
Graça Ramos *
Especial para o EM
Que narrador é este que aparenta ser onisciente, mas sabe tão pouco sobre aqueles de quem fala? Não há nele preocupação em controlar a narrativa, tampouco se importa em parecer lento, quase alienado da história. Ainda por cima, costuma falar no plural, tornando cúmplice quem lê. Reside na escolha desse ponto de vista a ousadia estrutural de “A invasão do povo do espírito”, o mais recente livro traduzido ao português do escritor mexicano Juan Pablo Villalobos.
Ainda que o tom do narrador seja calmo, a novela está revestida de hiperatividade. Treze tramas interligadas criam a unidade narrativa, costurada em 77 capítulos não titulados. Composição organizada em torno de quatro personagens centrais – Max, Gastón, Pol e o cachorro de nome Gato. Os elos confluem para eles, membros de uma espécie de família, disfuncionalmente amorosa, perdida nas dificuldades da contemporaneidade – sabemos do tempo cronológico pelos aparatos de comunicação e aplicativos utilizados.
A modulação da narrativa oscila entre a ternura, o delírio e um humor irônico. Há momentos em que as invencionices do narrador – por exemplo: quando teoriza sobre o que é o realismo, gênero do qual deseja fugir – soam ao picaresco, à maneira de um Campos de Carvalho, o brasileiro autor de “O púcaro búlgaro”, que Villalobos leu quando de sua breve residência no Brasil. Em outros trechos aparecem estados de delicadeza, em especial naqueles relativos ao tratamento paliativo dado ao terminal Gato, cuidado por uma adormecedora, a única personagem mulher com voz naquelas páginas, mas não nomeada.
Atrevimento paradoxal
Aqui é necessário pontuar a coragem do escritor. No contexto cultural que vivemos, pautado por discussões de gênero reivindicadoras da presença e da força das mulheres, criar uma narrativa centrada em personagens homens faz-se gesto de ousadia. Entretanto, trata-se de atrevimento paradoxal. Ao expor esses personagens que não buscam se fortalecer na dominância, nem estão à procura de um seio que os amamente, o autor apresenta um modo de ser que, no lugar de privilegiar o fazer (comumente atribuído ao masculino), destaca o “é”, mais identificado com o feminino. A estratégia dá certo, pois quem lê acolhe esses sujeitos em desassossego.
O reforço aos personagens masculinos concentra-se na articulação da narrativa em torno de assunto pouco explorado pela literatura: a amizade entre dois homens, feita de diálogos sucintos, reservas tão afeitas a um masculino que pouco sabe lidar com a expressão do amor. Relação desenhada na ambiguidade, pois sempre resta a dúvida se há algo a mais naquele encontro singular entre os dois personagens, Max e Gastón. O primeiro, em crise depressiva por não conseguir manter o restaurante que o sustentou durante anos. O outro, o solitário proprietário de uma horta urbana, dono de alguma solvência fruto de herança familiar, o amigo que tenta retirá-lo do estado de prostração, caracterizado pelo vício em jogos de celular.
Villalobos ainda experimenta ao recorrer a um humor que não se dirige diretamente a qualquer personagem, artifício usado, por exemplo, no seu primeiro romance, o encantador “Festa no covil”, em que sarcasmos eram direcionados a pessoas. Na nova novela, o risível refina-se, transfigura-se em um olhar inexoravelmente irônico lançado ao mundo que abriga o conjunto de vizinhos sem laços comunitários. Todos vivem em um bairro qualquer de uma cidade em processo de gentrificação, que poderia ser Barcelona, onde o autor mexicano vive há alguns anos, mas também não nomeada nas páginas.
Publicado na Espanha em fevereiro de 2020, portanto, quando a pandemia de covid-19 ainda não alcançara a horrível magnitude, a trama armada por Villalobos explora o tema de uma invasão à terra a ser feita por sementes manipuladas cientificamente. Paranoia delirante ou talvez seja melhor chamá-la de verdade vivida pelo jovem biólogo Pol, recém-egresso de pesquisas feitas na Tundra, a delusão ativa o tom político da história. Faz lembrar, ainda que remotamente, as muitas versões propagadas sobre a origem do vírus que tanto nos atormentou.
Tudo se passa em um mundo onde os seres de muitos lugares, migrantes todos, foram movidos em suas andanças por questões as mais diversas – desde as econômicas, judiciais (caso do pai de Max) até o mero desejo de mudança – e passam a habitar microcosmo de desconfianças, que são também globais. Novamente, pouco sobre eles está plenamente identificável. Rotular nacionalidades, diz Villalobos em entrevistas, significa apartar seres, roçar em discursos separatistas, incentivar nostalgias perigosas, daí a decisão de eliminar tais traços.
A solução encontrada resume-se a apenas sinalizar as especificações geográficas da vizinhança: cone-sulinos, norte-orientais, locais peninsulares, extremo-orientais, norte-oriental do Sul, península colonizadora, meridional. Podemos somente imaginar possíveis origens dos personagens por alusões a questões culturais. Por exemplo, o tempero usado por Max indica proximidade à culinária mexicana. Assim como a descrição dos problemas gástricos do melhor jogador de futebol do mundo poderá gerar associações com o medalhado Lionel Messi em sua passagem pelo Barcelona. Ou imaginar que, ao plantar batatas cones-sulinas, Gáston veio da Argentina.
Quinta obra de ficção de Villalobos, “A invasão do povo do espírito” expõe acirramentos de um mundo cada vez mais globalizado e, no entanto, menos solidário. O bairro e seus habitantes produzem divertida crônica do refratário ao diverso, um microcosmo marcado por discursos e práticas de exclusão, pouco afeito à consciência de que todos são – e somos – estrangeiros, pois fronteiras nacionais pouco colaboram na hora de enfrentar complexidades do existir, de encarar crises de se estar em contato com o outro.
* Graça Ramos, mestre em Literatura e doutora em História da Arte, é autora de “O apagamento de Volpi: presença em Brasília” (Tema Editorial).
Trecho
(De “A invasão do povo do espírito, de Juan Pablo Villalobos.
Tradução de Sérgio Molina)
Mais uma sequência de mensagens do passado, do Cone Sul. Gáston dá uma olhada nelas na cozinha, em pé, enquanto espera a água da cafeteira ferver. Foram enviadas de outro número mais um a ser bloqueado, prevemos, se tomarmos como base de prognóstico o comportamento anterior de Gáston. Dizem essencialmente o mesmo que as mensagens da última vez, com exceção da primeira, a de introdução, que começa perguntando se Gáston recebeu há alguns dias as mensagens de seu outro sobrinho, o irmão do que agora escreve. Depois, uma ladainha idêntica: a injustiça da herança, a disparidade, as desvalorizações, o patrimônio, a exigência de restituição, de comum acordo, amistosa em família.
Já sabemos o que Gáston fará a seguir. Não nos enganamos.
“A invasão do povo do espírito”
- De Juan Pablo Villalobos.
- Tradução de Sérgio Molina.
- Capa de Elisa von Randow.
- Companhia das Letras.
- 224 páginas.
- R$ 74,90.
