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A civilização ocidental

Os sistemas normativos (direito, moral e religião) produzem pautas com valores e crenças positivas e negativas para conduzir as sociedades humanas


27/11/2022 04:00

Lelis
(foto: Lelis)


Sacha Calmon
Advogado, doutor em direito público (UFMG). Coordenador do curso de especialização em direito tributário da Faculdades Milton Campos, ex-professor titular das faculdades de direito da UFMG e da UFRJ. Ex-juiz federal e procurador-chefe da Procuradoria Fiscal de Minas Gerais. Presidente honorário da ABRADT e ex-presidente da ABDF no Rio de Janeiro. Autor do livro “Curso de direito tributário brasileiro” (Forense)

Após Roma, o ocidente se tornou cristão. Essa civilização opõe à criação do homem já adulto e sexuado, sem pai – a não ser Deus –, nem mãe, esta feita da costela do homem, a ideia totalmente diferente, ou seja, o processo de evolução das espécies. Essa última é uma lição científica. O criacionismo é ideação religiosa. O inglês Darwin é o pai da evolução das espécies.

O narrador principal é o jesuíta Teilhard de Chardin, o que é surpreendente. Logo depois Morgan, antropólogo americano, mostra a evolução da espécie humana. São 70 mil anos de selvageria, 20 mil anos de barbárie e 10 mil anos de civilização, que coincide com o pastoreio, o sedentarismo e a agricultura às margens das bacias dos grandes rios (Amarelo, na China; o Indo, na Índia; Tigre e Eufrates, na Mesopotâmia; e Nilo, no Egito).

É uma história diversa da contada pela Bíblia, com Gêneses, Noé, os patriarcas e o êxodo. Para a tradição judaica, desde Adão até hoje, se passaram 5.800 anos, se tanto. Na pré-história da Torá. Abrão tinha mas não podia ter camelos, introduzidos na região 900 anos antes de Cristo. Testes a carbono de ossos de camelo provam a assertiva. Dois autores judeus alegam que a Torá foi escrita por Josias em 640 a.c. Nunca houve Israel no Egito e nem aconteceu o êxodo. A arqueologia prova que Jericó nunca teve muralhas. São Israel Finkelstein e Neil Silberman os autores que agora são referidos. Em verdade seca secular levou os povos da Palestina até o leste do delta do Nilo!

O interesse de Josias no Deuteronômio era criar uma mística para enfrentar o faraó Necau e a Babilônia. Não teve êxito e, desde então, Javé deixou de operar milagres. É curioso notar que depois do mito da fuga do Egito e das conquistas de Josué, o povo de Javé não venceu nenhuma guerra, até o século 20.

Perderam para egípcios, assírios, babilônios, persas, gregos, romanos, bizantinos, árabes, islâmicos, turcos otomanos, até a recriação pela ONU de Israel, quando deixou de ser protetorado britânico para tornar-se Estado soberano. Como se explica um Deus tão poderoso e milagroso e depois tão sossegado no curso histórico?

Cristo é uma outra tradição. Foi condenado por Caifás e Pilatos, por Roma, lavou as mãos! 

Em seguida com esforço em Jack Miles, Morgan, Cohn, Paul Jonhson, Karen Armstrong, Ferdinand Lot e Ernest Renan, se entremostra a total incompatibilidade entre Javé e Jesus. O “link” foi uma fatalidade histórica porque até 150 d.c., todos os discípulos eram judeus. Sem nada ter escrito, Jesus foi ligado ao Velho Testamento por dois elos frágeis: as canções do servo de Isaias 2 e as compilações apocalípticas de Daniel, que são desesperadas, ao estilo do judaísmo do segundo templo e das guerras macabeias (messianismo).

A doutrina cristã, originalmente avessa ao oficialismo, ao ser incorporada pelo Império Romano, disseminou-a pelo mundo ocidental, com os papas do medievo e seus poderes materiais (dos pontífices romanos). Mas o que se postula é uma espiritualidade superior à dessa civilização, que é intolerante além de basear-se no mito do pecado original.
As religiões semíticas (judaísmo, cristianismo e islamismo) são antropomórficas. Com autoridades iguais a dos homens, os deuses são legisladores, administram a lei e julgam a humanidade, seguindo-se o céu ou o inferno para todo o sempre (teogonia agoniada). É um reles final jurídico e aterrorizante para os fiéis, em tudo contrário a espiritualidade evoluída, menos agressiva e repressiva, como reconhecida por Freud e Marcuse em o “Mal-estar da civilização” e “Eros e civilização”.

Em suma, as religiões são técnicas de controle social que falam em virtudes e dominam pela inflição de ameaças, penas e castigos, tal e qual o direito, universal no planeta terra. Por toda a parte a lei organiza, reprime e conforta as sociedades humanas (máquinas sociais).

Os sistemas normativos (direito, moral e religião) produzem pautas com valores e crenças positivas e negativas para conduzir as sociedades humanas.

Eric From desenvolveu com maestria, doutor que era de psicologia social, essa ligação evidente, mas pouco percebida entre repressão e civilização. Civilizar é reprimir e já começa na primeira infância. Aqui a contribuição de Freud.
Isso não quer dizer que o senso crítico desaparece. Ele aqui está a dizer que a mística e religiosidade não são somente repressivas e instrumentais. Nisso reside o grande clarão que os místicos perceberam, procurando o ID encoberto e reprimido. Eis o Buda, São João da Cruz, Mestre Echakt entre outros, incluídos os sufis islâmicos, fora dos padrões oficiais.

A invenção do monotheo não é apenas judaica, mas intuição do taoismo, do xintoísmo e do budismo. São catarses metafísicas sob a capa da “iluminação” ou “oração” ou, simplesmente, “fé”.

Mas se Deus é amor incondicional e superior, estamos todos salvos.


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