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Estado de Minas ESTDOS DESUNIDOS DA AMÉRICA

Trump sem freios em livro: 'O vocabulário é de uma brutalidade fora do comum'

Tradutora francesa lança livro com análise da linguagem utilizada pelo atual presidente dos EUA, pontuada pelo improviso e pelo uso de expressões rudes


23/10/2020 04:00 - atualizado 23/10/2020 08:50

Donald Trump(foto: afp)
Donald Trump (foto: afp)
A linguagem de Donald Trump é violenta. Muitas expressões são rudes e jorram com naturalidade, sem rodeios, “como você conversaria num bar depois de ter tomado alguns drinques”. É a análise de Bérengère Viennot, professora e tradutora francesa de textos jornalísticos, autora de A língua de Trump (editora Âyiné), obra que analisa a linguagem utilizada pelo atual presidente dos Estados Unidos e candidato à reeleição.

“O vocabulário que Trump escolhe utilizar é de uma brutalidade fora do comum”, reitera a autora. Para ficar num único exemplo: Trump afirmou, durante um briefing no Salão Oval da Casa Branca, que estava farto de ver imigrantes vindos de “shithole countries” (países de merda). “Ele se referia aos países da África, Haiti e El Salvador. Why are we having all these people from shithole countries come here? (“Por que deixamos que todas essas pessoas vindas de países de merda entrem aqui?”).

Após lidar por anos com a tradução de Barack Obama, que ela considera dono de uma “retórica cartesiana e elegante”, Bérengère relata, em entrevista ao Estado de Minas por e-mail, como foi difícil “aprender” a traduzir Trump. “Quanto mais clareza tem uma pessoa ao se expressar, mais fácil é traduzi-la. Então você pode imaginar que traduzir Donald Trump é um desafio e tanto. Muito frequentemente, quando Trump fala sem um teleprompter, ele próprio não sabe bem aonde vão chegar os seus pensamentos”, diz a professora de tradução na Universidade Paris VII, que escreve regularmente para o site francês Slate.

“Por outro lado, a onda diária de tweets presidenciais enraivecidos, vingativos, arrogantes ou absurdos, da qual é quase impossível escapar, a menos que você se refugie em uma caverna e fique completamente desconectado, também constitui uma violência que exacerba esse sentimento de ser varrido por um turbilhão de disparates, que carrega em si o risco de prejudicar o raciocínio daqueles que estão sujeitos a eles”, anota. A seguir, a entrevista com a tradutora:

Que tipo de desafio está envolvido na tradução da linguagem de Donald Trump do inglês para o francês?
O processo de tradução não é só uma questão de palavras: um texto é muito mais do que a soma de seus elementos semânticos. Quando você traduz o discurso de uma pessoa, é necessário “entrar na cabeça dela” para entender exatamente as ideias que estão por detrás de suas palavras. Então, você precisa conhecer o contexto em que se dá o discurso. Se você não tiver o mínimo de informações sobre o orador, você não pode saber se está sendo sarcástico, por exemplo. O contexto é a chave para a tradução. Quanto mais clareza tem uma pessoa ao se expressar, mais fácil é traduzi-la. Então, você pode imaginar que traduzir Donald Trump, por exemplo, entrar na cabeça dele, é um desafio e tanto.

Poderia dar um exemplo do desafio?
Muito frequentemente, quando Trump fala sem um teleprompter, ele próprio não sabe bem aonde vão chegar os seus pensamentos. Mas traduzir Barack Obama é muito fácil e agradável, especialmente se você é francês, uma vez que a retórica dele é clara, ordenada, quase cartesiana. Ele vai de A a B numa linha reta e não se perde no caminho. Os discursos dele são transparentes até demais: fluentes e sintaticamente impecáveis.

Então, por um lado, é fácil compreendê-lo e traduzir Obama, mas, por outro lado, pode ser que essa transparência faça parte daquilo que levou vários americanos a votar em Trump: possivelmente, eles tinham o sentimento de que, sendo um intelectual culto e falando como qualquer outro político, Obama não poderia ser uma pessoa tão sincera.

A senhora descreve em seu livro como se sente desconfortável e frequentemente agredida pela linguagem de Trump. Em sua avaliação, os modos de Trump e o seu vocabulário estão sendo naturalizados?
A campanha de Trump trabalhou muito com a ideia de que ele era próximo às pessoas, ao povo, em oposição à “elite de Washington”. À sua maneira, o vocabulário rude faz parte dessa estratégia. Os americanos que votaram nele em 2016 e votarão de novo agora, em novembro de 2020, reconhecem nesse tipo de discurso uma certa ingenuidade que passa a impressão de honestidade.

Trump fala sem rodeios, como você conversaria num bar depois de ter tomado alguns drinques: muitas pessoas estão familiarizadas com expressões desse tipo e é a primeira vez que elas podem se identificar tanto com uma pessoa em Washington. A questão em discussão não é se o estilo dele vai se tornar a linguagem comum no país, mas descobrir se pelo menos aquela parte da América que o ama por causa de suas maneiras vai ser considerada por políticos daqui pra frente.

Em sua avaliação, qual é o perfil desta América que escolheu a linguagem de Trump?
Muitos americanos sentiam que não eram representados pelas elites da costa leste e oeste. A maioria da América não frequentou a Ivy League, a maioria da América não tem alta graduação escolar nas grandes universidades, que lhes dá acesso aos mais bem pagos postos de trabalho. Trump foi bem-sucedido em falar para a parte da América fazendo esses eleitores acreditarem que ele era como qualquer outro cidadão comum, membro de uma família comum e que era a materialização do sonho americano de um bem-sucedido self-made man (o que, aliás, Trump de fato não é porque nasceu rico e nunca trabalhou duro).

Por outro lado, existe alguma verdade nisso: se Trump tivesse nascido pobre, teria sido um deles, porque intelectualmente ele não se encaixa em Washington. E ainda tem a questão religiosa: Trump alega defender o cristianismo, alega ser em favor da vida (grupos antiborto), o que agrada a muitos americanos religiosos. Ele coloca Deus acima de tudo mais, o que é esperto. Quando você é uma pessoa muito religiosa, é difícil duvidar desse tipo de discurso. Além disso, sim, ele é terrivelmente sexista, mas você sabe, nem todas as mulheres são feministas.

Algumas são muito ligadas ao estilo tradicional de vida e aos papéis de gênero e aí está um outro erro cometido pelos liberais: como mulher, você também tem o direito de não ser feminista. O que você acha que essas mulheres sentem quando escutam na mídia convencional que o estilo de vida delas é errado porque elas escolheram ser exemplos tradicionais de donas de casa?

No livro A morte da verdade, a falsidade na Era Trump, a crítica Michiko Kakutani afirma que as mentiras de Trump são “o mais espalhafatoso entre os vários sinais de alerta acerca de seus ataques às instituições democráticas e normas vigentes”. Como Trump utiliza a linguagem para impulsionar mentiras?
Trump oficializou aquilo que a conselheira dele à época, Kellyanne Conway, chamou em janeiro de 2017 de “fatos alternativos”. Trump vive em uma realidade que se encaixa ao seu propósito e ele fala em consonância com esse. Obviamente, ele mente, e mente muito, e todos sabem disso. Mas com essas mentiras ele agrada a uma parte da população que deseja ouvir exatamente o que ele diz: que a América é um grande país, que os americanos são mais capazes do que outras pessoas, que a economia está florescendo...

Quem quer ouvir má notícia? O negacionismo é um viés humano ao qual todos incorremos em diferentes níveis. É isso o que explica parte do apoio dele. E nessa realidade, Trump e seus correligionários republicanos estão muito convictos de que têm poder para fazer o que quiserem. Trump não representa a democracia, ele representa a si mesmo e simula representar o seu eleitorado. Agora, quando a realidade muda segundo o seu público, não há muito em que se segurar. A democracia americana não era perfeita antes dele, mas agora o país está testando os seus limites e descobrindo que eles estão muito, muito tensionados.

A retórica da extrema-direita na França parece mais civilizada do que nos Estados Unidos e no Brasil? A senhora encontra mais diferenças ou mais similaridades entre o discurso de Trump e de Jean-Marie Le Pen?
Jean-Marie Le Pen agora está aposentado. Ele era um bom orador e era diferente de Trump no sentido de saber o que ele estava falando. Por exemplo, quando ele dizia que os fornos crematórios nos campos de extermínio da Segunda Guerra Mundial eram um “detalhe histórico”, estou convencida de que ele sabia exatamente o escândalo que iria provocar com tal declaração. Ele não vive em uma realidade diferente; ele é um ideólogo. Mas Trump não tem uma ideologia realmente: ele descobriu que dividir é a melhor maneira de governar com o poder máximo e tirou vantagem disso. Isso é tudo. O problema é que acabou acreditando em suas próprias mentiras.


A língua de Trump
.Bérengère Viennot
.Tradução de Ana Martini
.Âyiné Editora
.140 páginas
.R$ 54,90


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