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Estado de Minas PENSAR

Último livro de Leonard Cohen reúne versos, desenhos e anotações

Morto em 2016, poeta e cantor canadense escreveu como poucos no século 20 sobre paixão, religiosidade e morte


03/06/2022 04:00 - atualizado 03/06/2022 03:29

Leonard Cohen em um de seus últimos shows
Leonard Cohen em um de seus últimos shows: a criação poética precedia a criação musical (foto: Josep Lago/afp)


A chama de Leonard Cohen se apagou em 7 de novembro de 2016, mas a velha alma ardente permanece viva em sua música, sua poesia e no extraordinário poder agregador de suas palavras. A cada vez que seus versos emanam de alguma fonte e se misturam ao ar, é como se aquela voz profunda e sedutora voltasse a soar. É o que acontece agora, quando a Companhia das Letras lança seu livro derradeiro, cujo título é justamente “A chama”, com tradução de Caetano W. Galindo. 

“Meu pai era, acima de tudo, um poeta”, observa o filho de Leonard, Adam Cohen, também compo- sitor, um dos organizadores do livro e quem lhe deu o título “The flame”. “Escrever era sua razão de existir. Era o fogo que ele mantinha aceso”, afirma no prefácio. Nascido em 21 de setembro de 1934 em Montreal, no Canadá, de influente família judaica, Leonard Cohen encontrou a poesia ainda na adolescência. Ao lançar seu primeiro álbum de canções, em 1967, já havia publicado quatro livros de poesia e dois romances. 

“As letras das músicas de Leonard sempre tiveram relação mais própria com a página do que, por exemplo, as de Bob Dylan”, diz Caetano W. Galindo, também tradutor de Dylan. Ele explica que seu projeto de tradução reflete a preocupação com a forma dos poemas, a tentativa de responder à variabilidade de rimas, metros e desvios métricos. 

“Eu sempre trabalhei / E nunca disse que era arte / Financiava a depressão / Vendo Jesus e lendo Marx / Minha fogueira fracassou / Mas essa chama ainda é forte / Relate ao jovem messias / que o coração se parte”, brada Leonard logo no primeiro poema do volume, “O coração se parte”.  

A poesia e a música de Leonard Cohen estabelecem imediato vínculo entre ele e o leitor/ouvinte, talvez por serem construídas sobre sua própria intimidade. Tudo que Leonard fez tem forte tom autobiográfico. Pode levar o ouvinte às lágrimas, ao cantar seus males de amor embalados por crises de depressão, ou fazê-lo sorrir ao ironizar consigo próprio (“Adoro conversar com Leonard / Ele é um atleta e um bom pastor / É um preguiçoso desgraçado / que mora num terno” – “Indo pra casa”, do álbum “Old ideas”, de 2012). 

Leonard não finalizou o livro, mas deixou instruções quanto à sua organização. Aos 82 anos, ele sofria o enfraquecimento do corpo e muitas dores, provocadas por uma leucemia, aliviadas com a prática da meditação. Deixou 63 poemas que considerava finalizados, trechos de cadernos de anotações, incluindo frases, estrofes, versos e o que chamou de “retalhos”, e sugeriu que fossem incluídos desenhos e autorretratos. Assim foi composto o livro, acrescido de letras das canções de seus últimos álbuns e do discurso que fez na Espanha, ao receber o mais importante prêmio literário daquele país, o Príncipe das Astúrias. 

Os leitores de “A chama”, especialmente aqueles que têm familiaridade com a obra de Leonard Cohen, vão perceber que este livro, como tudo o que fez, vem de suas entranhas. Organizado e editado pelos professores e amigos Robert Faggen e Alexandra Pleshoyano, além do filho Adam, é um encontro final com um profeta de si mesmo. Assim como outros encontros finais, como os álbuns “You want it darker”, lançado poucos meses antes da morte de Cohen, e “Thanks for the dance”, que ele também deixou encaminhado, mas não viu pronto. 

“Thanks for the dance” (“Obrigado pela dança”) é um poema que ele fez para a cantora havaiana Anjani Thomas, sua parceira e uma das muitas mu- lheres de sua vida. O poema aparece em duas versões no livro, diferentes de uma terceira que compõe o disco póstumo de Leonard. Neste, embora as canções tenham arranjos instrumentais sofisticados, Leonard praticamente não canta, apenas declama. São suas últimas gravações, e o álbum foi lançado em 2019, um ano depois da primeira edição de “A chama”, pu- blicada simultaneamente no Canadá, Estados Unidos e Reino Unido. Dos nove poemas/canções do CD, apenas três foram incluídos no livro. 

As letras das canções de “Blue alert” (“Alerta azul”), de Anjani Thomas, produzido por Leonard e lançado em 2006, estão na segunda parte de “A chama”, assim como as de “Old ideas” (“Ideias antigas”) de 2012, “Popular problems” (“Problemas po- pulares”), de 2014, e “You want it darker” (“Você quer mais escuro”), de 2016, estes do próprio Leonard. 

“Como a névoa não marca / O morro verde-escuro / Assim meu corpo não marca / O seu, nem no futuro / (...) / Como as noites, perdurando / Sem astros, sem luar / Assim nós, perdurando / Quando um se apagar” – (“A névoa”). Sempre com lirismo, Leonard Cohen tratou nos textos de “A chama” de uma diversidade de temas, frequentes em suas preocupações existenciais. Em tom quase sempre melancólico e às vezes irônico, há referências ao judaísmo e ao holocausto, à religiosidade, à senilidade, à morte. Questões sociais e históricas, perso- nagens bíblicos, homenagens a amigos próximos são temas presentes. O mosteiro de Mount Baldy, onde Leonard viveu cinco anos como monge bu- dista, e seu líder, o monge japonês Roshi, que morreu em 2014, aos 107 anos, também são lembrados. 

Leonard Cohen escrevia aos jorros, como se deduz dos “Cadernos de notas”, e sua criação poética precedia a criação musical. É interessante ler suas reflexões sobre poesia, expostas no discurso que leu ao receber o Prêmio Príncipe das Astúrias. “Sempre tive ideias ambíguas a respeito de prêmios de poesia. A poesia provém de um lugar que ninguém controla e ninguém conquista. Portanto, me sinto um pouco como um charlatão ao aceitar um prêmio por uma atividade que não controlo. Em outras palavras, se eu soubesse de onde vêm as boas canções, visitaria mais vezes esse lugar.” 

Leonard esperava a chegada da morte e se preparou para ela, usando a energia criativa para manter-se vivo enquanto necessário para a conclusão do livro. Desde que lançou “You want it dar- ker”, com o verso “Estou pronto, meu Senhor”, isso já não se discutia. “Eu rezo por coragem / Que consiga / A morte vem chegando / Como amiga”, diz o poema “Eu rezo por coragem”. Se o tempo passou depressa e não permitiu que muitos poemas se tornassem música, ao menos o livro “A chama” nos traz um pouco desse jorro que eternizou o artista Leonard Cohen. Embora sintamos falta de sua voz marcante, temos aí sua caligrafia, seus desenhos e autorretratos, sua personalidade exposta sem qualquer autocensura. É a presença possível de uma vida feita de música e poesia.

Poemas de Leonard Cohen, com tradução de Caetano W. Galindo 

Banjo 


Tem algo que olho 
A que dou significado 
Um banjo que boia 
No mar infestado 

Como chegou não sei 
Talvez levado pela onda 
Do ombro de alguém 
Ou de tumba hedionda 

Vem me pegar, amor 
Mesmo se eu me esconder 
Pretende me ferir 
Pretendo só saber 

Tem algo que olho 
A que dou significado 
Um banjo que boia 
No mar infestado 

Rouxinol 

No mato ergui minha cabana 
Pra então te ouvir cantando 
E era doce, era bacana, 
E o amor só começando 

Adeus, adeus, meu rouxinol 
Há anos vim te achar 
O teu agora é só bemol 
A mata vem cercar 

Um véu já tolda o arrebol 
Quando me chamarias 
Descansa em paz, meu rouxinol 
No ramo de azevinho 

Adeus, adeus, meu rouxinol 
Vivi só pra te achar 
Embora ainda cantes sob o sol 
Não posso te escutar 

A aparente turbulência 

Você foi a última mulher jovem 
que me olhou daquele jeito 
E quando mesmo 
algum momento entre 11/9 e o tsunami 
Você olhou para o meu cinto 
e aí eu olhei para o meu cinto 
você tinha razão 
nada mau 
aí voltamos às nossas vidas. 
Eu não sei da sua 
mas a minha é curiosamente tranquila 
por trás da aparente turbulência 
dos litígios e da idade que avança 

Metade de um mundo perfeito 

Toda noite ela vinha me encontrar 
Eu cozinhava e lhe servia chá 
Ela não tinha quarenta anos feitos 
Ganhou dinheiro, morou com uns sujeitos 

Deitados, nos entregávamos inteiros 
Cobertos pelo branco mosquiteiro 
E como havia cômputo nenhum 
Vivíamos mil anos em um 

Que as velas queimem 
Que a lua impacte a 
Colina lisa 
Cidade láctea 
Translúcida, leve, luminosa 
Desvele a dupla nossa 
Naquele solo sem defeitos 
Onde o amor é liberto, direto, 
Direito 
Onde há metade de um mundo perfeito 

* Alexandre Marino é jornalista e poeta, autor dos livros “Arqueolhar” e “Exília”

capa dop livro 'A chama'

“A chama”
De Leonard Cohen
Tradução de Caetano W. Gallindo
Companhia das Letras
608 páginas
R$ 99,90


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