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Estado de Minas

O TESOURO LITERÁRIO DOS ASTECAS

Confronto entre astecas e espanhóis, relatado em detalhes pelos nativos, põe por terra a narrativa espanhola de que eram apenas selvagens, o que justificaria o genocídio, contam os historiadores Baudot e Todorov


postado em 28/06/2019 04:08

Entre os pictogramas disponibilizados na obra de Baudot e Todorov, a representação asteca de uma batalha no alto de um templo
Entre os pictogramas disponibilizados na obra de Baudot e Todorov, a representação asteca de uma batalha no alto de um templo

Após avistar a primeira nau espanhola que aportava à costa do Golfo do México, os moradores nativos daquelas terras acreditaram, em princípio, estar diante da “Serpente Emplumada”, divindade do ar, do planeta Vênus e da cultura – associada ao lendário Quetzalcoatl, rei de Tula, personificação da idade de ouro tolteca. Os astecas se acercaram dos espanhóis. Tocavam a terra com o dedo, levando-o em seguida aos lábios – “comendo terra” –, cerimônia que demonstrava respeito e implorava por proteção. Era mútuo o espanto entre índios e colonizadores, representantes das duas metades do mundo, que nunca antes haviam se cruzado e ali se enfrentavam: “Quem sois? De onde vindes? Onde fica a vossa morada”, interpelaram os espanhóis. “Foi de lá, foi de México que viemos”, retrucaram os astecas. Ao que os conquistadores indagaram: “Se é verdade que sois mexicanos, qual é o nome do rei de México?” Responderam: “Oh, senhores nossos, ele se chama Montezuma”.

       A trágica história dos povos vencidos do México Central, contada em relatos não sob a ótica do conquistador espanhol, mas dos astecas, vítimas destroçadas na epopeia castelhana, é incursão à qual convidam os historiadores George Baudot (1935-2002) e Tzvetan Todorov (1939-2017), organizadores da obra Relatos astecas da conquista, lançada pela editora Unesp. Uma antologia das histórias originais – algumas inéditas – acompanhadas das ilustrações desses manuscritos, sobre o desembarque do conquistador Hernán Cortés (1485-1547). Os escritos em língua nativa nauatle, mas também extraídos de versões espanholas do século 16, gritam o massacre que resultou o encontro de duas grandes populações que viviam em cantos distintos do planeta e ignoravam a mútua existência.

     Na Europa e em particular na Espanha, sobram textos sobre o excepcional acontecimento, sempre sob o olhar do vencedor. A invasão e a colonização da América, entretanto, originaram uma rica literatura de autoria dos índios, que coloca em xeque as narrativas – conscientes ou não – tão difundidas por colonizadores, de que o continente americano seria desabitado ou povoado unicamente por “selvagens”, o que, em certa medida, “isentaria” o seu extermínio de ser entendido como um genocídio. Não à toa, esses escritos do século 16 foram, em princípio, proibidos, escondidos, censurados ou até destruídos. Mas no século 19, a reboque dos movimentos de independência das antigas colônias americanas, a história renasce das cinzas, em princípio em edições restritas ao grande público.

OS TERRÍVEIS PRESSÁGIOS

É por meio da publicação do mais importante relato disponível sobre a conquista em língua nauatle – o livro XII do Códice Florentino, uma enciclopédia do mundo asteca, realizada sob a direção do franciscano Bernardino de Sahagún – que Baudot e Todorov abrem ao leitor o trauma da conquista espanhola: ali, o relato histórico do sofrimento e desespero diante de seu universo estilhaçado, se funde à inspiração filosófica tão presente na literatura herdada dos mexicas pré-colombianos, que registravam desde a época dos toltecas nos séculos 10-12, a memória dos acontecimentos. Nele, os astecas relatam oito maus presságios que antecederam a chegada dos espanhóis.

“Dez anos antes da vinda dos espanhóis, um presságio de desgraça apareceu pela primeira vez no céu, como uma chama de fogo, como uma lâmina de fogo, como uma aurora. Parecia chover em pequeninas gotas, como que a perfurar o céu: alargou-se na base e estreitou-se no vértice. Bem no meio do céu, bem no centro do céu chegou, até o mais profundo coração do céu (…) Mostrou-se durante um ano inteiro (…) Quando se mostrava, as gentes soltavam gritos, davam tapas nos lábios, sobressaltavam-se, abandonavam o trabalho”. O incêndio do templo consagrado a Uitzilopochtli – o “Beija-Flor da Esquerda”, divindade solar e deus-guia da tribo asteca que presidia o panteão mexicano – foi entendido como um segundo presságio. A ele seguiu-se o “estilhaço do Sol” - a descarga de um raio – que atingiu o templo de Xiuhtecuhtli, “Senhor de Turquesa”, onde se imolavam as quatro vítimas rituais do fogo. Nesse ritual,o soberano oferecia o fogo no mês de Izcalli – 18º mês do calendário asteca, considerado do renascimento.

A queda de um cometa à luz do dia, foi o quarto presságio. E, o quinto, um redemoinho no grande lago em México-Tenochtitlan –, seguido do sexto presságio: os gemidos de uma mulher noite adentro, acompanhados dos gritos “meus filhos queridos, chegou a hora da nossa partida!”. Foram ainda sinais funestos, um pássaro grande e cinzento, que possuía um espelho redondo, esférico, sobre a sua cabeça, onde se viam o céu, as estrelas, a constelação de gêmeos, que fora pescado em uma rede no lago, que muito impressionou Montezuma, grande tlatoani dos astecas, o último imperador, aquele mesmo que receberia Hernán Cortés e morreria misteriosamente depois de ter sido preso.

Ao consultar os seus adivinhos sobre o pássaro que lhe provocara visões, Montezuma disse-lhes: “Não sabeis o que eu vi? Umas pessoas que pareciam vir correndo de todos os lados”. O oitavo e último presságio funesto foi assim registrado pelos astecas: “Muitas vezes apareciam homens, deformados, de duas cabeças, mas um corpo só. Levavam-nos ao Colégio do Negro, mostravam-nos a Montezuma; assim que ele os via, desapareciam”.

Quando chegou a Montezuma a novidade daquela estranha presença na costa mexicana, as diferenças e ao mesmo tempo a notícia da superioridade técnica dos “deuses”, Montezuma fica paralisado, em estado de estupor. Compreende que o fato significa a derrocada do antigo sistema de pensamento: “Quem os conduziu a este lugar? Por que isso não aconteceu no tempo dos nossos ancestrais? Não há outro remédio, senhores, senão decidirdes o vosso coração e a vossa alma a sofrer com paciência o que há de vir, porque eles já estão às nossas portas”, discursa Montezuma aos outros reis mexicanos, segundo relata o dominicano Diego Durán, na obra História das Índias da Nova Espanha. Os índios se aturdiam”, salienta Muñoz Camargo, filho de um conquistador e de uma índia, autor da obra A história de Tlaxcala, nação que lutou ao lado dos espanhóis contra os astecas. Não se tratava de temor por perder reinos, terras e senhorios, mas por compreender que o mundo, tal qual o conheciam, chegara ao fim, que todas as gerações estavam fadadas a desaparecer.

NATIVOS ADEREM AOS ESPANHÓIS

Ao primeiro desembarque espanhol na costa mexicana, a expedição de Hernández de Córdoba, em 1517, não havia ali um Estado homogêneo, mas, antes, um conjunto de nações dominadas pelos astecas de México-Tenochtitlan, com relações entre vizinhos frequentemente hostis. Os tlaxcaltecas, que não integram o Império Asteca, são frequentemente vítimas de agressões; por isso aliam-se ao invasor. As queixas se acumulam também entre os habitantes de Teocalhueyacan: “Eis que Montezuma e os mexicanos nos fazem muito infelizes, muito nos atormentam”, afirmavam. É assim que a chegada dos espanhóis e a possibilidade de insurgência contra o Império Asteca desperta velhos rancores, o que beneficia a conquista por Hernán Cortés, que ali aporta em 21 de abril de 1519.

Com um eficiente sistema de informações, Cortés mapeia as dissensões entre os povos nativos e as “cultiva com zelo”, atraindo para si uma população após a outra, revelam os autores. “Mas o bom Marquês também não desistiu de ganhar essas nações e enviou embaixadas e missões para lhes dizer que ele estava lá para livrá-las da tirania e do jugo mexicano”, assinala o dominicano Diego Durán, em História das Índias da Nova Espanha. O resultado de tal estratégia é que, na última fase da guerra, os astecas enfrentam um enorme exército de índios que se colocou sob o comando do conquistador Cortés.

O Códice Ramírez, que constitui um conjunto de escritos sobre a história e costumes dos astecas, reunidos pelo jesuíta Juan de Tovar, descreve cena que ilustra a derrocada asteca: Hernando Ixtlilxóchitl, principal aliado de Cortés, convertido ao cristianismo e batizado, derruba os ídolos que antes venerara. “Cortés se apoderou da máscara, dom Hernando agarrou pelo cabelo o ídolo que ele outrora adorava, cortou-lhe a cabeça. Erguendo-a bem alto, mostrou-a aos mexicanos e disse-lhes com voz vibrante: ‘Aqui vedes o vosso falso deus e o pouco que vale; reconhecei a vossa derrota e recebei a lei de Deus, que é a verdadeira’”. Para os autores, trata-se pois, da imposição da fé cristã, que dá sentido à cruel história da conquista.

FORMAÇÃO DO IMPÉRIO ASTECA

Ao desabrochar do século 16, o Império Asteca tinha 38 províncias, que somavam cerca de um milhão habitantes, dos quais cerca de duas centenas de milhares viviam na maior cidade, Tenochtitlán. Esse povo chegara ali 200 anos antes, após longa peregrinação, iniciada a partir de 1168, quando deixara Aztlán, região de localização imprecisa, ao Norte. Em referência a Aztlán foram chamados “astecas”. Também foram denominados mexicas, porque, durante esta longa marcha, assim os deuses os teriam batizado em homenagem a um sacerdote.

Pouco se sabe sobre essa marcha, em que astecas andaram às cegas, conduzindo sobre os ombros um envoltório com objetos relacionados ao deus Uitzilopochtli, divindade solar representada por um colibri. Sabe-se que buscavam o sinal que indicasse onde deveriam se estabelecer.

Em 1325, encontraram-no: a águia levando à boca uma serpente, pousada sobre um cacto, elevado sobre uma pedra, cuja representação está no brasão da atual bandeira do México. O sinal se fez, em uma localidade pantanosa, numa das ilhas do lago Texcoco, onde nenhum outro povo até então arriscara viver. Em meio a uma ilhota de uma região pantanosa, localidade em que hoje se encontra a Cidade do México, foi fundada Tenochtitlán, a capital do Império Asteca, que exibiria a sua arquitetura sustentável e, com o passar dos séculos, se estenderia por milhares de hectares de ilhas e pântanos. Tornou-se uma metrópole de 15 quilômetros quadrados, incrustada num lago, entrecortada por uma rede de canais e aquedutos. Ligava-se às margens por calçadas artificiais. Não fossem os seus habitantes tão estranhos aos olhos europeus, poderia ser comparada a Veneza, só que muito mais bela e limpa.

Com intensa vida ritualística, os astecas cultivavam hábitos de leitura, escreviam, tinham uma compreensão evoluída de astronomia e exerciam vários ofícios. O sistema educacional oferecia dois tipos de escola – uma para as camadas sociais baixas, com conteúdo quase que exclusivamente militar; a outra elitizada, para o ensino da escrita dos códices e os calendários. Adotaram um calendário solar e outro para a agricultura. Esta era desenvolvida nas chamadas chinampas – que eram plataformas artificiais de terra, construídas com estacas e lodo do lago, de tal forma que a área de plantio não dependia das chuvas.

MASSACRE COM A PRISÃO DE MONTEZUMA

Cavalos, “bichos estranhíssimos”, desconhecidos nas Américas até então –, espadas de metal, arcabuzes e canhões foram empregados por espanhóis para enfrentar o grande Império Asteca. Com 500 homens, Hernán Cortés chegara de Cuba à costa mexicana em 1519. Não encontrou muita resistência nos primeiros contatos. Mas à medida  que a expedição avançou ao centro do território, onde estavam os povos mais desenvolvidos, a violência do choque entre espanhóis e astecas foi crescente.

Se por um lado o alvo de Cortés era derrubar o império do tlatoani (governante) mexica Montezuma, colonizando-o para a Coroa espanhola; por outro, incorporou alianças com os adversários dos astecas, como os tlaxcaltecas, e ordenou ataques surpresas, como em Cholula, promovendo massacres. O Códice Florentino narra um dos confrontos, com vitória dos conquistadores: “Mas esses otomis, essa gente de Tecoac, os espanhóis os destruíram por completo, aniquilaram, esmagaram, fizeram mingau deles”.

Montezuma, que recebeu amistosamente Cortés quando este chegara à capital, foi feito prisioneiro num lance ousado do conquistador. Era mantido “sob grilhões”, como refém, enquanto as forças de Cortés tomavam pé do império e de seu sistema político, cultural e econômico. Traiçoeiramente, deu-se então uma das carnificinas mais célebres promovida contra os astecas, que significou um divisor de águas nas relações entre colonizadores e nativos. Os relatos indígenas guardam a viva memória do chamado massacre do Templo Maior, que se deu durante a festa de Uitzilopochtli. Cortés havia se ausentado da capital para combater as tropas do concorrente Pánfilo de Narváez, chegadas de Cuba. Pedro Alvarado, encarregado do comando da guarnição de México-Tenochtitlan, “autoriza” a celebração religiosa. A elite asteca chega desarmada ao templo. Mas ali é presa e dizimada.

Nas palavras do Códice Florentino: “Algumas foram feridas pelas costas, e suas entranhas se esparramaram no chão. De outras eles rebentaram a cabeça, esmigalharam, reduziram a cabeça delas a pó. E de outras, eles atingiram os ombros, vieram furar, vieram despedaçar o corpo delas (...) E foi em vão que as pessoas correram. Ninguém fazia senão engatinhar, arrastando as suas tripas; era como se elas se enredassem nos pés de quem queria fugir”. Na sequência ao massacre, Montezuma é apunhalado pelos espanhóis – que jamais assumiram a responsabilidade de sua morte. Depois, entregaram o corpo do soberano morto aos índios. Os relatos astecas, nesse momento, demonstram a relação ambígua que se estabeleceu entre os mexicanos e Montezuma, a quem alguns acreditaram, os havia traído. Houve revés pela crueldade de Pedro de Alvarado. Naquela que ficou conhecida como a Noch Triste, os astecas se vingam em combate, cercado o palácio e matando espanhóis que saíram em fuga. 

‘FOMOS TOMADOS DE ADMIRAÇÃO’

Diferentemente do que sugere muito da história contada pelos vencedores, a civilização asteca era muito evoluída. Tanto que Bernal Dias del Castillo, escrivão de Hernán Cortéz, ao avistar Tenochtitlán, registrou o seu espanto:“Vendo tantas cidades e vilas situadas na água e outras tantas aldeias em terra firme, fomos tomados de admiração. Por causa das grandes torres e pirâmides que se elevavam da água, alguns soldados chegavam mesmo a se perguntar se aquilo não era um sonho.”
Tenochtitlán, em seu tempo glorioso, exerceu hegemonia em toda a região, dominando povos até a atual Guatemala. Em agosto de 1521, a expedição espanhola de Hernán Cortés, fortalecida pela presença dos adversários locais dos astecas, derrubou o centro mexica. Diferentemente do que frequentemente se acredita, não foi uma conquista rápida. Os astecas resistiram, sobretudo após o massacre do Templo. Esse é um sofrimento registrado em códices que, quase meio milênio depois, são resgatados nesta obra, em revelação ao outro lado da história, o lado dos vencidos.

RELATOS ASTECAS DA CONQUISTA
Orgs.: Georges Baudot e Tzvetan Todorov
Editora Unesp
580 páginas
R$ 94
R$ 75,20 (e-book)


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