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Estado de Minas

Uma vida nada ociosa


17/06/2022 04:00

Os dias são longos, arrastam-se. Uma lentidão “deliciosamente aborrecida”, em que tédio e prazer da indolência se entrelaçam. A rotina traz marcas idênticas: o chão intumescido por pétalas roxas; a porteira frígida; a curva do rio rasgando campos semeados de cupins; o animal arreado, “tosando a relva”, à espera de alguém; a vendola à beira da estrada, mais frequentada por maribondos; a esperada visita noturna de uma formiga... enfim, a fazenda. “Vida ociosa” está entre as quatro obras de Godofredo Rangel (1884-1951) reeditadas e reunidas em dois volumes que serão lançados na próxima segunda-feira (20/6), na sede da Academia Mineira de Letras. Dentro da proposta de valorização da literatura mineira, a edição especial também compila os romances “A filha”, “Falange gloriosa” e “Os bem-casados”, do autor. 

Os dois volumes reproduzem textos de Antonio Candido e Autran Dourado, que prefaciaram edições do autor, respectivamente, de 1955 e 2000, além de texto de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1952, homenagem póstuma a Godofredo Rangel. Além da cronologia da trajetória do escritor, o segundo volume é prefaciado pelo escritor e artista plástico Márcio Sampaio, curador da obra de Godofredo Rangel. A releitura do autor mineiro se viabiliza por convênio firmado entre a academia, a Escola Judicial Desembargador Edésio Fernandes (Ejef), o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) e a Associação dos Magistrados Mineiros (Amagis).  
 
Godofredo Rangel
(foto: quinho)
 
“Vida ociosa” foi apresentada ao público pela primeira vez em capítulos, entre 1917 e 1918, no Estadinho, edição vespertina do jornal O Estado de S. Paulo. A obra foi editada na íntegra em 1920 com o subtítulo “Romance da vida mineira”, pela Revista do Brasil, dirigida por Monteiro Lobato (1882-1948), “amigo de escrita”, com quem Godofredo Rangel manteve profícua troca de correspondência por mais de quatro décadas, entre 1903 e 1948. Ao fim do último capítulo do romance, Lobato escreveu a Rangel, na ocasião juiz de Direito em Machado e Santa Rita do Sapucaí, vivendo nesta cidade do Sul de Minas: 

“Acabo de ler o último capítulo de ‘Vida ociosa’. Se algum tranca me disser que não és o sucessor de Machado de Assis, leva bofetada nas ventas. Ninguém é juiz em matéria própria. Teu juízo sobre a ‘Vida’ é suspeito, não tem valor legal nenhum. Os outros é que têm de dizer, como eu, que aquilo é uma obra-prima de psicologia e realismo das mais puras. Depois dos livros de Machado, nada apareceu em nossas letras que a iguale. Quero ter a glória de ser o primeiro a dizer que a ‘Vida ociosa ‘só pode figurar em nossas letras junto ao melhor de Machado. E se depois de publicado o livro o mundo inteiro não disser a mesma coisa, paciência: é que o mundo inteiro é uma grande besta.”

As cartas de Lobato para Rangel foram publicadas em 1944 pela Companhia Editora Nacional, de São Paulo, no livro “A barca de Gleyre: Quarenta anos de correspondência literária”. Iniciam-se em 9 de dezembro de 1903, quando o estudante de direito Monteiro Lobato escreveu ao amigo Godofredo Rangel: “Sigo logo para a fazenda e quero de lá corresponder-me contigo longa e minuciosamente, em cartas intermináveis – mas é coisa que só farei se me convencer de que queres realmente semelhante coisa”. Estudantes de direito em São Paulo, Lobato e Rangel integraram o grupo literário Cenáculo, que se reunia na casa alugada por Rangel na Rua 21 de abril, no Belenzinho, apelidada de Minarete porque, à semelhança destas torres nas mesquitas, da sacada do imóvel descortinava-se bela vista de São Paulo.

O extenso volume de cartas e confidências literárias entre Lobato e Rangel foi, nos primeiros anos da década de 1940, mutuamente restituído aos respectivos remetentes, segundo proposta de Lobato. Assim nasceu “A barca de Gleyre”, que alcançou o primeiro escalão da literatura brasileira. Entretanto, à exceção de uma pequena amostra em edições do Suplemento Literário de Minas Gerais, publicada em 1984 por ocasião do centenário de Godofredo Rangel, as cartas do mineiro a Lobato permanecem inéditas. Rangel nunca quis torná-las públicas, considerando-as apenas uma provocação ao amigo, assinala, ao prefaciar o segundo volume da edição, Márcio Sampaio, que foi casado com a artista plástica Eliana Rangel, neta de Godofredo. 

Romance autobiográfico


 “Vida ociosa” é romance autobiográfico. Foi escrito quando Godofredo Rangel exercia a função de juiz municipal em Machado e em Santa Rita do Sapucaí. Retrata a vida do interior mineiro, onde um único dia desliza por dezesseis dos 21 capítulos da obra. O narrador protagonista, o advogado doutor Félix, perscruta a alma do fato irrelevante, previsível. Ao mesmo tempo, o contraste entre a opulência da linguagem de quem narra sem pressa, parece em permanente descompasso com a simplicidade da vida na roça, de quem cuida incessantemente das galinhas, da pesca, das redes, fatos que, pela repetição, espelham a falta de grandes acontecimentos. É assim que, em câmera lenta, nada acontece. Só a vida que segue, suave, na banalidade das cores, sabores e cheiros das fazendas mineiras. 

Entre o tédio e o prazer do ócio de uma vida bucólica e previsível, doutor Félix se torna amigo de uma família de gente humilde, do campo: o casal de idosos Próspero, a sua esposa, siá Marciana, e o filho Américo. Félix é tratado com grande afeto pelos velhos e como irmão por Américo, pessoa muito inteligente e idealista. Em suas visitas, o advogado discorre sobre filosofia e ciência; ouve os casos do campo sobre as caçadas, as pescarias e os animais domésticos. Em cada uma das visitas à família pobre, Félix deixa um saquinho de moedas. Félix é idolatrado e referência intelectual de Américo, que começa a ensinar as crianças da região a ler e escrever, além de ministrar os rudimentos das ciências. Um dia, Félix recebe em seu escritório a inesperada visita da família de Próspero, quando lhe revela que sempre guardara as moedas recebidas ao longo dos anos para lhe presentear. Félix fica emocionado com o presente, um lindo anel, e o encara como uma lição contra a sua vaidade, uma certa transigência orgulhosa com que frequentara a casa da família aqueles anos todos. Em retribuição, mostra um documento em que conseguira nomear Américo como professor de ensino básico em um grupo escolar que seria construído na região.

A carreira literária de Godofredo Rangel foi marcada pela discrição, nas palavras de Carlos Drummond de Andrade, associada à figura de homem retraído, cortês e “humilde de natureza”. Antonio Candido situa Godofredo Rangel, ao lado de Amadeu de Queiroz, Eduardo Frieiro, Cyro dos Anjos, na categoria de “calígrafos”. São eles apurados no estilo, medidos na composição, discretos na psicologia. “Sob muitos aspectos semelham de fato um grupo de calígrafos, profundamente sensíveis à beleza formal da página, trazendo à escrita uma aplicação minuciosa, caprichando os traços, embelezando as palavras pelo talhe elegante da letra. Os seus livros parecem revelar a cada passo, sob a monotonia tipográfica, um original amorosamente traçado a mão, segundo a velha arte que se foi perdendo com a imprensa, depois com a máquina datilográfica, e subsiste em espírito no estilo deles, animando, como a folha perdida, mas estuante de um palimpsesto, o molde impessoal da letra de forma”, descreve Antonio Candido em prefácio de 1955, originalmente publicado em “Falange gloriosa” (Ed. Melhoramentos, São Paulo). 

 “Como um lençol subterrâneo”, a “consciência artesanal do calígrafo” está, na avaliação de Antonio Candido, presente em todas as obras de Godofredo Rangel: se em “Falange gloriosa” encontra-se “um tanto derramada”, apresenta-se mais contida e elegante em “Vida ociosa”; e, em “Os bem-casados”, “seca, em plena posse de todos os recursos”. Antonio Candido identifica nesse romance o ápice da expressão do talento de Rangel, ainda que redigido antes, “sem dúvida modificado essencialmente depois”, pois foi publicado postumamente. “Nele se equilibram finalmente o apuro impecável do estilo, a segurança da composição, a compreensão psicológica e a coragem moral de enfrentar com decisão os aspectos pouco amáveis da vida”, assinalou Antonio Candido.
 
 

“Me faz sentir e amar melhor certas páginas tuas e invejá-las”

Carlos Drummond de Andrade (Texto publicado originalmente no livro “Passeios na ilha”, de Carlos Drummond de Andrade, de 1952)
 
“Como é curioso esse halo que a publicidade lança em torno de nossos escritos! Monteiro Lobato assistiu em vida à própria glória no limite nacional do termo; entretanto, o que talvez melhor o defenderá do esquecimento vindouro, aquilo que ele nunca imaginaria servir como testemunho de um temperamento literário, menos realizado que desviado, não são seus contos nem seus romances, são as centenas de cartas que durante quarenta anos escreveu a um amigo do interior de Minas. Não sei, em nossa literatura, de correspondência mais rica do que esta, salvo a de Mário de Andrade, que não tem rival. Apenas, sentimos o silêncio estranho que secunda o correspondente Lobato, pois as cartas de Rangel não foram publicadas, e sem dúvida elas devem importar, no diálogo de quarenta anos. E aí está mais um traço a reter em sua personalidade: ele foi capaz de um diálogo literário que durou toda uma vida, e que muito provavelmente garantirá a lembrança de seu amigo. 
 
Meu cortês, meu douto, meu caro e bom Godofredo Rangel: agora que morreste, posso bem dizer que não te conheci menos porque pouco te frequentei. E se me lastimo porque a vida não me permitiu privar de tua companhia, deixa estar que nós mineiros, e entre os mineiros os de certo tipo de sensibilidade, em rigor não carecemos de presença física para a funda convivência. Abrindo ao acaso teu livrinho de contos, essas Andorinhas que cabem no bolso do paletó, encontro, entre surpreso e comovido, dois títulos que me coube quase repetir inconscientemente: “A beira-rio” (e escrevi algo chamado “Beira-rio”) e “Meu parente” (também aventurei “Meu companheiro”). Se os temas são diferentes, perdura a identidade de gosto no rotular, a maneira afim, que me faz sentir e amar melhor certas páginas tuas, invejá-las e censurar-me por não as ter escrito eu mesmo. Satisfeito porque assim te copiei aquelas palavras, faço delas uma flor, e te ofereço essa flor, velho Rangel.”
 
  

“Personagem de um dos meus romances”

Autran Dourado  (Do prefácio publicado originalmente em “Vida ociosa”, Ed. Casa da Palavra/Fundação Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro, 2000)
 
“Entre as muitas pessoas que colaboraram para a minha formação, duas foram decisivas e a elas devo o que sou: Artur Versiani Veloso e Godofredo Rangel — o filósofo e o escritor. A Veloso, o ordenamento que procuro dar à minha mente e a minha iniciação; a Rangel, o aprendizado literário, a seriedade diante da obra, a humildade, a certeza de que ela é muito maior do que a nossa pessoa, que exprimimos para criar e não criamos para nos exprimir. Quando o escritor se sobrepõe à obra, estamos diante de um homem de letras, de um homem público, melhor seria dizer; quando se dá o contrário, estamos diante de um verdadeiro artista. Foi essa a primeira lição que recebi do escritor Godofredo Rangel. A Veloso e a Rangel procurei deixar assinalada a minha dívida de gratidão dedicando-lhes o meu romance ‘Um artista aprendiz’, do qual são, com pouco disfarce e alteração, personagens. Veloso, junto com as aulas de Filosofia, me despertou o amor pelos clássicos; Rangel me ensinou que o simples amor pela literatura não basta, se ele não se apoia no aprendizado da técnica literária.”
 
 

Trechos 

 

“Vida ociosa”

“Atravesso um longo trecho do povoado, que ainda dorme na penumbra. A orla do horizonte empalidece. Cantos roucos de galos erguem-se de todos os quintais. Arvoredos sonolentos debruçam-se sobre velhas cercas, sombrios e relentados, com um fulgor de diamante negro em cada folha. A aragem corta e ligeira névoa adensa-se nas extremidades da rua. Sorvendo até o imo dos pulmões o ar úmido e frio, sinto meu sangue reagir alvoroçadamente, dando-me uma doce impressão de bem-estar. 
 
A estrada. Um resto da melancolia da noite ainda se exprime no cricrilar transnoitado dos últimos grilos; em compensação, o hesitante rangido com que as primeiras cigarras ensaiam a música do dia, o crescendo de pios e gorjeios na grande mata do outro lado do rio, anunciam o dia que alvorece. 
Essa hora exerce sobre mim efeitos contraditórios. Às vezes acabrunha-me, intumesce-me o coração com velhas recordações imprecisas; há em minha alma o renascer de sensações antigas, e que de longínquas jaziam em letargo, como mortas. Para despertá-las basta um quase nada: um reflexo alvacento num alagadiço, um voo ondulante de pássaro, o sussurro da viração nas folhagens…” 
 

“A filha”

“Quando ele recomeçou a ver a vida comum, com os seus pequenos seres e os meandros de suas pequeninas preocupações, tomou-o uma impressão de espanto, por ver que fora do mundo de seus sentimentos havia o que quer que fosse real. O universo não era um imenso deserto! E, sentindo-se ainda muito longe, via confusamente em torno a si o formigar dos ínfimos humanos. Colhia-o a surpresa de quem, através de um telescópio, visse surgir da calma luminosa de um astro a complexa agitação da vida, num mundo semelhante a este, ao qual o afastamento funde no reflexo pálido que nossos olhos contemplam. Reconhecia os lugares e pessoas, reentrando na normalidade da existência habitual. Via o descalabro em que iam seus negócios, esforçando-se debalde a fazê-los prosperar. Na luta da vida, ele fora o soldado posto fora do combate e que, volvendo depois, encontra nas fileiras seu posto preenchido. Enquanto jazera na torre da alucinação, os liliputianos eliminaram-no; e, como se isolara para sofrer, via-se agora só, no conflito de interesses, contrastado por adversários astutos e fortes. Mas não o abatia tanto essa hostilidade, no que tinha de lesiva, como o triste espetáculo da desenfreada cobiça. Oh, os pequeninos seres, os ínfimos embriões!
 
Cada qual era uma potência. E cada qual era um inimigo, trazendo consigo, como uma vespa, sua dose de peçonha e pronto a instilá-la em seu opositor.”
 

“Falange gloriosa”

 Pintar o amargor dos primeiros desânimos do moço é folhear um livro torturante. Como começaram a apontar-lhe n’alma? Eram a exaustão de um físico depauperado, arcabouço sem vísceras, que revertera seu potencial em energia radiante? Talvez o alquebramento do viageiro sedento que no deserto vê a miragem de palmeiras e cascatas furtar-se-lhe à aproximação, negaceando-lhe de novo em remontados horizontes? Ou seria antes a visualidade desanimadora da realidade entrevista? Pois Navarro, malgrado o progresso dos alunos, queria absurdamente mais progresso, progresso indefinido; e, para desconcertar o professor feliz que assistia confiante ao seu meticuloso interrogatório, engendrava perguntas ambíguas, capciosas, em cujas malhas apresava os alunos incautos; e saía sobre o fiasco, com a visagem contrafeita de quem não se impressionou bem.
Era visível seu expediente.
 
Depois desse vislumbre da realidade, Ricardo não se aforçurava menos no cumprimento do dever; no entanto, carecia de um esforço crescente para se conservar na mesma altitude; e, sem embargo de sua ardente vontade de pagar ao Navarro o muito que lhe devia, no que envolvia ao mesmo tempo um preito de amor ao seu querido morto, começava a sentir descorajamento e tédio da sua dedicação estéril, e um como fermento de protesto. Algo de instintivo e indomável dentro de si queria rebelar-se enfim, sendo preciso, para sopear-lhe os assomos, a mão firme que obriga a mola de aço a manter enroscadas suas espirais elásticas. Por esse tempo Meira foi encontrá-lo um dia deitado, depois da hora regimental do levantar; não dormia; seu olhar vago espraiava-se por visões misteriosas, e estava tão embebido nelas, que estremeceu num sobressalto, sentindo a mão que lhe pousava na cabeça.
 
— Cumpra o seu dever — sussurrou-lhe o subdiretor.”
 

“Os bem-casados”

“D. Alípia era muito econômica. Se descobrisse um erro, por pequeno que fosse, nas contas que os filhos da fazenda lhe prestavam, era certo repreendê-los severamente; e, como nada lhe passava despercebido, eles tinham o máximo cuidado de explicar o emprego de cada vintém. Não fazia roupas novas para os moços. Eles vestiam as que haviam servido ao pai. O corpo não era exatamente igual, mas — ora! — um refego aqui, uma ensancha aproveitada ali, e iam prestando. Para aproveitamento dessas roupas havia uma espécie de hierarquia a observar. Ocupava-as primeiro o Afonso, por ser de mais idade e consideração; depois de algum tempo, passava-as ele ao Cosme, que por sua vez as herdava a Pedrinho — e em tal estado, que ninguém diria que aqueles tristes restos serviram um dia para ocultar as secretas nudezas do Dr. Lopes Coutinho. Em certas ocasiões os filhos, mordidos de ciúme, protestavam contra o esbanjamento de roupas novas para o Juca, o filhinho querido que ainda gozava a regalia de morar na povoação.
 
— Mas o Juca vai seguir os estudos, meus filhos — explicava D. Alípia —, precisa, por isso, apresentar-se com mais decência.

 
— Há de seguir mas é uma figa! — resmoneavam os descontentes, que tinham razões sólidas para descrer das esperanças maternas.
Eram, porém, rebeldias de momento. Aquietado o assomo de ciúme, eles se submetiam dóceis ao estatuto econômico com que a matrona os regia.” 


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