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Estado de Minas LITERATURA

Filme e contos introduzem leitor ao fantástico cotidiano de Haruki Murakami

Conto 'Drive my car', do escritor japonês, inspirou o longa homônimo, que concorre ao Oscar de melhor filme e em outras três categorias neste domingo


25/03/2022 04:00 - atualizado 24/03/2022 23:41

Ilustraçao do escritor japonês Haruki Murakami

 "Homens sem mulheres”, livro de contos lançado em 2014, é uma boa referência para quem quer se iniciar ou já conhece a literatura do escritor japonês Haruki Murakami, de 73 anos. Não apenas porque contém “Drive my car” – que inspira o filme homônimo que concorre ao Oscar em quatro categorias (filme, direção, roteiro adaptado e longa estrangeiro) no próximo domingo e foi premiado como melhor roteiro no Festival de Cannes e com o Globo de Ouro de melhor longa estrangeiro, entre outros prêmios.

Mas por juntar realismo e fantasia, que permeiam o conjunto de suas obras. Será a primeira vez que um filme japonês concorre a melhor longa na academia de Hollywood, graças à união dos talentos de Murakami e do diretor Ryusuke Hamaguchi. O nome do conto já entrega uma das grandes preferências de Murakami: Beatles. “Drive my car” é o nome de uma canção do quarteto de Liverpool.

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“Onna no imai otoko tachi”, no original, reúne os contos “Drive my car”, “Yesterday”, “Órgão independente”, “Sherazade”, “Kino”, “Samsa apaixonado” e “Homens em mulheres”. De certa forma, sintetiza toda a obra de Murakami. Desde a narrativa simples do cotidiano dos protagonistas, com suas vidas frugais e ao mesmo tempo com relações afetivas intrincadas, entre traições e abandonos, e grande influência da cultura ocidental – que inclusive rende críticas ao autor em seu país – até o realismo fantástico, que cria mistério e dá um charme aos seus enredos. Murakami ficou conhecido no Brasil por sua curiosa trilogia best-seller “1Q84”, que envolve um casal de protagonistas às voltas com dois mundos paralelos, um real e outro fantasioso.

TRAIÇÃO E LUTO

“Drive my car”, o primeiro conto de “Homens sem mulheres”, pode ser considerado uma introdução ao filme, que aprofunda a narrativa literária. É a história de Kafuku, ator que interpreta “Tio Vânia” na peça clássica do escritor e dramaturgo Anton Tchékhov (1860-1904) – mestre do realismo russo. Ele perde a mulher, vitimada por um câncer de ovário fulminante, após 20 anos de casamento. A dor do luto se soma à dor da traição, porque Kafuku, mesmo considerando ter um casamento feliz, descobre os casos extraconjugais da mulher, com quem contracena na peça.

Diz o narrador: “Kafuku ficou sabendo de quatro deles. É claro que a esposa agia como se nada estivesse acontecendo, mas ele logo percebia que ela estava se entregando a outros homens. Ele tinha uma intuição boa quando se tratava disso e, quando se ama profundamente uma mulher, mesmo não querendo, é possível perceber essas coisas. Pelo modo como ela falava, ele conseguiu descobrir facilmente quem eram os homens”. E um desses amantes de sua mulher também é um ator de “Tio Vânia”. Kafuku, então, após a morte dela, faz amizade com ele para satisfazer sua curiosidade sobre um dos homens que a levava para a cama.

E nesse meio do caminho do vaivém de Kafuku entre sua casa e o teatro aparece Misaki Watari, uma jovem “feia” de 24 anos que se torna sua motorista particular, indicada pelo dono da oficina para a qual ele levou seu carro velho, um Saab 900 amarelo conversível. Depois de causar um acidente e ter sua carteira de habilitação suspensa e se recusar a rodar de metrô e táxi, Kafuku contrata Misaki, introvertida, mas boa motorista. Kafuku aproveita o trajeto, então, para encenar suas falas da peça.

A convivência com a moça estranha acaba fazendo com que abra sua intimidade para ela, revelando as traições da mulher e como fez amizade com Takatsuki, com quem se encontra por acaso numa sala de espera numa emissora de TV. Para aumentar o drama, Misaki tem a mesma idade que teria sua filha, que morreu ainda bebê sem receber um nome. A analogia entre a duas, é claro, aumenta o sentimento de perda de Kafuku.

“Drive my car” tem apenas 37 páginas, mas traz a densidade de um drama extenso quando Murakami confronta o homem Kafuku e o ator Kafuku em sua obsessão mórbida de manter amizade com Takatsuki, amante da mulher, como uma forma de manter as boas lembranças dela, por mais que isso seja doloroso. E também confronta Kafuku e Takatsuki entre os limites da vida real e a da arte da representação. Como bom ator, ele consegue fazer com que Takatsuki não perceba que ele sabia do caso dele com a mulher em suas muitas idas a bares para beber e conversar. E o próprio Kafuku se surpreende e se incomoda com essa boa encenação, como tammbém tem o sentimento dúbio de simpatia e desejo de retaliação. Foi assim também representando que não deixou sua mulher perceber que ele sabia das traições.

O FILME

O longa de Hamaguchi vai muito além do conto de Murakami, ao fazer de Kafufu também diretor de “Tio Vânia”. O diretor disse em entrevista ao "The Hollywood Reporter" que o filme tem elementos, além de “Drive my car”, dos contos “Sherazade” e “Kino”, porque a história original era muito pequena para garantir um roteiro de três horas, mas as referências são muito sutis. Ele disse que estava desistindo de adaptar os contos, porque a autorização de Murakami demorou seis meses para chegar.

Em seu conto, o escritor japonês não explora a trama existencial da obra de Tchékhov, o que faz Hamaguchi no longa. A notável peça de Tchékhov fala do drama de Vânia, que chega ao fim da vida com a triste sensação de tempo perdido, de não ter realizado grandes coisas ao longo de sua existência, caindo em descrédito inclusive entre familiares e o mundo à sua volta. Hamaguchi decidiu aprofundar na peça do autor russo, mesclando ensaios das falas de Tchékhov e abusando a ambiguidade do diálogo para realçar sentimentos dos seus personagens.

O sentimento profundo é de perda, e, neste sentido, a vida de Kafuku e de Vânia se entrelaçam. Hamaguchi conduz com maestria essas vidas paralelas, entrelaçando também a vida do ator e do homem, aquele que tolerou a traição sob uma fachada de normalidade e foi buscar conforto no acovardamento. E ainda escolhe Takatsuki, mesmo sabendo que ele era amante de sua mulher, para o papel principal da peça.

Quem não é cinéfilo e espera do cinema filmes de ação, muitas emoções e reviravoltas, provavelmente, não vai ter muita paciência para três horas diante da tela. Isso porque, abusando do trocadilho, é um filme marcha lenta e reflexivo sobre sentimentos caros ao ser humano, como traição, perda e culpa. Afinal, cinema não é apenas pipoca, é reflexão, e isso exige tempo e paciência.



AMOR PERDIDO

“Yesterday”, como já diz o nome, é outra influência dos Beatles na vida e na obra de Murakami. Como sempre faz ao longo de suas obras, Murakami fala de amor perdido e abandono, por meio da amizade de dois homens, um deles amargurado porque sua mulher foi embora. Kitaru dá um nó temporal na cabeça do amigo e do leitor ao criar sua versão sobre sua falta de rumo para a canção composta por Paul McCartney: “Ontem é o anteontem de amanhã. E o amanhã de anteontem”.

No conto “Órgão independente”, o protagonista é o doutor Tokai, um cirugião plástico que tem uma clínica de beleza. Solteiro e refinado, ele costuma ter três namoradas ao mesmo tempo e não se importa que elas tenham outros amantes. Bem-aceito socialmente, um dia ele surpreende seu amigo Tanimura com esta opinião bizarra e misógina: “Todas as mulheres nascem com uma espécie de órgão especial para mentir. Depende de cada mulher o tipo de mentira que vai contar, onde e como vai fazê-lo. Mas com certeza todas elas mentem uma hora, ainda mais sobre assuntos importantes. Naturalmente, elas também mentem sobre assuntos que não têm muita importância, mas, acima de tudo, não hesitam em mentir nos de extrema importância. E a maioria não muda nem um pouco a expressão do rosto nem o tom de voz nessa hora. Porque não são elas que mentem: é seu órgão independente, que mente por conta própria. Por isso a mentira não faz pesar a bela consciência delas nem prejudica seu sono tranquilo – com exceção de alguns casos específicos”.

“Sherazade” traz a história de Habaru, que tem uma amante, a dona de casa Sherazade, casada, que em nada se parece com a rainha de “As mil e uma noites” nem tem a cabeça cortada, mas, depois, de cada noitada de amor, conta o estranho e proibitivo hábito que tem de invadir a casa de um colega de escola por quem é apaixonada, quando não tem ninguém em casa, mexer nos pertences dele e sempre deixar um sinal misterioso de sua invasão.

O conto “Kino” é uma narrativa fantástica, sobre um funcionário de uma empresa de artigos esportivos que abandona o emprego após descobrir que sua mulher o trai com um dos seus colegas de traba- lho. Ele se muda para um lugar distante e abre um bar num imóvel cedido por uma tia. Mas ali começam a acontecer fatos estranhos, entre serpentes e gatos, e ele é aconselhado a abandonar o lugar por um homem misterioso que o adverte sobre um perigo iminente. Sem entender o que está para acontecer, ele resolve sair viajando Japão afora sem saber o que fazer.

A NOVA METAMORFOSE

O grande elemento fantástico de “Homens sem mulheres” está no conto “Samsa apaixonado”, no qual Murakami demonstra a influência literária do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924) sobre sua obra. Célebre por sua trilogia do absurdo (“A metamorfose”, “O processo” e “O castelo”, entre outras obras contundentes), em “A metamorfose”, Kafka conta a triste sina de Gregor Samsa, o protagonista, que acorda, “após sonhos intranquilos” transformado num imenso inseto e passa a ser discriminado pela própria família até um fim trágico. Uma clássica histórica de rejeição, discriminação e intolerância.

Em sua versão, Murakami inverte a história e cria um inseto apavorado porque acordou num dia transformado em Gregor Samsa. O autor japonês transfere o drama da condição humana para um simples invertebrado. Quão terrível passa a ser então para o bicho perceber sua situação no mundo dos humanos. Perdido dentro de uma casa vazia, Samsa recebe a visita de uma jovem corcunda que diz ter sido chamada para consertar uma fechadura e por quem se apaixona por causa da identificação com sua deformidade. É a vida humana ao avesso, como se precisássemos.

O último conto é o que dá nome ao livro. “É muito fácil ser um dos homens sem mulheres. Basta amar profundamente uma mulher e ser abandonado por ela. De uma forma ou de outra, você também vai ser um dos homens sem mulheres. De repente. E, uma vez que você se tornar um homem sem mulheres, a cor da solidão se impregnará no seu corpo. Como se fosse uma mancha de vinho tinto em um tapete de cor clara”. É o que diz o narrador ao protagonista ou até mesmo ao leitor. Mais uma vez, Murakami fala de amor perdido e abandono ao contar a história do homem de meia-idade que lembra sua paixão adolescente e da necessidade do conformismo, já presente no primeiro conto, “Drive my car”. “Parece que não há nada que eu possa fazer agora a não ser rezar”, lamenta-se o protagonista ao embalo das canções de Percy Faith e Henry Mancini e outras clássicos.


MURAKAMI ESSENCIAL

Capinha do livro 1Q84
1Q84
A trilogia lançada em 2009/2010, best-seller mundo afora, é a obra mais ambiciosa e fantástica, no sentido literal, de Murakami, que inclui ainda metalinguística. A trama se desenrola simultaneamente em dois mundos paralelos – 1984 e 1Q84 –, embora, aparentemente, seja apenas um. A diferença está no fato de que um deles tem duas luas no céu. Murakami intercala os capítulos com os protagonistas Tengo e Aomame. Tengo se envolve numa jogada arriscada ao reescrever um romance misterioso que passa por uma seita perigosa. Aomame é uma matadora profissional e também está em fuga. A trajetória de ambos vai se juntando aos poucos, em meio a criaturas fantásticas, o Povo Pequenino, que usa cadáveres para transpor os dois mundos.


Homens sem mulheres
Reúne sete contos, entre eles “Drive my car”, que inspirou o filme homônimo que concorre em quatro categorias ao Oscar, e “Samsa apaixonado”, uma releitura de “A metamorfose”, de Franz Kafka. Histórias sobre amores perdidos, traições e fantasia.


Kafka à beira-mar
Outro romance ambicioso, um dos melhores de Murakami, que vai da cultura pop a tragédias gregas, entremeado também por elementos fantásticos. São duas histórias paralelas. A do menino Kafka Tamura, de 15 anos, que foge de casa para escapar da profecia de Édipo (matar o pai e se tornar amante da mãe), numa misteriosa jornada de autoconhecimento. E a de Satoru Nakata, que sofreu um misterioso “apagão” na sua infância e, quando acordou, passou a ter o dom de premonição e a capacidade de conversar com gatos.


Capinha do livro Crônica do Pássaro de Corda
Crônica do Pássaro de Corda 
Extenso romance com 766 páginas, conta a trajetória de Toru Okada, que leva uma vida banal em Tóquio, até o dia em que seu gato desaparece e sua vida se transforma totalmente. Em seguida, sua mulher, Kumiko, o abandona e estranhos personagens surgem em sua vida, como fantasmas invadindo seu mundo real. E é literalmente no fundo de um poço no quintal do vizinho que ele vai refletir sobre sua vida. E, então, o gato reaparece...


Norwegian Wood
O romance é uma bela e triste balada de amor inspirada na canção homônima dos Beatles. Passada nos anos 1960, a narrativa fala da vida do jovem Toru Watanabe, que se apaixona por Naoko, ex-namorada do seu amigo que se matou. A descoberta do amor e a passagem para a maturidade são os temas da obra, uma das poucas em que Murakami não explora elementos fantásticos.
 
 
AS OBRAS *

» Sul da fronteira, oeste do sol (2021)
» O assassinato do comendador, vol. 2: Metáforas que vagam (2020)
» O assassinato do comendador, vol 1: O surgimento da IDEA (2018)
» O elefante desaparece (2018)
» Crônica do Pássaro de Corda (2017)
» Romancista como vocação (2017)
» Ouça a canção do vento / Pinball, 1973 (2016)
» Homens sem mulheres (2015)
» Sono (2015)
» Dance dance dance (2015)
» Caçando carneiros (2014)
» O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação (2014)
» 1Q84 (trilogia) (2012/2013)
» Do que eu falo quando eu falo de corrida (2010)
» Após o anoitecer (2009)
» Kafka à beira-mar (2008)
» Minha querida Sputnik (2003)
» Norwegian Wood (2005)
» Primeira pessoa do singular (ainda não lançado no Brasil)

* As datas são de lançamento no Brasil


Beatles, homem-carneiro e gatos

A fórmula do sucesso dos livros de Haruki Murakami é uma curiosa mistura de narrativas detalhadas do cotidiano dos protagonistas e demais personagens com situações inusitadas. Ler uma obra de Murakami, com seu detalhamento, às vezes excessivo, de cada ato e gesto dos personagens, se vestir, comer, dormir, dá a sensação de normalidade e de que tudo se encaixa com o correr do tempo na vida de pacatos cidadãos. Mas, então, de repente, Murakami surpreende o leitor com algo fantástico, que, por mais estranho, que pareça, se enquadra na narrativa naturalmente.

É assim desde “Caçando carneiros”, da década de 1980, o primeiro romance que lançou o autor japonês ao sucesso mundial. Na obra já surgem ícones da cultura pop e nada menos do que um homem-carneiro que vive nas montanhas e que aparece de repente na vida do protagonista, ao qual o autor não dá nome, um publicitário, que após ser ameaçado por um estranho  sai à procura do local onde foi feita uma famosa foto publicada na capa de sua revista

Ou então em “Kafka à beira-mar”, onde há transposição temporal de uma mulher adulta para uma adolescente em um quadro que passa a conversar com o protagonista. Kafka Tamura. Murakami dilui as fronteiras tempo-espaço para fluir a narrativa de forma tão natural, que não assusta o leitor. Em resumo: como assombrações que conversam normalmente com pessoas vivas.

Outra obra curiosa é “Crônica do Pássaro de Corda”, em que a vida tranquila e conjugal do protagonista vira de ponta-cabeça quando seu gato desaparece, abrindo as portas para um mundo diferente. Logo em seguida, sua mulher o abandona. ...sai então em busca do gato e da mulher, numa jornada de autoconhecimento, na qual aparece um pássaro cujo canto lembra o dar corda em um relógio, que o encanta. Daí ele ganha o apelido de Pássaro de Corda, de uma adolescente vizinha bem esquisita.

Ah, os gatos. Em quase todos os livros de Murakami, os gatos estão presentes. Em “Kafka à beira-mar”, Nakata, um dos protagonistas, tem o dom de falar com gatos. Em artigo traduzido pela revista Quatro Cinco Um, ele fala desses felinos: “Sempre havia gatos na nossa casa. Para mim, eram amigos maravilhosos. Eu não tinha irmãos, então livros e gatos eram os meus melhores amigos. Eu adorava ficar na varanda (naquele tempo, quase todas as casas tinham varandas de madeira abrindo-se para o jardim) tomando sol junto com um gato”.

Ele, inclusive, conta curiosa história de sua infância com seu pai: “Certo dia, quando vivíamos na casa de Shukugawa, fomos até a praia para abandonar um gato. Não era um filhote, mas uma gata fêmea, já adulta. Não sei dizer por que decidimos abandoná-la, sendo que morávamos em uma casa com jardim e espaço suficiente para criar gatos. Talvez fosse uma gata de rua que resolveu viver conosco, ficou prenha, e os meus pais concluíram que não daria para cuidar dela e dos filhotes. Naquela época, abandonar gatos era muito mais comum, e não particularmente malvisto, porque não ocorria a ninguém a ideia de castrar o seu gato. Eu e o meu pai deixamos a gata na Praia de Koroen e pedalamos de volta para casa. Abrimos a porta e nos deparamos com a gata miando alegremente, de rabo espichado no ar. Ela estava de volta, antes de nós. Não consegui entender como ela fez aquilo. Voltamos direto, de bicicleta. O meu pai também não entendeu. Ficamos os dois sem palavras”. 


Inspiração no absurdo kafkiano

Nome certo na lista de favoritos ao Nobel de Literatura na última década – em 2017, o vencedor foi o seu conterrâneo Kazuo Ishiguro –, Haruki Murakami, que completou 73 anos em 12 de janeiro, é avesso a entrevistas, apesar da popularidade gerada pelos milhões de livros que vende mundo afora, em mais de 50 idiomas. Sem se ater à milenar tradição japonesa – samurais, haraquiri, quimonos, ikebana, sushis e mangás, por exemplo, que inexistem em suas obras –, Murakami é um escritor globalizado, da cultura pop. Dono de uma coleção com milhares de discos, ele mantém um programa de rádio na Tokyo FM desde 2018. Essa playlist gigante aparece com todas as letras em seus livros, especialmente canções dos Beatles, que, inclusive, dão nomes a algumas de suas obras. Não é de surpreender, então, que sua mulher, com quem é casado há 50 anos, se chame Yoko, mesmo nome da viúva de John Lennon.

Na literatura, inclusive fantástica, basta ler suas obras para perceber a clara inspiração. Exemplos: o autor tcheco Franz Kafka (1883-1924) no livro “Kafka à beira-mar” e no conto “Samsa apaixonado”; assim como a trilogia “1Q84”, que deu fama a Murakami com seu mundo paralelo, sombrio e misterioso, parece ter um quê de “1984”, obra máximo do escritor britânico George Orwell (1903-1950). Ele já traduziu para o japonês obras de escritores que admira, como F. Scott Fitzgerald, Truman Capote, John Irving e Raymond Carver.

Apreciador de atividades físicas e ex-maratonista, Murakami falou, em recente entrevista ao El País Semanal – quando esteve no Equador para receber um prêmio literário –, de sua rotina de escritor. “É gratificante, mas é algo que aconteceu com os outros. Eu continuo igual: escrevo de manhã, quatro ou cinco horas, a mesma quantidade de páginas, e quando me levanto da cadeira só quero saber onde a história me levará. Por isso, volto no dia seguinte.”

“Escrever romances longos como os meus exige um esforço sustentado e metódico. Não é um trabalho leve; escrevo com a sensação física de dar tudo de mim; administro minha energia como o ar nas maratonas e tento oferecer sempre algo novo. Só espero que o leitor desfrute do livro. Essa é a parte dele”, diz.

Com relação conjugal estável há décadas e sem filhos, curiosamente, Murakami fala de paixões frustradas, traições, abandono e perdas, normalmente com protagonistas na faixa entre 30 e 40 anos. “Não sei por que escolho esses protagonistas. Talvez seja esse viés pessoal, essa busca de sentido em meio à hesitação, o que me interessa. É como se nessa idade nos déssemos conta de que essa vida é a nossa. Esse processo de apropriação me intriga. A pessoa já não é tão jovem, mas não é velha. É livre e vulnerável ao mesmo tempo”, explica.

Sobre a falta de relações familiares em seus livros, Murakami destaca: “Não me interessam os vínculos familiares, mas sim explorar tudo o que acontece entre um homem e uma mulher. É uma relação especial, talvez a mais importante. Você não pode escolher seus pais ou seus filhos, mas pode escolher seu parceiro e tem de ser responsável com essa escolha. Sou casado com Yoko. Ela é, além disso, a primeira leitora de meus livros. Por que a escolhi? Não sei. Penso nisso com frequência e ainda não tenho uma resposta”.

Sobre os elementos fantásticos em seus livros, Murakami filosofa: “A vida é misteriosa e talvez certas coisas que conto sejam estranhas para outros, mas são naturais para mim. Que um espírito tome a forma da figura de um quadro ou que haja personagens cujas sombras se desdobrem são ideias habituais em minha vida, metaforicamente falando. Como narrador, penso no nível da história; tudo pode acontecer. As crianças vivem isso com mais naturalidade. Quando você é criança e em um livro alguém atravessa a parede, é algo natural. Os adultos dizem: 'É estranho'. Sou quase um velho, mas ainda acredito que se pode atravessar a parede, e espero que o leitor também acredite”.

Murakami vive em Tóquio, mas já morou nos EUA e na Europa. Sobre a cultura norte-americana, ele diz na entrevista: “Fui adolescente nos anos 60. A cultura norte-americana era empolgante, selvagem: nessa década aconteceu de tudo, jazz, rock, literatura, pop. Absorvi isso e sou grato. Mas a cultura dos EUA já não é tão estimulante. Eu me interesso por política, mas escrevo ficção. Não faço declarações de outro tipo”.

Em outra recente entrevista, desta vez à agência literária de Londres Curtis Brown, Murakami fala da essência de sua obra. “Eu não costumo escrever obras realistas (com exceção de alguns contos e de “Norwegian Wood”), mas como leitor gosto muito de escritores e livros com um estilo mais realista. As narrativas que escrevo usando esse estilo não são, na maioria dos casos, narrativas realistas. Creio que essa separação me atrai”, declarou o autor japonês.

MÚSICA CONTRA A UERRA NA UCRÂNIA

Murakami usou o seu programa de rádio no último domingo (20/3), na Tokyo FM, para fazer protesto contra a guerra na Ucrânia. Ao tocar a canção “Never die young”, de James Taylor, e voltando às músicas que marcaram o movimento antiguerra nos anos 1960, o escritor japonês afirmou: “A música tem o poder de parar a guerra? Infelizmente, não. Mas tem o poder de fazer os ouvintes acreditarem que a guerra é algo que devemos parar”.

O programa de 55 minutos transmitido para toda a capital japonesa – a cidade mais populosa do mundo, com 37,5 milhões de habitantes – foi chamado de “Música para acabar com a guerra”, com 10 faixas de sua imensa coleção de vinis e CDs. “As letras vão desempenhar um papel importante no show desta noite, então fiquem atentos”, Murakami lembrou aos seus ouvintes. “Ao final do show, tenho a sensação de que você estará mais inspirado para acabar com a guerra. O tempo vai dizer.” Em algumas músicas, ele citou trechos das letras que traduziu para o japonês com suas próprias palavras, acrescentando antecedentes históricos que incluíam discriminações raciais e sociais enquanto transmitia a mensagem de raiva, tristeza e amor. 


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