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Estado de Minas

O edifício da linguagem

Léxico conceitual Brasil/Europa, primeiro volume de um projeto realizado em parceria entre a UFMG e a Universidade de Bolonha, que esquadrinha a construção e as alterações dadas pelo uso dos termos "Memória cultural" e "Patrimônio", tem lançamento nesta sexta, em BH


postado em 19/10/2018 07:00

Iniciativa colaborativa entre o Centro de Estudos Europeus (CEE), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e a Universidade de Bolonha (Unibo), na Itália, o Projeto Léxico busca estabelecer parâmetros conceituais e teóricos entre os dois lados do Atlântico para orientar pesquisas e criar um arcabouço teórico comum. Com a ideia de abordar grandes temas e se construir uma plataforma comum, o primeiro fruto dessa parceria será lançado hoje, às 18h, na Livraria da Rua, em Belo Horizonte.

O primeiro volume de Léxico conceitual Brasil-Europa é dedicado à memória cultural e patrimônio. Organizado pelo professor Ivan Domingues (UFMG) e por Roberto Vecchi (Unibo), o volume está dividido em duas partes. A primeira, intitulada “Metaléxico”, traz três ensaios e procura estabelecer as bases conceituais e históricas do projeto. Na segunda, os quatro ensaios, escritos cada um a quatro mãos, abordam os temas em questão, expandindo as possibilidades de entendimento sobre patrimônio e memória cultural, que passeiam por ideias (ou conceitos, ou termos) que vão de Aleijadinho aos ianomâmis, de elementos da cultura africana (comida, música, religião) à discussão acerca da “origem”.

A vasta pesquisa empreendida não se propõe a se encerrar com a publicação deste primeiro volume, obviamente, e os textos deixam claro que são explorações e buscas, como o viajante que sabe que o aprendizado está no caminho e não no conforto da cama que o acolherá na chegada.

TRECHOS
Veja a definição parcial de dois verbetes do Léxico conceitual Brasil-Europa

Memória cultural
Graciela Ravetti e Myriam Ávila (UFMG)

Podemos identificar pelo menos duas classes de problemas de base no estabelecimento de uma agenda para a memória cultural: 1. As passagens da memória pessoal para a coletiva. 2. Como fazer funcionar, nos dois estratos, o mecanismo da memória racional afetada. Desse ponto de vista, poder-se-ia pensar em memória cultural sem narrativas de enlace que supostamente contribuam com a “compreensão” ou ainda simplificar a ideia de memória cultural como 1) a que nos permite viver, primeiro, como espécie, em segundo lugar, como membros de uma mesma região, e, por fim, como indivíduos relativamente livres organizados em células 2) a que procura a verdade e a justiça amparada em fatos cada vez mais específicos e abundantes, de acordo com o grupo no poder (no caso da memória oficial) e da resistência (os grupos minoritários). A primeira pede antes estudos em profundidade do que teorização; a segunda é sempre uma construção interessada porque a memória é uma propriedade emergente do todo. É crucial não só estudar como se formou a memória cultural e qual é seu corpo, mas também como ela está se gestando, agora, quando nossa percepção da ontologia do presente se tornou tão aguda que vemos o tempo transcorrer. Daí se poderá conjecturar como a memória cultural se apresentará para as gerações futuras.

Patrimônio
Sabrina Sedlmayer (UFMG)*

Palavra de raiz latina, patrimônio possui uma semântica complexa e sentido ambivalente: relaciona-se tanto ao dom quanto à doação, tanto à obrigação quanto ao dever. Patrimônio se transmite como herança, eis o mais conhecido significado do termo – bem de herança que descende dos pais para os filhos. É patrimônio o que tem valor para uma comunidade, um grupo, um país o que faz do conceito um resto do passado com funcionalidade ativa no presente. Reivindica-se, no verbete em questão, pensar o conceito dentro de uma constelação crítica mais ampla que remete para o tema-problema do “em comum”, e a monumentalidade fora de categorias apaziguadoras, como identidade, tradição, herança e pertença que apagaram, até quase a extinção, a força e a potência que as caracterizavam. Reivindica-se pensar patrimônio como patrimônios, articulá-lo às potencialidades desse país diverso e heterogêneo que é o Brasil. Levar em consideração recursos tangíveis e intangíveis de valor patrimonial, saberes das culturas indígenas e africanas, formas de enunciação diversas além do conceito de pertença e de identificação.


LÉXICO CONCEITUAL 
BRASIL-EUROPA VOL. 1: MEMÓRIA E PATRIMÔNIO

• De Ivan Domingues e Roberto Vecchi (orgs.)
• Fino Traço (244 págs.)
• R$ 55

LANÇAMENTO: Nesta sexta (19), às 18h, na Livraria 
da Rua (Rua Antônio de Albuquerque, 913, Savassi).


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