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Estado de Minas PENSAR

Biografia do argentino Che Guevara ganha excelente versão em quadrinhos

História do guerrilheiro volta a ter destaque no momento em que sua figura icônica é questionada pelas novas gerações a partir de pautas identitárias


09/06/2023 04:00 - atualizado 08/06/2023 23:04
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Che Guevara quadrinhos
Che Guevara: ícone tornou-se muito maior do que o homem (foto: Reprodução)
Idolatrado ou abominado durante décadas, o guerrilheiro argentino Ernesto Guevara de La Senna (1928-1967), o Che Guevara, quase meio século após a sua execução a sangue frio nas matas bolivianas, tem sua figura icônica revista negativamente, considerando-se que o velho embate ideológico direita x esquerda foi acrescido das pautas identitárias. Em meio a essa mudança que atropela o contexto histórico em nome também do politicamente correto, chega ao mercado brasileiro a HQ “Che: Uma vida revolucionária”, do ilustrador e caricaturista mexicano José Hernández, que adaptou para quadrinhos a obra “Che Guevara: Uma biografia”, lançada em 1997 pelo jornalista americano Jon Lee Anderson, especializado em conflitos e guerras. Anderson orientou pessoalmente a HQ de Hernández lançada em 2016 e disponível agora no país pela editora Quadrinhos da Cia., com tradução de Julia Codo. A adaptação, embora muito resumida, da contundente trajetória de Che Guevara, impressiona mesmo é pela fidelidade dos traços de Hernández na reprodução fisionômica do próprio protagonista e do líder cubano Fidel Castro e pela ambientação e reconstrução de lugares onde o argentino esteve.

O ícone Che Guevara tornou-se muito maior do que o homem Che Guevara. É Anderson quem assina o prefácio da HQ e vai direto ao ponto na relevância de Che, entre admiradores e detratores, devido ao seu idealismo para tentar libertar povos oprimidos do imperialismo colonialista. “Che Guevara é uma figura incomparável no mundo moderno. Desde a sua morte em 1967, aos trinta e nove anos, o revolucionário argentino conquistou um legado póstumo de dimensões tão populares quanto mitológicas em todo o mundo”, diz o biógrafo.

“Mais do que qualquer outra figura cultuada na contemporaneidade, mais do que Elvis, Marilyn Monroe, Messi ou Lady Gaga, do que Mao Tsé-Tung ou qualquer retrato pop de Andy Warhol, a imagem gráfica de Che – sobretudo o rosto implacável retratado por Korda [Che com a boina fotografado pelo cubano Alberto Korda em 1960], se transformou provavelmente na imagem humana mais conhecida do mundo”, afirma Anderson.

O guerrilheiro é reverenciado como “São Che de la Higuera” na aldeia boliviana onde foi assassinado e reproduzido em representações gráficas como a reencarnação de Cristo em sua agonia, devido à exposição do seu cadáver estirado na lavanderia para onde foi levado. Há também documentários, músicas, peças teatrais e incontáveis objetos e camisetas mundo afora com o rosto de Che.

O belo trabalho de Hernández na HQ aumenta essa curiosidade. A obra é dividida em três partes: “O dr. Guevara”, “Cuba” e “Os sacrifício necessário”, com cores distintas para cada fase da vida de Che. E começa com a seguinte epígrafe: “Minha casa sobre rodas voltará a ter dois pés, e meus sonhos, nenhum limite, ao menos até que as balas se manifestem”. As primeiras aspas do livro são uma reflexão que surgem durante um sonho do jovem Ernesto: “O futuro pertence ao povo. E pouco a pouco ou de uma só vez, ele vai tomar o poder, aqui e em todo o mundo”. Partindo daí, Che cursa medicina em Buenos Aires, depois abandona a casa dos pais e sai por um mundo já influenciado pelas revoluções comunistas consolidadas na União Soviética e na China até se integrar ao grupo de outro jovem, Fidel Castro, empenhado em derrubar Fulgêncio Batista – que, nas palavas do cubano, transformara a ilha caribenha num “prostíbulo” –  e fazer a Revolução Cubana.

José Hernández mostra a trajetória de Che com uma impressionante riqueza de detalhes cenográficos para ambientar as ações em cada quadro da HQ. São bem explorados graficamente a amizade e os diálogos com Fidel Castro e outros revolucionários, sua vida como pai ausente na vida dos filhos, a luta armada em Cuba, as frequentes crises de asma, a sua “loucura” ingênua em achar que poderia espalhar a revolução da ilha para a África – mais especificamente no Congo – e para a América, sem logística, armas e homens suficientes para enfrentar situações completamente adversas, tudo em nome de um idealismo utópico que culmina com sua captura e execução na Bolívia, em 1967. E ainda mais, o enterro do seu corpo em local desconhecido para evitar mitificação. Os restos mortais de Che só foram encontrados e exumados quase 30 anos depois, em 1995. Nada impediu a perpetuação da lenda revolucionária, muito além do homem.



NOVOS TEMPOS


Mas nem tudo é “ternura”. No prefácio da HQ, Jon Lee Anderson destaca também que a adoração popular tem um lado inverso que aponta Che como psicopata e assassino. Afinal, Che foi responsável por julgamentos sumários e pelotões de fuzilamento de 300 inimigos – a maioria torturadores e assassinos do regime de Fulgêncio Batista em Cuba. “Em Miami, há uma senhor de origem cubana que assumiu a tarefa de minar a imagem positiva de Che, denunciando-o como assassino sádico, inclusive psicopata, se dedicando a atacar celebridades vistas com camisetas estampadas com o rosto do guerrilheiro”, conta Anderson. “Outro exilado cubano, o ex-agente da CIA [Central Intelligence Agency dos Estados Unidos] Félix Rodriguez – que deu a ordem para a execução de Che – também tem uma fixação pelo homem cuja morte o fez famoso”, relata o biógrafo.

Mas, atualmente, não são apenas os tradicionais opositores de Che Guevara ou quem é de direita que o criticam. Defensores de pautas identitárias, principalmente jovens, fazem revisionismo, inclusive em nome do politicamente correto, sem considerar a época em que o revolucionário viveu. Jon Lee Anderson lembra que “nenhuma figura política perdura no tempo eternamente” e que “novas gerações relembram e revisam as memórias desses personagens, julgando-os com olhos frescos”. Seria o caso da suposta homofobia de Che Guevara. “Tal preocupação é produto, claro, de uma geração cujas percepções políticas e sociais foram formadas em uma época menos marcada por noções de direita e esquerda do que por questões de identidade sexual e de gênero”, avalia Anderson.

“Por encarnar o eterno modelo de rebeldia juvenil, a figura de Che Guevara talvez evoque, mais do que outras, a necessidade de ser revista sob as lentes de cada geração. Como explicar Che a jovens que, ao contrário dos que viveram na década de 1960, não são capazes de se imaginar empunhando um fuzil para lutar por suas ideias? Para uma geração mais acostumada a viver a experiência da resistência com cliques em i-Phones do que saindo às ruas, a vida de Che sempre será reveladora”, considera Anderson.

O biógrafo ressalta ainda Che Guevara foi um homem de carne e osso e como tal, em contexto de revolução e guerra, matou outras pessoas. Era um jovem argentino, bem-nascido, formado em medicina, que decidiu pegar em armas para tentar mudar o mundo que considerava injusto. Em entrevista ao jornal El País no lançamento da HQ em Guadalajara, no México, Anderson contou que Che Guevara não sabia dançar, era surdo para música, inclusive tango. Não ingeria bebida alcoólica porque complicava sua asma. “Era um monge em um país sensual. Aos domingos ia cortar cana para dar exemplo. Na ilha, deviam pensar: ‘Caramba, esse é o cara mais chato que veio a Cuba!’”

Já em entrevista em março deste ano ao jornal O Globo, Anderson também fala das gerações de hoje. “Nos últimos anos, foi interessante ver esse tipo de política identitária entrando nos debate sobre Che. Outro dia, me espantei quando um jovem me entrevistou e só lhe interessava saber se Che era assassino, homofóbico e racista. De fato, há certas opiniões sobre raça e sobre gays atribuídas a Che, mas foram feitas quando ele era adolescente. Como todo mundo, ele é uma figura que evoluiu com o tempo, e esses comentários deixaram de representá-lo depois”, disse o biógrafo.

Anderson reafirma que ainda se surpreende por ter de explicar hoje um fato histórico que parece óbvio: revolucionários matavam, embora “isso não fosse necessariamente fácil ou prazeroso” para eles. “Quando certa vez me vi explicando isso ao vivo em rede nacional, percebi pela primeira vez que estávamos entrando nesse novo mundo. Esse ringue das redes sociais em que pessoas são avaliadas instantaneamente. Hoje, se julga a vida toda de uma figura histórica por única declaração. Não é nem mesmo por uma ação, mas por uma frase dita na adolescência. Se formos por aí, teríamos que cancelar quase todo mundo”, conclui o biógrafo de Che Guevara.
 

“Che: Uma vida revolucionária”

  • José Hernández
  • Tradução de Julia Codo
  • Quadrinhos da Cia.
  • 440 páginas
  • R$ 109,90 (impresso)
  • R$ 54,95 (digital) 


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