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Estado de Minas Especial /literatura russa

Novo livro-guia apresenta todos os gigantes da literatura da Rússia

Em "Como ler os russos", o jornalista e tradutor Irineu Franco Perpetuo leva o leitor a uma fascinante viagem literária pelo país


04/06/2021 04:00 - atualizado 03/06/2021 23:33


“Eles nunca se viram e nem sempre se amaram (...) Os dois escritores russos mais aclamados no exterior foram contemporâneos, mas jamais chegaram a se conhecer. Talvez esses titãs preferissem se medir a distância, talvez um esperasse que o outro desse o primeiro passo. O encontro quase ocorreu em 1878, quando ambos estiveram em uma mesma conferência em São Petersburgo. O crítico Nicolai Strákhov (1828-96) acompanhou Tolstói ao evento, mas conta que o conde pediu para não ser apresentado a ninguém. Amigo de Strákhov, Dostoiévski ficou surpreso e desapontado por não ter tido a oportunidade de ver Tolstói em carne e osso: 'Mas por que você não me sussurrou que ele estava com você? Eu teria dado pelo menos uma olhada nele'. Os dois gigantes da literatura russa, que estiveram essa única vez de suas vidas no mesmo local e na mesma hora, foram assim mantidos deliberadamente afastados. (…) Anna [segunda mulher de Dostoiévski] observa que 'nos anos seguintes Fiódor Mikháilovitch manifestou mais de uma vez seu pesar por nunca ter encontrado Tolstói pessoalmente'”.

Essa passagem da vida de Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski (1821-1881) e de Lev Nikoláievitch Tolstói (1828-1910), respectivamente, autores de “Os irmãos Karamázov” e “Crime e castigo” e “Guerra e paz” e “Anna Kariênina”, sobre os quais está assentada a reputação da literatura russa no mundo, é apenas uma das inúmeras preciosidades apresentadas em “Como ler os russos” (Editora Todavia), que acaba de ser lançado pelo jornalista e tradutor Irineu Franco Perpetuo, um instigante guia de leitura pela vida e obra de escritores em meio aos acontecimentos políticos e movimentos literários da Rússia medieval até hoje.

Dostoiévski vivia do seu trabalho, dependia dos seus escritos para sobreviver, enquanto Tolstói, que era conde, tinha origem nobre e outras fontes de renda, o que gerou reclamações do autor de “Crime e castigo” pelo fato de editores pagarem mais rublos ao criador de “Anna Kariênina” do que a ele. Além disso, quando jovem, Dostoiévski fez previsão equivocada sobre o futuro de Tolstói: “Na minha opinião, ele vai escrever muito pouco. Já Tolstói disse sobre Dostoiévski: “Escrevia de uma maneira revoltante até feia”. Quem relata é Maksim Górki (1868-1936), outro autor russo clássico.

Mas Irineu Franco Perpétuo conta que, nas declarações públicas, entretanto, um elogiava o outro. “Tolstói deve ser lido integralmente”, disse Dostoiévski ao enviar dicas de leitura a uma adolescente. “Um livro melhor em toda a nossa literatura, inclusive Púchkin (…) um livro esplêndido, instrutivo”, disse Tolstói em carta a Strákhov, ao se referir a “Recordações da casa dos mortos”, outro clássico de Dostoiévski. E disse mais: “Se você vir Dostoiévski, diga que gosto muito dele”.

Muito aclamados hoje, cerca de 150 anos após a publicação de suas obras, Tolstói e Dostoiévski não receberam só louros. Irineu Franco cita o célebre estudo comparativo do crítico francês George Steiner (1929-2020): “A imensidão dos romances de Tolstói e Dostoiévski foi notada desde o princípio. Tolstói foi censurado, e tem sido censurado desde então, por suas interpretações filosóficas, suas digressões moralizantes e por sua imperceptível relutância em terminar um enredo. (…) Os críticos russos afirmam que a extensão do romance de Dostoiévski deve-se, frequentemente, ao seu estilo torturado e contorcido, às vacilações do romancista em relação aos seus personagens e ao mero fato de que ele era pago por folha. (…) Entre os leitores ocidentais, a prolixidade dos dois mestres tem sido frequentemente interpretada como particularidade russa, como se, de alguma forma, fosse consequência da imensidão física da Rússia. Tal ideia é absurda. Púchkin, Liérmontov e Turguêniev são exemplos de concisão”.

PALAVRA MAIS TEMÍVEL DO QUE PUNHAL

“Tolstói seria o Homero da Rússia”, pelo caráter épico de seus livros, “enquanto Doistoiévski faria às vezes de Shakespeare”, pelo caráter dramático e sofrido, observa Irineu Franco, citando novamente Steiner: “As obras de Tolstói e Dostoiévski são exemplos cardeais do problema da fé na literatura. Elas exercem pressões e compulsões em nossas mentes com força tão óbvia, mobilizam valores tão relevantes para a grande política de nossa época, que não podemos responder em termos literários. (…) Tolstói e Doistoévski não são apenas lidos, são acreditados”.

Já na introdução do livro, Irineu Franco explica como a literatura russa caiu no gosto dos brasileiros ainda no século 19, apesar da dificuldade da língua, e destaca também a importância dos autores russos além da própria verve literária. “Ao longo de toda a história da literatura russa, o escritor sempre foi visto como profeta ou pregador, livre-pensador perigoso ou revolucionário. (…) A palavra era vista como arma muito mais temível do que veneno ou punhais (…) Esse ponto de vista é maravilhoso. Proclama a primazia da literatura sobre a vida, dos sonhos sobre a realidade, da imaginação sobre os fatos. (…) A palavra representa um poder maior do que o átomo. Essa é uma visão inteiramente russa da literatura, sem paralelo no Ocidente. O escritor é rival de Deus”, avalia. 

Contudo, toda essa relevância não mascara máculas de determinadas obras, como o antissemitismo e o chauvinismo de Dostoiévski em “Diário de um escritor”, por exemplo, destaca Irineu Franco. (Leia entrevista)

“A BELEZA DO MODO DE PENSAR”

“Como ler os russos”, entretanto, vai muito além de Tolstói e Dostoiévski na vastidão do país euro-asiático. Irineu Franco parte da fundação da própria Rússia, no século 9, pela mítica dinastia Riurik, passa pela dominação mongol entre os séculos 13 e 15, entremeada pela “cultura literária estimulada pelo renascer monástico” nos mosteiros, chega aos séculos 16 e 17, sob muitas turbulências, com a ascensão dos Romanov, em 1613, à época de Pedro, o Grande (1672-1725) – que ocidentalizou a Rússia –, e Catarina, a Grande (1729-1796) até o verdadeiro despertar, que uniu os passados medieval e iluminista às novas gerações.

É quando surge Aleksandr Serguêievitch Púchkin (1799-1837), fundador da literatura russa. “Se os ingleses têm Shakespeare; os italianos, Dante; os alemães, Goethe: os espanhóis, Cervantes; e os portugueses, Camões, os russos têm Púchkin”, afirma Irineu. O poeta, autor da obra-prima “Ievguêni Oniéguin”, conseguiu a proeza de fundir as crenças e a linguagem simples do povo com requintadas formas literárias, diz. Irineu cita o crítico do século 19 Pável Annenkov: “Por meio de Púchkin, o público russo não apenas conheceu a beleza da poesia (...), mas também a beleza do modo de pensar. Antes dele, os literatos aconselhavam que se estocasse essa qualidade preciosa”. A dificuldade da popularização de Púchkin, que morreu jovem num duelo, vem do fato de ele fazer também poesia, bem mais difícil de traduzir do que a prosa, lembra Irineu Franco.

“A LITERATURA É MINHA AMANTE”

A viagem literária de “Como ler os russos” chega a outro gigante, o ucraniano Nikolai Gógol (1809-52), autor de obras marcantes: “Almas mortas”, “O inspetor geral” e “O capote”. Irineu cita Steiner novamente: “O romance russo emergiu de 'O capote'”. Este livro literalmente fantástico tem o curiosíssimo conto “O nariz” (um oficial de São Petersburgo é abandonado pelo próprio nariz, que passa a ter uma vida independente; uma satírica e genial crítica estética de Gógol). Outro autor imprescindível dessa época é Ivan Turguêniev (1818-1883). Na segunda metade do século 19, Turguêniev, Dostoiévski e Tolstói consolidaram a centralidade da literatura russa. Autor de “Pais e filhos” e “Memórias de um caçador”, Turguêniev é “conciso, lírico e nada assertivo, não é pregador, como os autores de “Os irmãos Karamázov” e “Guerra e paz”, avalia Irineu.

Na trilha dos gigantes literários também está o médico Anton Tchékhov (1860-1904), que renovou a cultura russa, deixando-a “livre das ilusões populistas (dos moradores da cidade que iam para o campo defender camponeses) e de muitas tradições já superadas”. Tchékhov, com suas peças teatrais psicológicas, abriu mão da “monumentalidade épica” na Rússia pré-revolucionária, segundo o escritor alemão Thomas Mann (1875-1955). “A medicina é minha esposa legítima e a literatura é minha amante”, disse o autor de obras essenciais como “A ilha de Sacalina” (livro-reportagem sobre degredados pelo império russo), “Tio Vânia” e “As três irmãs”.

MULHERES PROTAGONISTAS

Tchékhov foi contemporâneo de outro escritor importante na estante de livros russos: Maksim Górki (1868-1936), que assim como Dostoiévski e Tchékhov, era pobre e precisava trabalhar para se sustentar. Segundo Irineu Franco, foi sapateiro, lavador de pratos, estivador e padeiro e preso diversas vezes por atividades revolucionárias, amigo de Tolstói e Tchékhov e de Vladimir Lênin (1870-1924), principal líder da Revolução Russa. Crítico dos comunistas, Górki acabou aderindo ao novo regime como “porta-voz” da sua intervenção na literatura.

Górki ganhou popularidade com “A mãe”, “um dos textos mais divulgados no Brasil em todos os tempos”, sobre uma mulher revolucionária. O escritor é  precursor do controverso realismo socialista, usado por Josef Stálin para fazer da literatura instrumento político de divulgação do comunismo, envolvendo escritores que ganharam fama e os que foram degredados ou assassinados pelo regime. Destaque para o Nobel de Literatura Aleksandr Soljenítsyn (1918-2008), autor do clássico “Arquipélago Gulag”,  relatos do cárcere soviético. “Como o ler o russo” encerra o passeio literário com as atuais protagonistas da escrita russa: as mulheres. Entre elas, a vencedora do Nobel de Literatura em 2015, Svelana Aleksiévitch, autora dos contundentes “Vozes de Tchernóbil”, “A guerra não tem rosto de mulher” e “O fim do homem soviético”.

COMO LER OS RUSSOS
De Irineu Franco Perpetuo
Editora Todavia
300 páginas
R$ 69,90
R$ 49,90 (e-book)


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