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Estado de Minas

André de Leones, Mia Couto e Ronaldo Correia de Brito se aventuraram pelo universo infantil

odos, recentemente, lançaram livros infantis cujas temáticas encontram ecos em suas produções para adultos, confirmando que não há temas que não possam ser tratados na literatura infantil


postado em 27/12/2019 06:00 / atualizado em 27/12/2019 08:15

o livro Daniel está viajando, de André de Leones, tem ilustrações de Lina e narra a história de um menino que precisa enfrentar a solidão e a incompreensão diante da morte
o livro Daniel está viajando, de André de Leones, tem ilustrações de Lina e narra a história de um menino que precisa enfrentar a solidão e a incompreensão diante da morte

A maioria dos leitores conhece André de Leones, Fabrício Corsaletti, José Luis Peixoto, Mia Couto, Miriam Leitão e Ronaldo Correia de Brito pelos romances e ensaios. São autores de referência na produção literária e no pensamento contemporâneos, acostumados a escrever para adultos e que, nos últimos anos, se aventuraram também pelo universo infantil. Todos, recentemente, lançaram livros infantis cujas temáticas encontram ecos em suas produções para adultos, confirmando que não há temas que não possam ser tratados na literatura infantil.

A morte é um deles. André de Leones queria explorar a temática da perda a partir da perspectiva infantil depois de trabalhar com personagem criança em Terra de casas vazias, romance lançado em 2013. Daniel está viajando é o resultado. No livro, o menino precisa enfrentar a solidão e a incompreensão diante da perda. “Acho que a literatura deve apresentar a morte (e outros temas difíceis) da forma mais direta possível para as crianças. Não se deve subestimar a inteligência das crianças, sufocar sua curiosidade, ignorar sua vivência e desprezar sua imaginação”, acredita o autor. Ele conta que procurou atentar para o vocabulário durante a escrita do livro, mas evitou a estrutura cronológica típica de seus romances. Manter a narrativa linear e direta foi um compromisso com os pequenos leitores.
Foram vários nãos até André conseguir publicar Daniel está viajando. Durante os seis anos entre o início do projeto e seu recém-lançamento, ele ainda escreveu dois romances. Para ilustrar o livro, ele contou com o trabalho de Lina Nestorova. “Gosto de pensar que Daniel está viajando, em grande parte graças às estupendas ilustrações de Lina Nestorova, tem algo a dizer às crianças, é capaz de estabelecer um diálogo muito proveitoso com elas”, diz.

Um dos momentos mais emocionantes da palestra dada por Mia Couto na embaixada de Portugal durante uma passagem por Brasília para participar da Semana Universitária da UnB, em setembro último, não teve a ver com o universo dos romances do moçambicano, e sim com o mundo das crianças. Duas delas estavam na plateia para ouvir o autor, que acabou falando sobre A água e a águia, o livro infantil que estava escrevendo e que acaba de chegar às livrarias.

Quinta narrativa infantil de Couto, A água e a águia traz uma história trágica e conectada com os dias de hoje. No livro, as aves do planeta se deparam com um problema seriíssimo: não há mais água e a sede se instala. Desesperadas, as águias estipulam algumas soluções que até dão certo nos primeiros momentos, mas acabam por se mostrar ineficientes. Ao final, é uma combinação entre o conhecimento e a atenção para a natureza a responsável por salvar a Terra da seca. Para o autor, que contou com a ilustradora Danuta Wojciechowska para criar o universo imagético de A água e a águia, não há distinção entre escrever para crianças ou adultos. A oralidade, no caso dos pequenos, é o mais importante para atraí-los. Quanto às histórias, Couto explicou, durante a palestra, que são as memórias da própria infância as responsáveis por trazê-las.

O português José Luis Peixoto, que já ganhou o Prêmio José Saramago e o Oceanos, começou a sentir vontade de escrever livros para crianças quando passou a ler esse tipo de literatura. “Ao mesmo tempo, comunicar com as crianças, tentar pensar pelas suas cabeças, é aceder a uma parte de mim que não quero abandonar completamente, apesar de já ser adulto há bastante tempo”, conta.

Autor de A mãe que chovia e Todos os escritores do mundo têm a cabeça cheia de piolhos, ele acredita que não há muita diferença entre escrever para crianças e para adultos. “Um livro para crianças precisa de um trabalho sério, coerente, tal como acontece com os livros destinados a adultos. Creio que é preciso dar tudo o que temos. A diferença talvez dependa da ideia que cada um tem das crianças, o que dependerá das crianças que conhece, da criança que foi e do estado da sua memória. Pela minha parte, tento escrever livros que sejam edificantes, que transmitam humanidade”, explica.

Foi o Natal que jogou Ronaldo Correia de Brito, vencedor de prêmios como o São Paulo de Literatura e o Biblioteca Nacional, para o universo da literatura infantil. Irritado com a falta de conexão entre renas, neve, Jingle bells e a cultura brasileira, ele, em parceria com o compositor Antonio Madureira e com o escritor Assis Lima, resolveu criar o Baile do Menino Deus, peça ilustrada por Flávio Fargas e reeditada recentemente pela Companhia das Letrinhas. Pensada para o teatro, a história traz elementos da cultura nordestina para o que pode ser descrito como um auto de Natal. A primeira versão da peça saiu em 2003 e, desde então, o Baile segue sendo reeditado. Brito também é o autor de O pavão misterioso, publicado em 2018 e fruto de parceria com Assis Lima.

O auto é apenas a primeira história da Trilogia de festas brasileiras, que se completa com Bandeira de São João e Arlequim de carnaval. “Nós nos queixávamos da invasão de renas, Jingle bells e neve falsa no Natal brasileiro, e resolvemos criar uma brincadeira para os nossos filhos cantarem e representarem durante o ciclo natalino”, conta Brito. “Tivemos a sorte de viver em meio a reisados, lapinhas e bois, a herança do Natal ibérico assimilada no Nordeste do Brasil pelas populações rurais e urbanas, incorporada às culturas índia e negra. Escrever para crianças requer mais cuidado, mais atenção. É um público exigente, que não se deixa tapear. Nossa intenção era mostrar um pouco do Brasil que se perde todos os dias.”

Autora de livros densos sobre a realidade brasileira, como Tempos extremos e História do futuro, Miriam Leitão encontra na escrita para o público infantil um respiro da aridez dos temas econômicos. Nesse mundo, não há prazos e a história vem carregada de espontaneidade e referências pessoais. No recém-lançado As aventuras do tempo, a infância na fazenda dos avós e um pedido da sobrinha-neta conduziram a autora pelo universo da pequena personagem Mel. “Escrever para criança é bem de- licado. Tenho o cuidado de sempre trabalhar cada palavra e o significado de cada frase”, explica Miriam, que também não deixa de fora das narrativas os temas do cotidiano que considera relevantes, como o meio ambiente. “Acho muito importante porque essa geração, se não tiver a consciência ambiental, pode ver um futuro muito terrível, então tenho feito isso em vários livros”, conta.

Ronaldo Correia de Brito
(foto: Luiz Santos/Divulgação)
(foto: Luiz Santos/Divulgação)

“É preciso ter respeito pela inteligência e sensibilidade”

Como surgiu o Baile do Menino Deus? E como o Brasil está representado nessa história natalina?
Tudo nasceu de um esboço de representação teatral, que o parceiro Assis Lima mandou de São Paulo para mim pedindo que eu o encenasse com minhas irmãs, num Natal do Crato. Primeiro veio a música, o disco. Em 1981, começamos a entregar a Antonio Madureira as letras do futuro Baile do Menino Deus. Sem internet, nem skype, nem WhatsApp, com ligações telefônicas caras e precárias, a comunicação com Assis Lima era feita pelo correio. Aprontamos nove composições e juntamos a elas três peças de reisado, com escrita e arranjos nossos: Jaraguá, Burrinha e Boi. Tínhamos 12 músicas, o bastante para um long-play. Madureira conseguiu a produção com o selo Eldorado, mas tivemos de gravar tudo em Recife, no velho e decadente Studio Rozenblit, com apenas oito canais. Enquanto isso, Assis Lima e eu aprontávamos o texto teatral. Em outubro de 1983, lançamos o disco e, em novembro, estreamos a peça, que ficou oito anos em cartaz. Sonhamos com uma Trilogia das festas brasileiras, que se completou com Bandeira de São João e Arlequim de carnaval.

Houve alguma alteração na reedição? Pode contar como foi fazer a reedição?
A primeira edição do Baile do Menino Deus saiu no Recife, pela Bagaço. Era uma versão do teatro adaptada para prosa, com ilustrações de Rosinha. Foram 15 anos em catálogo e muitas vendas. Em 2003, a Objetiva editou o original em teatro, ilustrado por Pinky Wainer, e concorreu ao FNDE/PNBE, do Ministério da Educação. Venceu a concorrência e tivemos uma aquisição de 500.000 exemplares, que foram distribuídos a bibliotecas e escolas públicas de todo o país, tornando-se umas das peças teatrais mais populares e encenadas. Em 2010, a Alfaguara lançou um belo livro ilustrado por Flávio Fargas, que depois ganhou o selo Companhia das Letrinhas e manteve a versão original para teatro.

E O pavão misterioso, como nasceu?
Em meio às peças da Trilogia das festas brasileiras, que também eram livros, discos e espetáculos, resolvemos trabalhar com o gênero maravilhoso do cordel. Escolhemos o mais famoso de todos eles, que trata de questões contemporâneas, O romance do pavão misterioso. Fizemos uma livre adaptação, que agradou bastante. O livro saiu pela CosacNaify, ilustrado por Andrés Sandoval, e depois pela Companhia das Letrinhas. Também teve disco e encenação.

Como você decide que uma história é para crianças ou adultos?
Todas as nossas histórias para crianças também agradam ao público adulto. Lembramos o que nos fascinava nos livros e brincadeiras infantis e arriscamos que há um ponto em que as crianças são iguais, em todos os tempos. Nunca se perde o encantamento pelo mágico e pelo faz de conta.

O que não pode faltar em um livro para crianças?
Uma boa história, o respeito pela inteligência e sensibilidade.

Você está trabalhando em algum título novo para crianças?
Já escrevi motivado pelos filhos e agora os netos me motivam a escrever para eles. Trabalho em quatro folhetos de cordel.

E qual a importância da ilustração num livro infantil?
Toda. Vivemos num mundo a cada dia mais visual, que valoriza as imagens. Um bom ilustrador dá vida ao texto, torna-o melhor de ser lido.

José Luis Peixoto
(foto: sempre um papo/Divulgação)
(foto: sempre um papo/Divulgação)

“Privilegio as ideias ligadas à brincadeira”

O que o leva a escrever livros para crianças? É diferente de escrever para adultos?
Comecei por sentir vontade de escrever livros para crianças quando, já com obra publicada, me interessei por ler livros destinados a esse tipo de público. Creio que me senti atraído pela possibilidade dessa experiência. (Até os meus filhos já são quase adultos.)

O que não pode faltar em um livro para crianças?
Penso que, ao nível do trabalho literário, não há características especialmente distintas.

Como você encontra as histórias para os livros infantis?
De forma semelhante ao modo como chego a qualquer outro livro. Ainda assim, suponho que privilegio ideias que estejam ligadas à brincadeira, à experimentação, à descoberta do mundo.

Pode falar um pouco como surgiram A mãe que chovia e Todos os escritores do mundo têm a cabeça cheia de piolhos?
No primeiro caso, quis escrever sobre as mães, uma figura tão fundamental na vida de todos. Tentei humanizar a figura da mãe para a criança, mostrar o seu lado. Achei uma maneira algo paradoxal de fazê-lo, uma vez que a mãe da história é explicitamente não humana, é a chuva. Já no que diz respeito ao livro dos piolhos, também com um discurso bastante surreal, embora com um tom bem diferente, mais divertido, tentei humanizar a figura do escritor, tentei aproximá-lo do leitor infantil e mostrar-lhe que também ele pode ser escritor, aproveitando para trazer algumas ideias sobre a literatura, tanto do ponto de vista da escrita, como da leitura.

André de Leones

“A imaginação é uma defesaque temos contra o mundo”
(foto: sesc tv/piu dip/divulgação)
(foto: sesc tv/piu dip/divulgação)

O que o levou a escrever para crianças?
Não foi algo planejado. No meio de outro projeto, anos atrás, me senti atraído por esse tipo de narrativa e decidi experimentar, ver se era capaz de desenvolver algo para crianças. Na prática, em termos de planejamento e execução, não foi diferente de escrever para adultos.

Daniel está viajando é o seu primeiro livro infantil.  Como está conectado com sua obra para adultos, especialmente com Terra de casas vazias?
Sim, é o meu primeiro livro infantil. Em 2012, eu estava terminando de escrever um romance chamado Terra de casas vazias (lançado em 2013 pela Rocco). Esse livro me tomou bastante tempo (comecei a concebê-lo em 2009), e eu senti que precisava me concentrar em outra coisa por um tempo, a fim de recarregar as energias e terminá-lo. Terra de casas vazias é formado por vários blocos narrativos, e um deles é protagonizado por uma criança. Eu gostei de trabalhar com esse universo, por assim dizer, e decidi desenvolver uma pequena narrativa autônoma. Fiz isso entre uma revisão e outra do romance, e acho que deu certo.

O que não pode faltar em um livro para crianças?
Imaginação. Há que se buscar formas menos óbvias de abordar a realidade e a própria narrativa. Em Daniel está viajando, ao falar sobre a morte procurei brincar com as coisas que os adultos dizem para as crianças, como: “Fulano foi para o céu”. E se o protagonista imaginasse isso — “ir para o céu” — acontecendo de fato, isto é, literalmente? Creio que essa imagem é uma maneira de presentificar a ausência, também um meio de acessar a mente infantil ao lidar com situações traumáticas. Ao escrever o livro, eu me lembrei de mim mesmo aos seis, sete, oito anos, lidando com essa coisa misteriosa que é a vida, ouvindo o que os adultos me diziam e, sem compreendê-los muito bem, deixando a imaginação correr solta. A imaginação é uma defesa que temos contra o mundo. Não me refiro à fuga da realidade, mas à busca incessante por significados, imagens e formulações que nos ajudem a viver e abraçar o mundo, por mais espinhoso que ele seja.

Perda é um dos temas do livro. Como a literatura pode apresentar a morte para as crianças? Que papel a literatura pode ter na descoberta da mortalidade?
Jamais. Isso talvez seja visto com estranhamento por alguns, a julgar pela maneira como certas obras literárias têm sido recebidas por aí. O livro Enfim, capivaras, de Luisa Geisler, foi banido de um evento literário em Nova Hartz-RS, por exemplo, por retratar de forma crível um bando de adolescentes. O “linguajar” da obra seria “inadequado”, como se adolescentes não falassem palavrões. Isso é absolutamente ridículo. Nosso país vive uma epidemia de desinteligência, da qual só sairá se investirmos em educação e cultura. A maioria dos jovens e adultos é incapaz de raciocinar ou mesmo de interpretar textos simples. Não por acaso, são esses mesmos indivíduos que andam por aí espalhando o ódio e a cizânia. Há uma relação direta entre a falta de educação (em todos os sentidos) e o caos político-social, de colorações autoritárias, que vivemos. A desinteligência e a falta de imaginação são formas de escravidão. Hoje, independentemente do espectro ideológico e da classe social, a maioria dos brasileiros vive na escravidão. As pessoas estão no fundo daquela caverna da alegoria platônica, atirando pedras nas sombras projetadas na parede, atirando pedras umas nas outras, aparentemente satisfeitas com esse espetáculo grotesco.

Como você se sente escrevendo para crianças em país cujo Pisa constata que mais da metade dos estudantes de 15 anos, incluindo aí os da elite, não sabem ler nem escrever?
Não acho que isso seja por acaso. Leitura é algo fundamental para o desenvolvimento do senso crítico, para que se tenha uma noção mínima de si mesmo, do outro e do lugar histórico que ocupamos. Penso que a máquina pública brasileira sempre mirou o oposto disso, mesmo quando os investimentos em educação eram maiores, mas extremamente desorganizados e mal administrados. Ao Estado brasileiro interessa formar essa multidão de zumbis iletrados, os quais estão muito bem representados à direita e à esquerda — no Brasil, não me canso de dizer, a estupidez é ambidestra. Deseducadas, as pessoas passam a se fiar em bizarrices neointegralistas como Bolsonaro ou populistas como Lula, viram terraplanistas, liberais de calças curtas, socialistas de boteco, fascistinhas de condomínio, apegam-se ao desconhecimento, à incultura, ao obscurantismo e aos piores preconceitos. Como me sinto escrevendo para crianças e adultos em tal contexto? Prefiro nem pensar muito a respeito, mas apenas me concentrar no meu trabalho e tentar realizá-lo da melhor forma possível. Se eu pensasse demais, creio que seria dominado pelo desânimo e pelo desespero. Por menor que seja a minha relevância, não posso me dar ao luxo de parar. É preciso seguir em frente, é preciso seguir lendo, escrevendo, pensando, dialogando, criando e, acima de tudo, vivendo.


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