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Estado de Minas LITERATURA

Ana Elisa Ribeiro lança terceiro livro de crônicas

Com humor e sem pedantismo, escritora e professora reúne reflexões, lembranças e observações do cotidiano em 'Doida para escrever'


12/11/2021 04:00 - atualizado 12/11/2021 07:32

Professora e pesquisadora do campo da leitura, escritora Ana Elisa Ribeiro
Professora do Cefet-MG, Ana Elisa Ribeiro lança 'Doida para escrever' em 20 de novembro, na Livraria Quixote (foto: Sérgio Karam/Divulgação)

Professora e pesquisadora do campo da leitura, escritora premiada, integrante do conselho curador do Jabuti, o prêmio mais importante de literatura do Brasil, Ana Elisa Ribeiro vive rodeada de palavras. E gosta de compartilhar essa convivência com os alunos do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG) e com os leitores. É o que ela faz no divertidíssimo, e nem por isso superficial, “Doida para es- crever” (Moinhos), livro de crônicas que terá lançamento em Belo Horizonte no próximo dia 20, das 11h às 14h, na Livraria Quixote.

A crônica que dá nome ao livro revela que a escrita, para Ana Elisa, não é, nem de longe, tarefa exclusivamente laboral. Ela escreve porque não saberia existir de outra forma. E, se escrever é mesmo existir, ela demonstra que a escrita comporta a diversidade que há no mundo ou, talvez mais que isso, é algo único – como cada indivíduo. Ana Elisa lançou outros dois livros de crônicas: “Chiclete, lambidinha e outras crônicas” (2012) e “Meus segredos com Capitu” (2013), ambos pela Editora Jovens Escribas. “Meus segredos” foi semifinalista do prêmio Portugal Telecom (hoje Oceanos). Uma das crônicas desse livro foi premiada pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ).

Com ironia e bom humor, sem nenhum pedantismo, Ana Elisa revisita, em “Doida para escrever” o passado de forma inteligente. Ela faz o resgate de Amélia, a da canção de Mário Lago, à luz do feminismo, lembra dispositivos da internet esquecidos que voltaram à moda durante a pandemia e observa a mudança de convenções sociais ao refletir sobre a aceitação dos cabelos brancos.

Na crônica que dá nome ao livro, ela assume o tom crítico ao uso da escrita dentro de uma lógica meritocrática de produção. A referência ao Enem não é explicitada, mas é impossível não lembrar do exame quando se lê o trecho: “Escreva aí, nesta sala bege ou verde-hospital, sem livros nem nada o que consultar, bem rapidamente, sob o olhar lancinante deste fiscal mal pago, sobre um tema que você conhecerá neste instante. OK. Está dada a largada”.

Para Ana Elisa, a escrita é afeto. Na crônica “Seu Amadeu”, ela demonstra como escrever é afetar-se pelo outro e ainda meio de compartilhar o sentimento. O texto materializa o pensamento dela sobre a escrita, sobretudo, a literária. E se escrever é existir, e a existência de cada um é única, nessa crônica ela nos apresenta seu Amadeu, e, em certa medida, como ela mesmo propõe em “Doida para escrever”, demonstra que o texto, mesmo quando não festejado por críticos ou que não tenha conquistado muitos leitores, é maravilhoso nele em si. Pela escrita, conhecemos o seu Amadeu da maneira delicada como Ana Elisa nos apresenta: “Amadeu era discreto, tímido e quieto” e, nem por isso, deixou de ser “uma lenda”. A escrita de qualquer um pode ser assim também, singular e, por isso mesmo, extraordinária.

“Doida para escrever”

Capa do livro 'Doida para escrever'
(foto: Reprodução)

Ana Elisa Ribeiro
Editora Moinhos
R$ 44,20
160 páginas
Lançamento: dia 20/11, das 11h às 14h, na Livraria Quixote (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi)

“Doida para escrever”

A crônica que dá nome ao livro de Ana Elisa Ribeiro

Tem dia que eu acordo doida pra escrever. Não serve mais nada. Tem alguma coisa incomodando demais, dando engulhos ou fazendo cócegas. Às vezes é só um prazo mesmo, vencido, de preferência. Outras vezes, não. É assim a sensação que deve ter um vulcão ou então uma bomba. Vamos humanizar as coisas, minha gente. É a sensação que deve ter o nosso corpo,  imagine aí em que circunstâncias, as mais variadas.

Mas já ouvi dizer de gente que nunca sente isso. Por outro lado, ouvi falar de médico que prescreve escrita pra curar doideira ou algum mal da cabeça. Talvez cure também o coração e outras vísceras. Quantas vezes senti os pulmões mais capazes depois de um belo poema. Pode nem ter sido assim tão belo, vá lá, mas foi eficaz pra dores diversas.

Em relação a essa turma que não precisa da escrita pra nada só sinto duas coisas: ou inveja ou dó. Isso,dó. Desculpem aí minha intolerância. (Neste mundo, é preciso ter cuidado com isso, senão dá processo.) Inveja quando penso que alguém pode conseguir viver agarradinho com seus quiprocós todos, no maior love, sem precisar tirá-los a fórceps, com caneta ou um teclado desbotado. Quem me dera essa convivência toda.
Mas tudo bem. Pode ser que a pessoa tenha outros expedientes, tipo jogar bola com os amigos, beber bastante, correr (já vi gente se curar assim), cantar, ah, cantar a beleza de ser... isso. Mas não precisar escrever é um mistério pra mim.

O outro sentimento é mais delicado. É dó, é pena, é um negócio complicado. A gente, cá do alto de nossa implicância, fica pensando “coitado desse pessoal”. Mas é que quem escreve se sente dono de um garimpo inteiro. Uma espécie de poder.

Está na moda aí, aliás, uma palavra esquisita, traduzida e mal paga, que é “empoderamento”. É mais ou menos quando a gente aprende uma coisa que nos faz ficar mais potentes, mais podendo, com uma espécie de “cinto de utilidades” que pode ser usado quando a gente quiser mudar algo. E aí já li bastante falarem de empoderamento em relação à leitura e à escrita. E me senti mais super-heroína do que todas: a She-Ha, a Mu- lher Maravilha, a... bem, são quantas mesmo?

Escrever é um ódio. Mas, depois que acontece, é uma mansidão geral, até a próxima escala. Só que tem dia que eu acordo – eu e um monte de gente que fez esta descoberta – doida pra escrever.

Não me vem nem a ideia do café da manhã. É que tem bastante gente que precisa tomar café primeiro. Mas eu sou uma mineira estranha: não curto nem café, nem tropeiro, nem praia. Mas aí eu corro pro computador e piro geral. Vai que dá certo? Costuma.

A escrita é uma mistura inexplicável de força, memória, conexões, leituras, falatórios, horas de filmes bons e ruins, uma vida inteira de ações e reações, atenção, desatenção, amor e desamor, ímpetos, convicções, perdões, convenções, aulas de tudo quanto há, escola, muita escola, contenção, habilidade, um tico de tendências sado-masô, exibicionismo, em algum grau, experiência em qualquer medida, mas,fundamentalmente, desobediência.

A escrita nem te suga nem nada. Você acorda doidão, corre pra máquina que for (pode ser lápis, pois ela não é muito específica), escreve, escreve, escreve, sente que secou, murchou ou brochou, e continua o dia. Não desgasta, sabe? E enche, enche tudo de novo, que nem caixa d’água (quer dizer... aí depende...).

Hoje eu acordei doida pra escrever. Note-se que nem tinha muito o que dizer. Isso também acontece. No entanto, não é bem um problema quando isso rola. Tanta gente não tem nada a dizer! Ora, bolas. Nem é preciso ter um ostentável conteúdo para escrever. Milhares e milhares de estudantes fazem isso, todos os anos, quando escrevem algumas sofridas (e sofríveis) linhas sobre o que não sabem. Já imaginou? Ter de escrever o que nunca foi pensado antes? É a tarefa mais ingrata que há.

Digo sempre isso aos alunos que passam ali pelo meu quadrado: sua tarefa é a pior que há, meu caro. Depois desta, qualquer coisa funciona. Imagine o comando: Escreva aí, nesta sala bege ou verde-hospital, sem livros nem nada o que consultar, bem rapidamente, sob o olhar lancinante deste fiscal mal pago, sobre um tema que você conhecerá neste instante. OK. Está dada a largada. Se isso for possível, o resto será festa.

Não. Escritor doido pra escrever tem tempo, tem paixão, tem uns dias, uns meses, uns anos, uns livros e muita gente com quem conversar. Muitas vezes, escrever sucede à pesquisa. Pesquisa mesmo, com roteiros, leituras, entrevistas, consultas.

Quem é doido por escrever costuma ter uma sala, um quarto, uma estante, uma prateleira, um computador, o que seja... mas cheios de coisas pra ler, pra olhar, pra visitar, pra levar debaixo do braço. Pensa, pensa, daí vem um ímpeto. A gente fica fogoso, um dia. Não pode nem ver uma folha de papel, uma tela em branco, que o fogo acende.

Mas vá lá. É preciso saber ficar doido pra escrever. Ligar a ignição. Tá tudo calmo e quieto, vontade alguma, só pensando no mato pra capinar ou na graxa do portão, mas chega uma demanda de escrever. Quem não entende do riscado pensa que é assim, ó: “Senta e escreve, bora lá”. E a gente faz. Aprende a riscar a faca no chão até dar faísca. Pedra com pedra. Fósforo. Lente no sol. Queima até o que não tem. Doidos pra escrever são perigosos. 

Acordei doida pra escrever. E nem era só um prazo expirado. Era uma energia transbordando aqui e ali. Calibrada? Níveis normais? Vamos agora ao dia, pra ter mais o que escrever, nas próximas linhas.


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