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Estado de Minas EM BUSCA DE ESPAÇO E VOTOS

Convivência harmônica na Assembleia entre governistas e oposição não se reproduz no interior

A briga é feia até entre "aliados" já visando o pleito municipal


postado em 24/04/2011 07:45 / atualizado em 24/04/2011 09:07

Na Assembleia de Minas, parlamentar governista é governista, e nos embates políticos, não se mistura com a oposição. Se no plenário legislativo do estado as posições estão segmentadas de forma clara, nos municípios mineiros, a política é como nuvem. Entre deputados que ali costuram a sua carreira junto às lideranças locais, prevalece o vale-tudo, no qual os contornos ideológicos estão longe de terem coloração definida. Tem de tudo. Democratas contra democratas, peemedebistas versus o PMDB, tucanos ao lado de petistas, o PT contra petistas e o PSDB versus tucanos são situações corriqueiras nas cidades mineiras.

O tom da disputa sobe à medida em que as sucessões municipais se aproximam – e com elas a necessidade de que parlamentares reafirmem as suas bases – elegendo os futuros prefeitos que, por seu turno, os ajudarão em 2014. No jargão político, os deputados querem garantir as “suas” cidades e os “seus” prefeitos, e estes, mantêm o compromisso com os “seus” deputados, que no limite, intermedeiam pleitos por obras junto aos governos, além de atrair recursos aos cofres municipais, por meio de convênios e de projetos de toda ordem.

Ao mesmo tempo, a intensidade dos conflitos e “arranjos” peculiares é proporcional à "densidade parlamentar" das macrorregiões mineiras. Com cinco deputados cada, as regiões da Mata e Sul e a Alto Paranaíba, com quatro, têm representação suficiente para que sejam necessários, entre os deputados, acordos de boa convivência em plenário. Com 30 deputados estaduais que nela concentram mais de 40% de sua votação, a Região Central é aquela em que se registram mais disputas. O Triângulo Mineiro e o Norte, com respectivamente oito e sete deputados estaduais que retiram até 95% de sua votação daquelas áreas, apresentam intenso fogo amigo, assim como na Região do Rio Doce, que tem seis deputados estaduais.

No Norte de Minas ,as divergências políticas regionais dentro da base de Anastasia (PSDB) subiram para seio do secretariado, com a nomeação de Carlos Pimenta (PDT), para a Secretaria do Trabalho, Emprego e Renda e Gil Pereira, para a Secretaria de Desenvolvimento dos Vales do Jequitinhonha e do Norte de Minas. Nas demais regiões, prevalecem disputas entre parlamentares da mesma base e alianças políticas localizadas, que colocam em xeque qualquer estratégia nacional dos partidos – particularmente do PT e do PSDB –para configurar um quadro partidário de situação e oposição.

Secretários do Norte atiçam rivalidade

Os deputados que dão sustentação ao governo procuram demonstrar a relação amistosa na Assembleia Legislativa. Mas a violenta disputa entre as "bases" de Anastasia, no Norte de Minas, ganhou neste ano uma nova conotação: dois deputados estaduais da região – em que a competição entre políticos é uma das mais agressivas no estado– foram nomeados secretários de Estado. Carlos Pimenta, do Trabalho, Emprego e Renda; e Gil Pereira, que está à frente da Secretaria do Desenvolvimento dos Vales do Jequitinhonha e do Norte de Minas (Sedvan) continuam em guerra nos municípios.

Carlos Pimenta e Gil Pereira não são os únicos aliados de Anastasia que se confrontam nas cidades em que colhem os seus votos. Também fazem parte do conflito, cada qual com o próprio posicionamento no front, os deputados estaduais Arlen Santiago (PTB), Paulo Guedes (PT), Tadeuzinho (PMDB), Ana Maria (PSDB) e Luiz Henrique (PSDB).

Em combinações políticas cambiantes, esses parlamentares se unem a diferentes legendas, segundo a conveniência política do município. Em São João do Paraíso – cidade de 21,9 mil habitantes, a 785 quilômetros de Belo Horizonte – o prefeito Manoel Andrade Capuchinho (PSDB) apoia o deputado estadual Arlen Santiago (PTB), enquanto o líder da oposição local, o ex-prefeito José de Souza Nelcy (PR), o Souza, está com Carlos Pimenta.

Capuchinho reconhece que a disputa entre os dois grupos da política local é autofágica. Quando precisa resolver qualquer questão ligada à Secretaria de Estado do Trabalho, Emprego e Renda Capuchinho admite: "Nesse caso, vou recorrer ao Arlen Santiago, que é o meu deputado". O mal-estar de Capuchinho tende a se agravar. O arquiinimigo José Souza Nelcy informou que aguarda, para os próximos dias, ser nomeado assessor da pasta comandada por Carlos Pimenta. Caberá a ele coordenar projetos no Norte de Minas.

Souza promete, já de olho no impacto eleitoral de sua atuação na região: "Vou fazer um trabalho para melhorar as condições de vida da população. A rivalidade política existe, mas só vamos lembrar disso em 2012", diz Souza, que tem lá as suas mágoas: embora reeleito em 2008, ele foi cassado em consequência de denúncias de compra de votos que partiram do grupo político de Manoel Capuchinho. Depois que a Justiça Eleitoral anulou o pleito, Capuchinho venceu a nova disputa, em maio do ano passado.

Carlos Pimenta e Arlen Santiago ganham um novo adversário em Coração de Jesus, de 26,1 mil habitantes, a 475 quilômetros de Belo Horizonte: Gil Pereira também cava apoios naquele município, onde três grupos políticos rivais se confrontam. Também em Bocaiúva aliados do governo Anastasia disputam voto a voto. O prefeito da cidade, José Ricardo Veloso (PSDB), apoia o deputado estadual Luiz Henrique Santiago (PSDB). O seu principal opositor, o ex-prefeito Alberto Caldeira (PMDB), respalda o pepista Gil Pereira, que, por seu turno, sucede a ex-deputada e mulher de Luiz Henrique, Elbe Brandão, à frente da Secretaria do Desenvolvimento dos Vales do Jequitinhonha e do Norte de Minas.

Fogo amigo é comum

Gustavo versus Gustavo, ambos democratas da base de sustentação de Antonio Anastasia (PSDB) se enfrentam no município de Rio Vermelho – na Região Central, a 401 quilômetros de Belo Horizonte. Os deputados estaduais Gustavo Corrêa e Gustavo Valadares têm o apoio de grupos rivais. O primeiro está com o prefeito Jesus (PMDB), legenda que engrossa o campo da oposição ao Palácio Tiradentes. Já Gustavo Valadares se sustenta no grupo político de oposição, encabeçada pelo PSDB na cidade.

A liberalidade das alianças, facilitadora das eleições dos parlamentares porque se ajusta, sem constrangimentos, às condições políticas locais, não para por aí. São incontáveis os acertos. Em Juruaia, na Região Sul, Gustavo Corrêa tem o apoio do prefeito tucano Alvinho, enquanto a oposição encabeçada pelo PMDB, dá sustentação ao deputado Antônio Carlos Arantes (PSC) e ao deputado federal Carlos Melles (DEM), secretário de Estado de Transportes e Obras Públicas.

"É uma miscelânea", admite o deputado estadual Antônio Júlio (PMDB). Em Papagaios, município da Região Central a 130 quilômetros da capital, o prefeito tucano Mário Filgueiras respalda o oposicionista Antônio Júlio. A oposição local optou pelo apoio a Duílio de Castro (PMN), da base governista no estado.

Não é apenas na base de Antonio Anastasia onde prospera o fogo amigo. Também no bloco de oposição, articulado pelo PT, PMDB, PCdoB e PRB, os parlamentares, nas cidades, brigam por espaço e se envolvem nas disputas entre os líderes locais. Em Esmeraldas, o deputado estadual Ivair Nogueira (PMDB) tem o apoio do prefeito Flávio Lerroy, do PPS, legenda que integra a base de Anastasia. Já o seu colega de bancada, Sávio Souza Cruz (PMDB), se respalda naquela cidade no PMDB, em parte do PP e em um grupo do DEM, oposição ao governo municipal.

Pompéu, município da Região Central, a 170 quilômetros da capital, é reflexo de um contexto político híbrido. Do PPS, partido que está no governo do estado, o prefeito Joaquim Campos Reis respalda o deputado estadual Gustavo Perrela (PDT), da base governista. O vice-prefeito, do PMDB, Luciano de Sousa Lino, sustenta o oposicionista ao governo do estado Antônio Júlio.

Em 54 cidades mineiras governadas por prefeitos petistas com vices tucanos – ou vice-versa – prevalece o pragmatismo, que melhora a interlocução política com o governo do estado e com o governo federal – também na hora de decidir os apoios aos parlamentares. Em Guapé, no Sul de Minas, a 280 quilômetros de BH, o prefeito Nelson Alves Lara (PT), que tem por vice o tucano Odualdo Reis, arrola o cardápio político nas eleições passadas: apoio para os deputados federais Reginaldo Lopes (PT), Odair Cunha (PT) e Carlos Melles (DEM), este secretário de Estado de Transportes e Obras Públicas, além dos deputados estaduais Dilzon Melo (PTB) e Antônio Carlos Arantes (PSC). A salada partidária parece indigesta, mas é compatível com a coligação que levou Nelson Alves Lara ao governo municipal: PT, PSDB, PTB, DEM, PSC e PMDB.A oposição local é feita pelo PR e pelo PTR.

Também em Leme do Prado, cidade do Jequitinhonha a 530 quilômetros da capital, o prefeito petista Wilmar Adão e a sua vice tucana, Jaci Helena, aprenderam a "repartir o pão", nos termos do próprio Adão. "O deputado federal foi PT, o estadual foi o PSDB, para presidente Dilma e para governador Anastasia. Foi repartido certinho e deu tudo certo", descreve Adão, referindo-se ao deputado federal Gilmar Machado (PT) majoritário e aos estaduais Luiz Henrique e Célio Moreira, ambos tucanos.


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