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Estado de Minas PENSAR

Versos livres: coletânea repassa a escravidão na poesia brasileira

Poemas de Cruz e Sousa, Luís Gama, Castro Alves e Carlos de Assumpção estão no volume, que aborda do século XVII ao XXI


13/05/2022 04:00 - atualizado 13/05/2022 14:21

Ilustração

Mais da metade da história do Brasil é marcada pela escravidão. Pouco tempo depois da chegada dos portugueses por aqui, em 1530, começou o sistema escravista que explorava a mão de obra e desumanizava as pessoas negras. Foram três séculos e meio desse regime de horror, que matou e torturou milhares de africanos e seus descendentes, sendo oficialmente extinto apenas em 1888. Pela força do tema, muitos escreveram sobre essa página de barbárie da história brasileira. Os poetas foram agora reunidos na antologia “A escravidão na poesia brasileira do século XVII ao XXI” (Record), organizada pelo poeta e ensaísta carioca Alexei Bueno.

“O Brasil foi criado sobre esta que é a pior das relações sociais, milenar e universal, mas que aqui sobreviveu além de qualquer outro país do Ocidente. Só isso explica a fascinante continuidade do tema, por cerca de três séculos e meio e até a atualidade, mais de 130 anos após a sua desaparição legal”, afirma Alexei, que já organizou outras coletâneas, como a edição bilíngue de “Cinco séculos de poesia” (2013). “A escravidão na poesia brasileira” reúne preciosidades como “O navio negreiro”, de Castro Alves, “Hino à liberdade dos escravos”, de Maria Firmina dos Reis, e “Sabina” de Machado de Assis. A antologia traz poemas de Cruz e Sousa, Luís Gama, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade e Ariano Suassuna.

Ainda os necessários poemas de Carlos de Assumpção, que inspira gerações de escritores negros e ativistas da luta antirracista: “Protesto” e “Meus avós”. E ainda há nomes de poetas em plena produção, como o premiado mineiro Edimilson de Almeida Pereira, com o poema “Cemitério marinho”. 

O organizador faz questão de ressaltar na introdução que se trata de um livro de poesias, e não de história, publicações que comumente abordam o tema escravidão. Mas mesmo sem essa pretensão, o volume apresenta uma bela cronologia da poesia brasileira que demonstra como o tema foi abordado ao longo dos séculos.

A busca de Alexei começou na própria biblioteca, que conta com 20 mil volumes, depois a imersão seguiu na hemeroteca da Biblioteca Nacional, em que ele teve contato direto com os livros ou em publicações da imprensa, nas quais foram publicadas uma infinidade de poemas nunca reunidos em livros. 

Alexei reúne, a partir dessa pesquisa, 80 poetas que tiveram algum aspecto da escravidão retratado nos poemas, apresentados na ordem cronológica de nascimento. Como o livro reúne poesia de cinco séculos, de três séculos e meio do sistema escravagista e mais de um depois da abolição, há uma variação da ortografia nos textos. Porém, a escrita original foi mantida pelo organizador a não ser quando representava algum entrave no valor expressivo. 

No ensaio introdutório, o organizador apresenta os poemas a partir de nove grupos semânticos: o exílio forçado; a travessia atlântica; as sevícias físicas; a profanação da mulher; a separação das famílias; as revoltas e fugas; Palmares, Zumbi e outras figuras; reações às leis e, por fim, o túmulo do escravo.

Em “O exílio forçado”, os poemas retratam a vinda dos africanos para cá. O organizador destaca o poema “A escrava”, de Gonçalves Dias, que traz referência ao Congo. Outro poeta a tratar desse tema é Luís Delfino no poema “A filha d’África”.

Na sequência vem a “A travessia atlântica”, tema esse que abarca o poema mais célebre de todos os poemas brasileiros sobre a escravidão, “O navio negreiro”, de Castro Alves. Na temática “As sevícias físicas”, os poemas mostram o horror, medo, indignação, curiosidade em relação à tortura e maus-tratos. Os textos fazem menções aos instrumentos de tortura, do tronco à gargalheira, da palmatória ao libambo, do vira-mundo ao azorrague, grilhões e correntes.

Outro tópico, “A profanação da mulher”, mostra as atrocidades feitas pelos senhores às mulheres negras. Os poetas ainda tratam da separação das famílias pela venda, no tópico “A separação das famílias”. Ainda tratam da exploração dos velhos. Um  dos poemas mais fortemente ligados ao tema é “Verba testamentária”, de Melo Morais Filho. Outra parte, “As revoltas e fugas”, abrange o poema “Fugindo ao cativeiro”, de Vicente de Carvalho. 

Alexei também selecionou os poetas a partir de “Palmares, Zumbi e outras figuras míticas”. “Se a presença dos quilombos é relativamente limitada na poesia brasileira sobre a escravidão negra, a presença mais importante é, evidentemente, a de Palmares, o quilombo por antonomásia, não poucas vezes chamado de “república”, embora de um reino se tratasse, o que é um dos fatos sobejamente reconhecidos no pouco que realmente se sabe sobre o grande evento histórico.” Ainda há poemas na temática “Reações às leis” e “O túmulo do escravo”. Um exemplo é o poema de Gilberto Freyre, “História social: Mercado de escravos”. 

A seguir, confira a entrevista com o poeta e ensaísta carioca Alexei Bueno.

O que motivou a organização da coletânea?
De início, um velho interesse meu pelo assunto, assim como a proximidade com alguns poetas bastante ligados ao tema, como Castro Alves e Cruz e Sousa. Entre outras coisas, fui o curador da exposição do sesquicentenário de Castro Alves, em 1997, que foi inaugurada em Salvador e depois percorreu outras seis capitais. Quanto a Cruz e Sousa, em 1995, fiz uma vasta atualização da sua “Obra completa”, a partir da edição do centenário, organizada por Andrade Muricy, e fui curador, em 1998, da exposição do centenário da sua morte, na Biblioteca Nacional, bem como organizei a sua primeira edição em Portugal, lançada ano passado, no Porto: uma antologia longa, que me parece de grande importância. Comecei a compilar os textos antes da pandemia, mas o tempo vago criado por ela foi fundamental para a sua realização.

Ao longo dos séculos, o tema “escravidão” é abordado de formas diferentes pelos poetas?
Muito diferentes. Na colônia, ela surge como uma realidade natural, um fato socialmente normal que é apenas descrito, caso de Gregório de Matos. Já em Alvarenga Peixoto, encontramos uma inesperada apologia dos cativos, da força do seu trabalho, comparando-os aos heróis da Antiguidade clássica. Com Tomás Antônio Gonzaga, em certos trechos das “Cartas chilenas”, se delineia pela primeira vez uma visão crítica. No período do Romantismo abolicionista, que é de uma riqueza enorme, embora dure apenas cerca de quatro décadas, passamos a uma crítica militante, violenta. Com o modernismo há um vasto retorno ao tema, em outro tom, e, a partir de meados do século 20, surge uma forma diversa de visão crítica retroativa, que de certa maneira continua vigente.

Como a escravidão é apresentada?
De todas as maneiras possíveis e imagináveis, desde a maior indignação até o quadro de gênero, às vezes idílico. Essa extrema variedade é um dos motivos de fascínio de uma reunião tão vasta, cronologicamente e no número de poetas, que, por isso mesmo, acompanha as mudanças de visão no tempo, e as visões totalmente diversas entre exatos contemporâneos.

Podemos traçar o perfil dos poetas que entraram na coletânea?
Não posso dar aqui o perfil de cerca de 80 poetas espalhados por três séculos e meio, isso tomou mais de 130 páginas do livro. O importante é que cerca de metade dos maiores poetas brasileiros escreveram sobre o tema. Minas Gerais está bem representada da colônia até a atualidade, pois nela estão, entre outros, embora nem todos mineiros de nascença, desde os já lembrados Alvarenga Peixoto e Tomás Antônio Gonzaga, até Edimilson de Almeida Pereira e Iacyr Anderson Freitas, passando por Bernardo Guimarães, Alphonsus de Guimaraens, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, etc.

No século 19, como Castro Alves estabelece diálogo com outros poetas e vice-versa?
É a figura central do livro, na quantidade de poemas e na grandeza ímpar deles. Há um diálogo temático, e localizei, por exemplo, a influência muito direta de um verso de Bernardo Guimarães sobre outro verso de “A cruz da estrada”, de Castro Alves, uma das obras-primas da poesia sobre a escravidão e de toda a poesia de língua portuguesa. Vale a pena, igualmente, fazer uma comparação entre ele e o seu contemporâneo e amigo Fagundes Varela, autor de outra das obras-primas máximas sobre o mesma temática, o poema “O escravo”, talvez único na descrição do processo de destruição anímica do cativo, para além dos sofrimentos físicos, sempre mais lembrados.
Capa do livro 'A escravidão na poesia brasileira do século XVII ao XXI'
(foto: Editora Record)

“A escravidão na poesia brasileira do século XVII ao XXI”
• Alexei Bueno (organização)
• Editora Record
• 714 páginas
• R$ 78,90


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