a lei de combate a lavagem de dinheiro, a lei de transparência que obriga estados e municípios a disponibilizar em tempo real seus gastos, etc. Essas leis jogaram luzes sobre o governo e se descobriu uma série de desvios de conduta na gestão dela em função dessa maior transparência. Assim, recaiu a convenção de que é responsável por essa ‘degradação moral’”. “Criou-se os instrumentos que chegam a essas pessoas, mas as condições políticas dela não são confortáveis e suficientes para abrir mão dessas pessoas porque isso é mais problema para ela, que está sem base política”, explicou.

Um dos responsáveis por investigar os desvios na Petrobras na CPI instaurada na Câmara, o relator Luiz Sérgio (PT-RJ) defendeu as mudança no comportamento da presidente como medidas de cautela. “Sempre existiu financiamento privado no Brasil e ninguém sai oferecendo nada. As pessoas tem que, no mínimo, pedir. E pedir não é crime, se encontrar não é crime. Há uma ação muito forte para criminalizar a campanha como um todo, a política como um todo. Não se pode sair condenando as pessoas por algo que ainda não tenha uma materialidade que aponte como sendo ação de crime”, argumentou.

Os casos

Confira os ministros demitidos no primeiro mandato de Dilma e os do segundo mandato que se mantêm
no cargo, apesar das denúncias contra eles

PRIMEIRO MANDATO

Antonio Palocci, Casa Civil
Braço direito da presidente Dilma Rousseff no início do primeiro mandato, deixou a Casa Civil em 8 de junho de 2011 após uma série de denúncias sobre sua evolução patrimonial. Ele saiu do governo mesmo depois do arquivamento das acusações por considerar sua permanência “insustentável”. Em seu lugar, assumiu a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR).

Alfredo Nascimento, Transportes

Menos de um mês após a saída de Palocci, a presidente assinava a segunda demissão: Alfredo Nascimento deixou o cargo após denúncias sobre um suposto esquema de superfaturamento em obras envolvendo servidores da pasta. A crise se agravou ao aparecerem suspeitas de que o filho do ministro teria enriquecido ilicitamente em razão do cargo do pai. Nascimento, então, decidiu deixar o governo com pedido de demissão “em caráter irrevogável”. Assumiu Paulo Sérgio.

Wagner Rossi, Agricultura

Após matéria publicada pelo Estado de Minas/Correio Braziliense mostrando que o ministro e um de seus filhos – o então deputado estadual Baleia Rossi (PMDB-SP) – viajaram em avião emprestado por uma empresa do ramo do agronegócio com interesses na pasta, o ministro deixou o cargo. Em nota, o ministro admitia ter usado o jatinho “raras vezes”. No lugar de Rossi, assumiu Mendes Ribeiro Filho.

Pedro Novais, Turismo

A situação de Pedro Novais ficou insustentável após denúncia de que mulher dele, Maria Helena de Melo, usou irregularmente um funcionário da Câmara como motorista particular. Antes, o ministro já havia se desgastado com denúncias de que pagou sua governanta pessoal com salário da Câmara durante os sete anos em que foi deputado federal. A mulher, que trabalhava na casa do ministro, recebia como secretária parlamentar. Com a saída, Gastão Vieira assumiu a pasta.

Orlando Silva, Esporte
Acusado pelo então policial militar João Dias Ferreira de receber dinheiro vivo na garagem do Ministério do Esporte, no fim de 2008, Orlando Silva também “pediu” para sair. A quantia faria parte do programa Segundo Tempo, que destinava verbas a ONGs com o intuito de incentivar a prática esportiva entre jovens. O esquema teria desviado R$ 40 milhões em oito anos. Ao deixar o governo, Silva alegou ter sofrido “linchamento político”. Assumiu a pasta Aldo Rebelo.

Mário Negromonte, Cidades

Após um ano e um mês no cargo, Mário Negromonte saiu depois de uma série de denúncias, entre elas, a de que funcionários da pasta foram pressionados a mudar um parecer técnico que acabou triplicando o valor de uma obra no sistema de transporte de Cuiabá, em Mato Grosso, para a Copa de 2014. Ele negou a denúncia. Assumiu Aguinaldo Ribeiro.

Carlos Lupi, Trabalho e Emprego

Era um domingo do segundo ano de mandato da presidente Dilma Rousseff quando o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, entregou o pedido de demissão. Na semana anterior, Dilma dera indicação de que bateria o martelo sobre o futuro de Lupi na segunda-feira seguinte. Ele havia recebido denúncia de que haveria um esquema de cobrança de propina de ONGs contratadas para capacitar trabalhadores. Ao sair, afirmou ter sofrido “perseguição política”. Brizola Neto assumiu a pasta.

SEGUNDO MANDATO

Henrique Eduardo Alves, Turismo
Inicialmente investigado pela Operação Lava-Jato, o ex-presidente da Câmara teve pedido de apuração arquivado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, em março do ano passado, por considerar não haver indícios de envolvimento dele com as denúncias. Oito meses após ser nomeado ministro de Turismo, a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão no apartamento dele, em Natal. Em nota, o ministro diz-se “surpreso”. “Estou, como sempre, à disposição para prestar esclarecimento.”

Celso Pansera, Ciência, Tecnologia e Inovação
Apontado pelo doleiro Alberto Youssef – um dos delatores do esquema de corrupção investigado pela Lava-Jato – como “pau mandado” do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Pansera foi um dos alvos da Operação Catilinárias, da Polícia Federal, em dezembro passado. Em nota, o ministro manifestou “pleno interesse no esclarecimento dos fatos sob investigação” e se colocou à “disposição”.

Aloizio Mercadante, Educação
Em setembro passado, o ministro Celso de Mello, do STF, autorizou a abertura de inquérito para investigar o então chefe da Casa Civil e atual ministro da Educação por suposta prática de crime eleitoral de falsidade ideológica. O ministro confirmou ter recebido dois pagamentos de R$ 250 mil, da UTC e da Constran, para sua campanha, em 2010, ao governo de São Paulo. Ele afirma que o dinheiro foi recebido de forma legal e declarado à Justiça Eleitoral.

Edinho Silva, Comunicação Social
Desde setembro passado, o ministro responde a inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) por suspeita de participação nos crimes apurados pela Lava-Jato. Ele se tornou alvo com base na delação premiada do dono da UTC, Ricardo Pessoa, que declarou ter recebido de Edinho, à época tesoureiro da campanha de Dilma, pedido de repasse financeiro para a campanha. Ele nega a pressão.

Jaques Wagner, Casa Civil

Investigadores da Operação Lava-Jato interceptaram mensagens de telefone que apontam relação do ex-governador da Bahia e atual ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, com o ex-presidente da OAS José Adelmário Pinheiro, conhecido como Léo Pinheiro, um dos condenados por esquema de corrupção da Petrobras. A suspeita é que as conversas entre os dois ocorreram no segundo mandato dele como governador para tratarem de doações de campanha para disputar a prefeitura de Salvador. Ele nega.

 


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