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Estado de Minas PODCAST

'Monteiro Lobato não faz o leitor se tornar racista'

Conversamos com a autora a recém-lançada edição de luxo de 'O sítio do picapau amarelo', Luciana Sandroni e com o ilustrador da obra, Marcelo Lelis


postado em 11/10/2019 04:00 / atualizado em 16/10/2019 14:30

No ano em que acabou o domínio público sobre a obra de Monteiro Lobato, chega ao mercado a edição de luxo de As aventuras do Sítio do Picapau Amarelo, coletânea com oito histórias organizada e apresentada pela escritora Luciana Sandroni, com ilustrações em aquarela de Lelis, do Estado de Minas – que na página ao lado faz uma brincadeira com os personagens do sítio sobre o seu trabalho.

O volume 1 contém Reinações de Narizinho, O Saci e Viagem ao céu e o 2, Caçadas de Pedrinho, Memórias da Emília, A reforma da natureza, Os 12 trabalhos de Hércules e Histórias diversas. Na apresentação, Luciana mostra como o escritor revolucionou a literatura brasileira. “Antes do Lobato, os livros nacionais priorizavam questões morais e patrióticas, acreditando que a ênfase na fantasia prejudicaria o desenvolvimento da criança. O sonho e a imaginação surgiram em 1921, com A menina do narizinho arrebitado”, conta Luciana.

Confira as edições anteriores do podcast Pensar

 

Mas a polêmica veio mesmo com o politicamente correto de hoje em dia, em que Lobato é acusado de racismo por passagens como essa: “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão, pelo mastro de São Pedro acima...”. Na entrevista abaixo, Luciana fala da polêmica e da importância da obra de Lobato.

ENTREVISTA LUCIANA SANDRONI 
“Lobato não faz o leitor se tornar racista”

Diante do politicamente correto, como ler Monteiro Lobato hoje? 
O melhor seria falar com as crianças sobre a época do Monteiro Lobato, quando ele nasceu, em 1882, no interior de São Paulo. Ele é filho e neto de fazendeiros. Ele viu esse processo lento da abolição, conviveu com escravos e vai refletir isso na obra dele. A Emília ficou com essa questão do politicamente incorreto. É a personagem que trata mal a Tia Nastácia, que fala com ela de uma maneira agressiva, é mandona, autoritária. Ela ficou com esses aspectos ruins, e Narizinho e Pedrinho não. São crianças bacanas, carinhosas, que ouvem Tia Nastácia, ouvem Tio Barnabé, conversam com Dona Benta, que querem discutir os assuntos. São eles que são sempre contra a Emília, porque a Emília é egoísta. O Lobato aproveita esse espaço do sítio para mostrar a opinião de vários personagens. Cada um tem seu jeito, tem sua voz. Ele reflete essa diversidade de opiniões. É importante ler o Sítio porque traz riqueza de temas, astronomia, petróleo, Grécia. Traz personagens de outros escritores, de contos de fada, da própria mitologia para participar das histórias. Enriquece a criança culturalmente, além de estar sempre incentivando a fantasia, o sonho. O Sítio é um lugar da criatividade. Isso é superimportante para a gente falar. Ele tem todo um projeto de criar uma criança curiosa, que pensa.

Com o fim do domínio público de sua obra, começam a aparecer adaptações que distorcem ou mutilam as histórias de Monteiro Lobato, como o corte do racismo. Você concorda com as mudanças?
Não concordo. A obra do Lobato não faz o leitor se tornar preconceituoso ou racista. Muito pelo contrário, reflete a época dele, o contexto histórico. A criança tem que saber que época foi essa. Houve escravidão no Brasil. Foi uma escravidão cruel, que demorou séculos. Havia pessoas que acreditavam que os negros eram menos inteligentes, havia essa ignorância. As crianças têm que saber dessa época. É importante manter o texto na íntegra porque a criança tem a possibilidade de dialogar com o passado, de refletir. Ela pode pensar melhor em entender o presente porque o Brasil é um país racista, e ela tem que saber dessa história. E se você cortar os trechos em que a Emília é agressiva com a Tia Nastácia, em que o narrador é agressivo com a Tia Nastácia, também vai eliminar a discussão. A gente só fala dessa questão da Emília, mas não fala que Narizinho defende a Tia Nastácia e a própria Tia Nastácia se defende. O Lobato traz a discussão à tona, Narizinho querendo justiça, que a Emília respeite Tia Nastácia. Colocar notas (explicativas no livro) é a melhor maneira de trazer à tona essa discussão do racismo, falar abertamente. As notas ampliam essa discussão, trazendo pontos bons para os professores discutirem com as crianças. Cortar trechos vai na contramão de tudo o que o Lobato diz. Subestima-se muito a criança quando você corta esses trechos e mutila textos do Lobato.     

Nacionalista e patriota convicto, Monteiro Lobato chegou a ser chamado de comunista e ter livros queimados em escolas. Como explicar essa intolerância histórica?
  Minha mãe me contou que as freiras da escola em que ela estudava pediram para as crianças levarem os livros, mas meus avós disseram para ela não levar. Impressionante essa queima de livros, essa intolerância. Lobato mexia em muitos pontos da religião católica. Ele fala muito do Darwin, ele era a favor da teoria da evolução. Fala muito de uma criança que pensa, que é curiosa, que lê, que tira suas próprias conclusões. Se a gente pensar que a intolerância ainda existe, essa ideia de escola sem partido. Como assim não discutir política? Não discutir racismo? O Lobato era visionário, discutia nos textos dele do Sítio a guerra, a violência do homem. Pedrinho e Saci discutem muito sobre o homem. Saci critica o homem que mata, que desmata a floresta. Lobato levantava muitas polêmicas e é criticado por isso, por todas essas ideias que defendia nos livros. O triste é saber que hoje talvez ele também seria queimado.
  
Ele ainda é um brasileiro a ser desvendado? 
 Sim. Ele tem muitas facetas. Era  muito ativo, muito polêmico. Não foi só escritor maravilhoso,  tinha interesses variados, foi fazendeiro, jornalista polêmico, editor superarrojado, empresário, lutou pelo petróleo. A gente tem uma biografia maravilhosa do Lobato, Furacão da Botocúndia, do Vladimir  Sacchetta, da Carmen Lucia, da Márcia Camargo, que está saindo pela Companhia das Letras. Quanto mais estudar Lobato, melhor para a gente tentar entender a cabeça dele. E adaptações para o cinema. A obra caiu em domínio público. Eu vi O Saci (1951), do Rodolfo Nanni. É uma obra maravilhosa esse filme. Não tem mais nada no cinema, então agora é hora de adaptar Lobato, divulgar a obra dele. Seria maravilhoso para as crianças conhecerem mais a obra do Lobato.



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