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Estado de Minas

Para decifrar a obra de Paulo Freire

Em biografia filosófica, o professor Walter Kohan mostra que a relação entre educação e política é eixo fundamental no trabalho do pensador, mas fora do âmbito partidário


postado em 21/02/2020 06:00 / atualizado em 21/02/2020 08:33

O recifense Paulo Regius Neves Freire (1921-1997) é o patrono da educação brasileira desde 2012(foto: PAULO DE ARAÚJO/CB. D.A.PRESS - 30/8/1996)
O recifense Paulo Regius Neves Freire (1921-1997) é o patrono da educação brasileira desde 2012 (foto: PAULO DE ARAÚJO/CB. D.A.PRESS - 30/8/1996)

O ato de educar é um ato político, pelo qual os marginalizados alcançam a compreensão de sua realidade, aprendem a lutar por seus direitos e vislumbram a superação das relações de opressão. Portanto, a educação deve ser emancipadora. Assim pensava Paulo Freire (1921-1997), desde 2012 patrono da educação brasileira. Mentor de um programa de alfabetização que se tornou referência internacional e responsável pelo Programa Nacional de Alfabetização do governo João Goulart (1961-1964), ele foi perseguido pela ditadura militar e exilado por 16 anos, período em que esteve no Chile, foi convidado a ministrar aulas em Harvard (EUA) e, mais tarde, a partir de Genebra (Suíça), como consultor do Conselho Mundial de Igrejas, fez campanhas de alfabetização na Nicarágua, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Tanzânia. Recebeu ao longo de sua trajetória dezenas de doutorados honoris causa e uma lista de prêmios, entre os quais, em 1986, o da Paz, da Unesco.
Morto há mais de duas décadas – perto de completar o centenário de seu nascimento –, Paulo Freire tem sido alvo de ataques pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, e por parlamentares da base bolsonarista. Para eles, Freire é um “filósofo de esquerda”, cujo método se basearia na “materialização do marxismo cultural”. Por isso, tentam revogar, via projeto de lei,  a Lei 12.612/12, que o declarou patrono da educação brasileira.

Discussões ideológicas à parte, Freire é estudado nas 20 melhores universidades do mundo, segundo o World University Ranking. Sua obra Pedagogia do oprimido se encontra entre as 100 mais consultadas no banco de dados The Open Syllabus Project – que inclui mais de um milhão de programas de universidades de língua inglesa – nos últimos 10 anos. Com 72 mil citações, a obra é a mais referenciada do mundo na área da educação – e é a terceira mais citada no conjunto das produções no campo das ciências sociais, segundo pesquisa realizada em 2017 no Google Scholar por Elliot Green, professor da London School of Economics and Political Sciense. Pesquisa da Cátedra Paulo Freire da PUC-SP mostra que, entre 1991 e 2012, foram 1.852 trabalhos de pós-graduação só no Brasil em referência ao pensamento freiriano. As mais de duas dezenas de livros do educador estão publicadas em 20 idiomas.

“Assim, para o bem ou para o mal, a gosto ou a contragosto do próprio Paulo Freire, ele acaba se tornando um ícone, um mito, um símbolo que extrapola e muito o Brasil”, afirma Walter Kohan, pesquisador e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, autor da obra Paulo Freire mais do que nunca – Uma biografia filosófica.

Em depoimento pessoal, o autor relata a sua experiência em 2013, no Japão, quando convidado a participar de atividades nas universidades de Osaka e Sophia, em Tóquio. “No aeroporto, me esperavam três estudantes da Universidade de Osaka: uma delas tinha uma placa com o meu nome; outra uma placa com a expressão 'filosofia como libertação' (assim, em português) e um desenho-caricatura muito expressivo e benfeito do rosto de Paulo Freire”, registra o autor, deixando claro que não havia programado fazer nenhuma atividade específica com referência a Freire, mas, sendo ele do Brasil, do campo da filosofia e da educação, a associação com Freire era imediata.

“Esse lugar simbólico tão significativo de Paulo Freire não é apenas produto de um trabalho acadêmico, mas de um compromisso militante contínuo em toda a sua vida. É resultado de um compromisso militante com as camadas oprimidas-excluídas e de ter feito de sua própria vida uma causa a favor de suas convicções e ideias, a imagem de Paulo Freire não resulta indiferente a ninguém e se torna geradora dos mais profundos amores e desamores, paixões alegres e tristes, animosidades e rancores... Tudo numa dose só e muitas vezes misturado e confundido. E, sobretudo, exagerado”, considera Kohan.

A bibliografia filosófica de Kohan tratada na obra é ampla, e aborda a relação entre educação e política: “Filosoficamente, pensar com Paulo Freire a especificidade do valor político da tarefa de educar”. Nos termos do autor, a relação entre educação e política é um dos eixos fundamentais que estruturam o pensamento de Freire, que segue como uma das principais referências do mundo no campo da filosofia da educação. Kohan demarca cinco princípios em que encontram os sentidos políticos da tarefa de educar, uma tarefa “emancipadora, liberadora e democrática”, que são os pilares sobre os quais se sustenta a vida pública e privada de Freire.

São eles cinco princípios sintetizados pelo autor em cinco palavras: a vida, a igualdade, o amor, a errância e a infância. “Neles encontramos os sentidos políticos da tarefa de educar”, diz o autor, para quem o ato de educar é um ato político. É assim que Kohan reitera a dimensão política da educação, inspirado em Paulo Freire, “confiando na presença e na potência dessas cinco palavras: uma forma, um lugar, um tempo, um ritmo, uma disposição para a educação se abrir à vida, à igualdade, ao amor, à errância e à infância.

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Walter Kohan, professor da Uerj e pós-doutor pelas universidades de Paris VIII e British Columbia (Canadá)



ENTREVISTA
WALTER KOHAN 
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)

“CONDIÇÕES DIGNAS PARA ENSINAR E APRENDER”

O que o motivou neste momento a trabalhar com Paulo Freire?
Na verdade, faz um tempo que quero escrever este livro e me levou bom tempo porque não é fácil: tem muitos livros, muitas teses e dissertações sobre Paulo Freire. E também não é fácil escrever livro sobre Paulo Freire, pois há duas tendências que estabeleceram seja uma relação de idolatria, de reverência ou relação de ódio e de recusa. Tentei estabelecer outra relação que é a que o próprio Paulo Freire sugere, de tentar dialogar com a obra dele, pensar junto, sobretudo sobre o problema muito crucial hoje que significa que a educação seja ato político, como pensar essa questão fora da lógica dos partidos e do ódio e do amor que se tem em torno deles.

O que Paulo Freire diria para a proposta do Escola Sem Partido?
De fato, Paulo Freire já disse algo para essas pessoas, porque esse movimento já estava presente na vida de Paulo Freire, não com esse nome. Mostro no livro que, sobretudo nas últimas horas, Paulo Freire se refere àqueles que alegam uma pretensa neutralidade na educação. E o que Paulo Freire diz é que, escondendo a sua ideologia na anunciada ausência de ideologia, o que acabam fazendo é reproduzir ou não questionar uma ordem estabelecida, em que justamente não querem que a escola pública seja palco de nenhum debate ou nenhum questionamento porque desejam que as coisas continuem sendo como são. Mas não é por negar essa dimensão política que a educação deixará de sê-lo, pois os seres humanos são políticos, vivem em comunidade, e as coisas que fazemos são produto de certas relações, da interação com o exercício do poder. É uma ficção pretender que a educação não seja política no sentido profundo e rico do termo, em que nos permite pensar em como estamos exercendo o poder uns com os outros dentro e fora das escolas. Não é uma questão de partido político. Por isso minha pretensão no livro é pensar a política fora do âmbito partidário. Mas diz respeito a como seres humanos exercemos o poder quando estamos juntos, e isso na educação é algo principal, pois disto se trata: experimentar certa maneira de estar juntos para depois levá-la para fora da educação.

Quais são hoje os principais desafios que a educação brasileira enfrenta?
É uma questão complexa e difícil. São muitos. Mas diria os principais: um tem a ver com dar condições dignas aos professores para ensinar e aos estudantes para aprender. Coisa que não existe. Que as escolas sejam locais hospitaleiros, habitáveis, que os professores tenham condições salariais e materiais dignas para fazer o trabalho. Que os estudantes tenham espaço em que se sintam acolhidos, onde as suas necessidades e interesses sejam escutados. Por outro lado, há problemas endêmicos. Cito no livro entrevista com grande educadora, alfabetizadora e amiga de Paulo Freire, que era secretária de Educação em Porto Alegre quando Paulo Freire era secretário de Educação em São Paulo. Lina comenta que segundo nós entendemos o tema alfabetismo, analfabetismo, podemos entendê-lo de várias maneiras, mas ainda o Brasil tem 30 milhões, 40 milhões, 50 milhões de analfabetos. Isso é uma questão inaceitável, deveria ser combatida urgentemente. Aliás, de fato, é a questão pela qual Paulo Freire foi preso durante a ditadura de 64, porque estava coordenando o Plano Nacional de Alfabetização, que foi cancelado, e Paulo Freire preso. Veja que em 1964, estamos em 2020. Passaram-se mais de 50 anos, os embates continuam e os problemas continuam os mesmos.

PAULO FREIRE MAIS DO QUE NUNCA – UMA BIOGRAFIA FILOSÓFICA
De Walter Kohan
Editora Vestígio
272 páginas
R$ 49,80


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